Antes da Estante

Ossos do ofício

Posted in De Quinta, Jornalismo by Tomás Chiaverini on dezembro 26, 2008

Já me arrisquei bastante pela profissão. Dormi ao lado de traficantes de crack embaixo dum viaduto, cobri conflitos entre índios e arrozeiros em Roraima, voei em monomotor com teto baixo na Amazônia, entre outras excentricidades. Mas nunca havia passado tão perto de realmente morrer no cumprimento do dever do que nesta última semana.

E o mais irônico é que tudo aconteceu numa praia paradisíaca, enquanto eu cobria uma festa de paz-e-amor. Pois bem, antes que meus leitores fiquem por demais preocupados, vamos aos detalhes.

Estava eu parado na areia da praia de Pratigi, diante do acampamento base dos funcionários do Universo Paralello. A chuva dos últimos dias havia dado uma trégua e eu aproveitava o momento de calma para terminar de ver o pôr-do-sol.

Quando já estava anoitecendo, percebi que um caminhão baú, com faróis acesos, vinha trafegando em alta velocidade na faixa dura da areia, paralelamente ao mar. Eu percebi o que ele estava fazendo. Vinha pegando embalo para conseguir vencer uma faixa de areia fofa e entrar no acampamento, uma manobra comum por ali.

O problema é que ele estava muito rápido. Rápido mesmo. Eu calculei que ele iria fazer a curva perto de onde eu estava, mas não adiantava me mover antes de saber quando e onde ele daria a guinada para sair da praia. Também calculei que ele me veria, já que eu estava de pé, e ele estava com os faróis ligados.

Qual o que. Ele veio passando e fez uma curva fechada sem diminuir a velocidade, acelerando, caros leitores, e vindo direto na minha direção, mas vindo de um jeito como se tivesse feito pontaria e quisesse me acertar em cheio.

Não deu tempo de andar, nem de correr, não deu tempo nem de pensar. A única coisa que consegui fazer foi me jogar no chão, como um goleiro que tenta pegar um pênalti cobrado no canto. Caí na areia fofa e ainda tive tempo de ver o caminhão seguindo em frente, um caminhão, vejam só, da peixaria. Imaginem que terrível seria morrer atropelado pelo caminhão da peixaria?

Quando levantei atordoado, um sujeito que olhava a cena de longe veio correndo, pensando que eu tinha sido atingido. Eu disse que estava bem, agradeci a atenção e fui recolher minhas sandálias havaianas.

Elas estavam bem no meio do sulco cavado pelas duas rodas na areia.

PS: os leitores do antes da estante devem lembrar-se que esta não foi a primeira vez que um veículo desgovernado atentou contra a apuração do livro. Coincidência? Sei não, hein…

Anúncios

Gastando a sola das havaianas

Posted in De segunda, Jornalismo by Tomás Chiaverini on dezembro 22, 2008

Escrevo este post direto da lan house Giga-net, no coração barulhento e abafado da cidade de Ituberá. E, como havia previsto no post anterior, a apuração não está saindo exatamente como o esperado.

A cidade de Ituberá encontra-se a 26 quilômetros da vila de Pratigi (onde estou hospedado), que está a cerca de três quilômetros do local onde a equipe de produção do Universo Paralello está acampada que, por sua vez, está a cerca de um quilômetro do local onde ocorrerá a festa.

Os meios de transportes são irregulares a ponto de o motorista do ônibus não saber informar os horários do dia seguinte. O jeito tem sido resolver com caronas e gastando a sola das sandálias havaianas.

E os contratempos vão além das dificuldades de transporte. Os organizadores do Universo Paralello, que haviam se mostrado extremamente abertos e dispostos a participar do projeto alguns meses atrás, encontram-se agora à beira de um ataque de nervos. Nesse ambiente tenso de produção, desnecessário dizer que a presença de um repórter se torna no mínimo indesejada.

Pra completar, vejam só, o paraíso baiano de sol e coqueiros amanheceu embaixo de chuva. E pelo jeito dessa garoa fina, parece que o clima vai continuar nojento por alguns dias.

Mas nem tudo são espinhos. Já colhi algumas histórias e cenas interessantes e, inclusive, tenho algumas páginas rascunhadas sobre três ativistas gringos do projeto Fuck for Forest, algo como Foder para a Floresta, num português claro.

O cerne do projeto é, basicamente, um site de pornografia com conteúdo pago e com recursos destinados à preservação da natureza. O divertido é que as fotos são deles mesmos (duas garotas e um rapaz), e de outras pessoas ao redor do mundo, que mandam suas performances sexuais em fotos e vídeos, como forma de contribuir com o projeto.

Além de manter o site, o trabalho dos três fundadores é, basicamente, recrutar pessoas que achem interessantes e que estejam dispostas a transar com eles, ser fotografados e ter as fotos expostas na internet.

Quem tiver curiosidade ou quiser participar, pode conferir aqui o site deles.

Adri, não se preocupe que eu, evidentemente, declinei do convite.

Em busca do Universo Paralello

Posted in De Quinta, Jornalismo by Tomás Chiaverini on dezembro 18, 2008

Amanhã, sexta-feira, 19 de dezembro, meu laptop (Mr. Black) e eu embarcamos para o último grande desafio na elaboração de nosso livro-reportagem. Pouco depois das 10h deixaremos o aeroporto de Congonhas rumo à cidade de Ilhéus, onde teremos de descobrir uma maneira apropriada para chegar à praia de Pratigi, local em que já ocorrem os preparativos para o Universo Paralello, a mãe de todas as raves.

Mr. Black tem a difícil tarefa de agüentar a longa viagem em plena terceira idade e de lidar com elementos tecnologicamente desagradáveis como areia, sol e água salgada.

Eu, por minha vez, tenho a missão de encontrar uma forma de falar sobre o festival sem deixar o texto repetitivo. E de fazer isso em tempo recorde.

Pelo fato de ocorrer sempre durante o reveillon, o Universo Paralello acabou tendo de ficar para a última hora na ordem de apuração, o que, evidentemente não é o ideal. E, com o lançamento previsto para março de 2009, tenho de entregar o texto antes do fim de janeiro, para revisões, projetos gráficos e etc. Considerando que o festival termina no dia 4 de janeiro, concluímos que o tempo é justo e curto.

De qualquer forma, o restante do texto está pronto, redondo e no ponto, e já tenho inclusive um local esperando pelos capítulos sobre o festival baiano. Já tenho também alguma idéia da maneira que pretendo abordar a festa a fim de fugir das demais narrativas do livro. Pretendo explorar a relação entre a população de uma cidadela perdida no sul da Bahia e toda a loucura cosmopolita dos participantes do Universo Paralello.

Mas apesar da pauta pré-definida, tudo pode mudar, porque, infelizmente, não há como ir contra os caprichos e surpresas do mundo real. Está aí uma das partes mais emocionantes da profissão: as coisas nunca acontecem exatamente como o previsto.

PS: Devido a acidentes de percurso, os posts podem ocorrer com certa irregularidade daqui pra frente. Mas fiquem atentos porque certamente haverá notícias saborosas diretamente do front.

AAAaaarrrrrrrggg!

Posted in Jornalismo by Tomás Chiaverini on dezembro 16, 2008

Pois bem, eruditos leitores do Antes da Estante, podem espantar o cinza de suas vidas pois estamos de volta. Esses poucos dias em que seguimos afastados, certamente devem ter figurado como toda uma era geológica para os senhores. E digo que, para este que vos escreve, o tempo também tem custado a passar.

Primeiro porque, evidentemente, esse tempo afastado não foi algo assim como férias, visto que é comprovadamente impossível manter uma distância mental mínima desta obra em andamento. Segundo, porque essa impossibilidade de distanciamento vem trazendo um desagradável sentimento de saturação.

Não posso mais olhar para o texto que meus olhos se reviram para acabar se juntando, emburrados, num ponto indefinido entre meu nariz e a cansada tela de meu notebook, o já famoso Mr. Black.

Depois, porque não aguento mais me deparar com dreadlocks, psytrances, ecstasys, DJs, marombados dançando na lama, destinos paradisíacos, e garotas de saias indianas fazendo malabares ao nascer do sol.

Não quero mais saber, não quero mais ouvir histórias, não quero entrevistar mais ninguém, nem quero encontrar com aquele amigo que não vejo há alguns meses e ter de responder à encantadora pergunta: “e o livro, sai quando?”.

Cansei do mesmo assunto, cansei e quero esquecer a palavra “rave” para todo o sempre.

Ufa!

Desabafo desabafado e informo aos estimados leitores que na próxima sexta, dia 19, deixo São Paulo rumo a uma paradisíaca praia ao sul da Bahia, onde passarei 20 dias cobrindo o Universo Paralello, desde a montagem até o apagar das luzes. Vinte dias de dreadlocks, psytrances, ecstasys, DJs e etc.

Humpf!

%d blogueiros gostam disto: