Antes da Estante

Ética II – o retorno

Posted in De Quinta, Jornalismo by Tomás Chiaverini on outubro 16, 2008

Voltado à questão ética do post passado: o repórter deve ou não atender ao personagem, que pediu para ocultar o fato de que este fumava maconha.

No comentário do texto anterior, Ádrio argumentou que, se o personagem fumou diante do repórter, ele estava assumindo o risco. A informação, portanto,  tinha de estar no texto, ainda mais se considerando o fato de que ela é relevante para a elaboração do perfil completo.

Eu, entretanto, continuo com minhas dúvidas.

A prática de não publicar informações é recorrente no jornalismo. Sistematicamente repórteres recebem dados, ouvem conversas e vêem coisas que precisam ser deixadas fora das páginas dos jornais. Ou porque a informação não é realmente relevante (uma fofoca sobre um político que não afete seu trabalho, por exemplo), ou porque a fonte da informação pediu para que o fato fosse ocultado.

Neste último caso, que é onde nos encontramos, geralmente há uma relação de confiança entre repórter e fonte. Se essa relação é quebrada, o repórter não só perde a fonte como tem sua reputação prejudicada diante de outras fontes em potencial.

No nosso caso, se eu tivesse visto o sujeito fumar maconha e registrado no livro, seria uma situação delicada, mas de nenhuma forma questionável. Acontece que, quando acendeu seu baseado, o personagem, que sabia estar diante de um repórter, pediu, explicitamente, que aquilo fosse deixado de fora da narrativa.

Isso nos leva a um segundo problema.

Ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos – onde qualquer um pode escrever o que quiser sobre qualquer pessoa -, no Brasil, as leis são muito mais rígidas para com os jornalistas. Temos aí o caso de Paulo Cesar de Araújo e Roberto Carlos.

A biografia do “rei” era das mais elogiosas, mas mesmo assim o cantor entrou com um processo na justiça e simplesmente tirou o livro de circulação. Nada impede, portanto, que um personagem que se sinta traído pelo registro de parte de sua vida, entre na justiça e consiga embargar a venda do nosso livro.

Para precaver ações do tipo, tenho entrevistas gravadas com todos os personagens, onde eles são explicitamente comunicados de que estão diante de um repórter, e de que os dados ali colhidos serão utilizados na elaboração de um livro-reportagem.

Infelizmente, contudo, os vapores de THC não são resgistrados nem pelos modernos gravadores digitais.

A questão, portanto, continua no ar.

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