Antes da Estante

Publique seu livro agora. Pergunte-me como – Parte II

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on outubro 30, 2008

Quando todas as possibilidades de publicar “Cama de Cimento” (que na época tinha o título provisório de “Incômodos”) se esgotaram, resolvi apelar para São Google. Sentei diante do computador e digitei “editora” no buscador.

Passei dois dias visitando todos os sites de editora que encontrei. Entrava, dava uma conferida no catálogo pra ver se meu livro se encaixava, depois, na maioria dos casos, enviava, por e-mail mesmo, uma sinopse me apresentando e explicando do que se tratava o livro.

Mandei para umas vinte editoras, no mínimo. E recebi uma, apenas uma, única e solitária resposta que não fosse padrão. O editor Quartim de Moraes, dono de uma pequena editora chamada Conex, me respondeu com um e-mail curto que me deu vontade de sapecar um beijo na tela do computador.

Na época eu não sabia, mas Quartim era um repórter veterano. Chegara ao mundo editorial quase que por acaso, convidado, de uma hora pra outra, a fundar uma editora, a Senac, que ainda hoje permanece firme e forte estantes afora.

No e-mail Quartim pedia que, dali a dois dias, eu fosse pessoalmente lhe entregar uma cópia do livro. Se estivesse de acordo, era só aparecer, por ele já estava marcado.

Pois lá fui eu, um pouco nervoso e gaguejante, entregar o calhamaço encadernado à única pessoa que mostrou algum interesse. Com sua calma habitual, Quartim pediu que eu explicasse do que se tratava o livro, passou o polegar pela lombada como quem maneja um baralho, disse que o tema lhe interessava, mas, usando de uma dolorosa franqueza, ressaltou que tudo ia depender da qualidade do  texto.

Por fim, prometeu que me ligaria dali a mais ou menos um mês e meio, e me acompanhou até a porta.

Durante o tal mês e meio, reli o texto novamente e refiz cada frase do diálogo com o editor um sem número de vezes, sempre tentando extrair, de cada palavra, por mais banal que fosse, alguma indicação das impressões de Quartim.

Esperei mais 15 dias e nada de Mr Q. me ligar, nem mesmo para me dar uma daquelas respostas padrão. Esperei mais 15 dias. Tinha começado a trabalhar na Folha de S.Paulo na época, e o cotidiano puxado distraía um pouco a atenção.

Apesar disso, mais de dois meses depois de ter entregue uma cópia dos originais, não resisti. Mandei um e-mail para Quartim, pedindo desculpas pela insistência, mas perguntado se ele tinha conseguido dar uma olhada no texto.

A resposta veio menos de meia hora depois, em grandes letras azuladas. E dessa vez, além de ter aquela mesma vontade de beijar a tela do computador, não resisti a um alto e sonoro “puta que pariu!”, acompanhado de um soco na mesa, que fez toda a redação olhar para mim com um misto de susto e repreensão.

Quartim cobriu o texto de elogios, disse que além de bem escrito o material era um documento histórico, que tinha de ser editado e que, portanto, havia entrado na lista de publicação da Conex, para o primeiro semestre de 2007. Estávamos, então, em meados de 2006.

Mas havia um porém. Depois de fundar a Conex, Quartim tinha se associado ao grupo Nobel, e a publicação dependia do apoio dos sócios. Aparentemente não era nada que ameaçasse o projeto. Mas apenas aparentemente, porque muita água teria de rolar até que o livro chegasse finalmente às prateleiras…

… Continua segunda

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Publique seu livro agora. Pergunte-me como.

Posted in De segunda, Jornalismo by Tomás Chiaverini on outubro 27, 2008

Quando comecei a escrever “Cama de Cimento”, no início de 2005, nada indicava que o livro seria publicado. Um ano depois, nos primeiros meses de 2006, com o trabalho pronto, a situação era sensivelmente diversa. Tudo me dizia que ele nunca seria publicado. Um livro de um autor desconhecido, recém formado, que trata do espinhento cotidiano dos moradores de rua?

Ora, convenhamos, não há apelo comercial nenhum num material destes!

Na época, claro, eu procurava afastar pensamentos deste tipo da minha cabeça e, com meus parcos recursos, batalhava pela publicação de todas as formas possíveis.

Primeiro enviei cópias para editoras com as quais eu tinha algum contato. Sempre existe um amigo de um amigo, que conhece alguém que trabalha em alguma dessas herméticas companhias de impressão.

As respostas, em geral, vieram na forma de cartas padrão de recusa. Seu projeto é muito interessante, blá, blá, blá, mas, infelizmente, blá, blá, blá. Agradecemos por blá, blá, blá e esperamos blá, blá, humpf!

O mais próximo que cheguei da publicação nessa época foi um e-mail escrito pessoalmente pelo dono da Panda Books, editora da Bruna Surfistinha. Um e-mail de recusa. Ele me encorajava, dizia que o texto era muito bom, muito bem escrito, mas que o assunto era de doer. E gentilmente deixava a porta aberta para projetos futuros.

Na época, a Panda Books era a última das editoras indiretamente conhecidas para quem eu havia mandado os originais. As chances haviam acabado.

Mas evidente que não cheguei a aventar a idéia de desistir…

…Continua na quinta

Inércia…

Posted in De Quinta, Jornalismo by Tomás Chiaverini on outubro 23, 2008

… condição mortal para quem pretende escrever um livro, mas velha conhecida dos escritores em geral. Nessa estranha profissão, não há patrões, não há cartão de ponto, não há metas de produção nem avaliações trimestrais. Os deadlines parecem intermináveis.

E a inércia está lá, sempre à espreita, nos convidado a acordar às 11h30, a tomar café assistindo a Liga da Justiça e a embarcar numa produtiva tarde de Cinema em Casa, gelatinosamente emendado na Sessão da Tarde.

E basta uma escorregadela para que essa doce e tediosa rotina nos agarre, como um polvo grudento, e só nos largue quando arranjarmos um patrão daqueles bem tradicionais e pró-ativos.

Para evitar a maldita, o jeito é se impor uma rotina minimamente rígida, levar o trabalho a sério e lhe dar prioridade, acordar cedo (dentro da escala humana), criar metas de produção e investir constantemente na apuração. E a apuração, a busca por dados e informações, está sempre nos respondendo de formas diversas. Às vezes ela é fluida como manteiga no óleo quente, às vezes mais dura do que o bíceps do diabo.

No início do trabalho, em geral, ela está mais arisca, e nos manda direto para o caramelado abraço da inércia. É tudo tão complexo, as informações são infindáveis, não há por onde começar, tudo parece desconexo. Então é preciso trabalhar, quebrar pedra, socar a marreta no granito, até as coisas irem aparecendo, tomando alguma forma.

Eis que, de repente, o inverso acontece. A apuração se volta contra inércia, que fica pequena, humilhada como um controle remoto sem pilha embaixo do sofá. A marreta parece o martelo do Thor e o granito se molda gentilmente, feito pedra-sabão. Os caminhos se abrem. Tudo passa a fazer sentido, tudo se encaixa e uma informação vai levando à outra, as coisas vão se desdobrando, o texto fui e aquele deadline infinito parece pequeno, o que nos enche ainda mais de energia.

A mágica acontece. Um livro ganha contorno. Algum tempo (talvez muito) depois, as informações estão todas encaixadas, parecem formar um bloco coeso, um corpo uno, com começo meio e fim. É nesse estágio que me encontro atualmente. Com 174 páginas redigidas. Páginas que parecem satisfatoriamente prontas.

Atualmente, a inércia saiu debaixo do sofá e se insinua com o controle remoto numa mão e a caixa da oitava temporada do Seinfeld, que a Ingrid me emprestou, na outra. Ela se insinua, sorri com dentes brilhantes e me garante que está tudo pronto.

Argumenta que estou sendo perfeccionista. Para ela, os detalhes que na minha opinião precisam de retoque são irrelevantes e imperceptíveis. Nessas horas, a solução é pegar novamente a marreta e sentar bem no meio da testa da infeliz.

Com cuidado para não acertar os DVDs da Ingrid, claro.

Em primeira mão, os títulos provisórios dos capítulos já finalizados

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on outubro 22, 2008

1. Tunts, tunts, tunts, tunts

2. Dreadlocks e cafés expressos

3. O Super-Homem masoquista

4. De contravenções londrinas a puteiros no centrão

5. Sacolas de dinheiro, bugee-jumps e um 38

6. Nasce o império XXX

7. Corações de pelúcia sabor framboesa

8. Barulho de máquina quebrada

9. Patricinhas enlameadas

10. A entorpecente jornada da espaçonave raver

11. Que rufem os tambores eletrônicos!

12. As ninfas acrobatas seduziram o Denarc?

13. Segunda estrela à direita, depois em frente até o amanhecer

14. Tudo não é o bastante

Ética II – o retorno

Posted in De Quinta, Jornalismo by Tomás Chiaverini on outubro 16, 2008

Voltado à questão ética do post passado: o repórter deve ou não atender ao personagem, que pediu para ocultar o fato de que este fumava maconha.

No comentário do texto anterior, Ádrio argumentou que, se o personagem fumou diante do repórter, ele estava assumindo o risco. A informação, portanto,  tinha de estar no texto, ainda mais se considerando o fato de que ela é relevante para a elaboração do perfil completo.

Eu, entretanto, continuo com minhas dúvidas.

A prática de não publicar informações é recorrente no jornalismo. Sistematicamente repórteres recebem dados, ouvem conversas e vêem coisas que precisam ser deixadas fora das páginas dos jornais. Ou porque a informação não é realmente relevante (uma fofoca sobre um político que não afete seu trabalho, por exemplo), ou porque a fonte da informação pediu para que o fato fosse ocultado.

Neste último caso, que é onde nos encontramos, geralmente há uma relação de confiança entre repórter e fonte. Se essa relação é quebrada, o repórter não só perde a fonte como tem sua reputação prejudicada diante de outras fontes em potencial.

No nosso caso, se eu tivesse visto o sujeito fumar maconha e registrado no livro, seria uma situação delicada, mas de nenhuma forma questionável. Acontece que, quando acendeu seu baseado, o personagem, que sabia estar diante de um repórter, pediu, explicitamente, que aquilo fosse deixado de fora da narrativa.

Isso nos leva a um segundo problema.

Ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos – onde qualquer um pode escrever o que quiser sobre qualquer pessoa -, no Brasil, as leis são muito mais rígidas para com os jornalistas. Temos aí o caso de Paulo Cesar de Araújo e Roberto Carlos.

A biografia do “rei” era das mais elogiosas, mas mesmo assim o cantor entrou com um processo na justiça e simplesmente tirou o livro de circulação. Nada impede, portanto, que um personagem que se sinta traído pelo registro de parte de sua vida, entre na justiça e consiga embargar a venda do nosso livro.

Para precaver ações do tipo, tenho entrevistas gravadas com todos os personagens, onde eles são explicitamente comunicados de que estão diante de um repórter, e de que os dados ali colhidos serão utilizados na elaboração de um livro-reportagem.

Infelizmente, contudo, os vapores de THC não são resgistrados nem pelos modernos gravadores digitais.

A questão, portanto, continua no ar.

A ética dos baseados ocultos

Posted in De segunda, Jornalismo by Tomás Chiaverini on outubro 13, 2008

Todo mundo fuma maconha. Traduzindo “todo mundo” em números, temos algo como 160 milhões ao redor do planeta, de acordo com estimativa da Onu de 2006. Mas se eu fosse fazer um levantamento de acordo com os meus dados empíricos, diria que 160 milhões é pouco.

Conheço muita gente que fuma maconha. Conheço maconheiros de idades variadas e de classes sociais diversas. Conheço mães da família que não vivem sem doses regulares de THC no sangue. Uma delas ocupa um importante cargo executivo, e pelo menos três vezes por dia encontra um cantinho discreto das instalações de uma mega-corporação pra dar seus peguinhas.

Nem preciso dizer, portanto, que entre os organizadores de rave e seus asseclas, a boa e velha Cannabis sativa é consideravelmente popular.

Pois não é que o tão comum e disseminado cigarrinho do capeta acabou por me colocar num desagradável dilema ético.

A questão é que um dos personagens do livro é desses que consomem três, quatro, cinco, vários baseados por dia. Mas logo na primeira vez em que fumou durante uma de nossas entrevista, ele pediu que eu deixasse a substância, digamos assim, em “off”.

Eu concordei na hora, mas sem muita convicção.

Em encontros posteriores, os baseados continuaram e fui percebendo que o ato de fumar funcionava, para o personagem em questão, como uma espécie de ritual. Era algo que fazia parte da essência desse indivíduo.

Então, depois de várias entrevistas e inúmeros baseados, voltei ao assunto. Pedi permissão para citar o uso da droga no texto, argumentei que um perfil sobre ele ficaria incompleto sem citar a maconha, que havia inúmeras personalidades assumidamente maconheiras, evoquei Bob Marley, e assim por diante.

Na hora ele concordou, um pouco contrariado. Mas depois de algum tempo, em uma de nossas últimas entrevistas, voltou atrás. Explicou que não queria levantar bandeira de nada, que as raves já sofrem muito nas mãos da imprensa, e pediu que eu tirasse defintivamente os baseados do texto.

E o que fazemos numa situação dessas?

Quinta-feira, a resposta. Ou mais perguntas…

Proibição das raves: quando o legislativo age de forma clara

Posted in De Quinta, Jornalismo by Tomás Chiaverini on outubro 9, 2008

O deputado Fernando Capez (PSDB) é o responsável por um projeto de lei que, se aprovado, inviabilizará a produção de raves no estado de São Paulo. Ele, obviamente nem pensou em me conceder uma entrevista pessoalmente. Apenas concordou em responder algumas perguntas por e-mail (trabalho que deve ter sido feito por assessores).

De qualquer forma, ali ele afirma que seu intuito com a lei é apenas regulamentar as raves, nada de proibição.

A verdade, contudo, é que se o projeto passar, o que, acredito, não deve acontecer, a vida dos organizadores de festa ficará pra lá de complicada.

Entre as cláusulas mais absurdas da lei, está uma que estipula a obrigatoriedade de um seguraça para cada vinte pessoas, enquanto a Polícia Federal, recomenda uma média de um para cada 80 participantes.

Ou seja, do jeito que está, a regulamentação mais parece uma proibição disfarçada. Mas talvez o próprio deputado careça de certeza quanto a seus propóstios. Ouçam as sinuosas palavra do nobre Fernando Capez. Vale a pena.

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Ossos do ofício: isto é USP

Posted in De segunda, Jornalismo by Tomás Chiaverini on outubro 6, 2008

As paredes descascadas, as lages com infiltração e as divisórias improvisadas dos prédios, moldados numa retrógrada arquitetura moderna, já sugerem haver algo emperrado nas engrenagens da maior universidade do país.

E quem já freqüentou aquelas salas moribundas sabe que, além do descaso evidente para com as edificações há uma série de outros: para com as lousas arranhadas, as carteiras manquitolas e os professores desiludidos, transformados em gravadores empoeirados tocando fitas de rolo mofadas.

Mas nada disso se compara à quantidade de ferrugem que  se acumula nos mecanismos da assessoria de imprensa. O órgão, que deveria ser responsável, ente outras coisas, por lançar toda a pesquisa de ponta que é feita na USP (e há muita pesquisa de qualidade) para as manchetes nacionais, é uma espécie de polvo sem cabeça.

Repórteres que ligam para certas unidades em busca, por exemplo, de indicação de especialistas para comentar algum assunto específico, são atendidos, vejam só, pela secretária do diretor, que, com aquele mau-humor típico de funcionário público, olha para uma lista de ramais pregada sobre sua mesa e indica um nome de forma aleatória.

Portanto, assim como a maioria dos meus colegas, sempre que preciso falar com alguém da USP, tento contornar a assessoria de imprensa de qualquer forma.

Foi o que fiz semana passada. Depois de ler a excelente tese de doutorado da antropóloga Rita Amaral, fucei por algum tempo na internet e encontrei um contato de e-mail da pesquisadora. Escrevi me apresentando, apresentando meu trabalho e pedindo que ela dispusesse algo como uma hora de seu tempo para me conceder uma entrevista.

A resposta:

“Caro Tomás,
Tudo que tenho a dizer sobre festas está na tese. Não tenho nada de muito novo pra dizer e como meu tempo é curto, não dá para aprofundar , ainda menos pessoalmente, questões com todos que me pedem isso. Por isso coloquei a tese na Internet.
Boa sorte com seu livro.
Abraço
Rita”

E o mais incrível, caros leitores do Antes da Estante, é que todo esse eficiente e azeitado organismo é financiado com o seu, com o meu, com o nosso rico dinheirinho!

Visões antropológicas

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on outubro 2, 2008

“toda festa, mesmo quando puramente laica em suas origens, tem certas

características de cerimônia religiosa, pois, em todos os casos ela tem por

efeito aproximar os indivíduos, colocar em movimento as massas e suscitar

assim um estado de efervescência, às vezes mesmo de delírio, que não é

desprovido de parentesco com o estado religioso.[…] Pode-se observar,

também, tanto num caso como no outro, as mesmas manifestações: gritos,

cantos, música, movimentos violentos, danças, procura de excitantes que

elevem o nível vital etc. Enfatiza-se freqüentemente que as festas populares

conduzem ao excesso, fazem perder de vista o limite que separa o lícito do

ilícito. Existem igualmente cerimônias religiosas que determinam como

necessidade violar as regras ordinariamente mais respeitadas. Não é,

certamente, que não seja possível diferenciar as duas formas de atividade

pública. O simples divertimento, […] não tem um objeto sério, enquanto

que, no seu conjunto, uma cerimônia ritual tem sempre uma finalidade

grave. Mas é preciso observar que talvez não exista divertimento onde a

vida séria não tenha qualquer eco. No fundo a diferença está mais na

proporção desigual segundo a qual esses dois elementos estão combinados.”

Émile Durkheim (sociólogo francês)

Citação extraída da tese de mestrado “Festa à Brasileira: significados do festejar, no país que “não é sério””, da antropóloga Rita de Cássia de Mello Peixoto Amaral.

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