Antes da Estante

Ser ou não ser: esta é uma questão

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on setembro 25, 2008

No divertido último post, Bruno e JC sugeriram que eu inserisse, no livro, a história do roubo da cerveja no puteiro.[1] Pois eu, de minha parte, tenho certas dúvidas sobre até que ponto o repórter/narrador deve se colocar também como personagem.

Através da história do tal “jornalismo-literário” há diversos exemplos de autores que se retratam como parte do enredo e de outros, que se arvoram do posto de narrador oculto. A grande graça dos textos em que o repórter se coloca como personagem, na minha opinião, é que o leitor comum, geralmente, está muito mais próximo do autor do livro, do que do objeto retratado.

É mais fácil, para o cidadão médio, se identificar com um jornalista do que: com freqüentadores de clubes swing (Gay Talese em “A mulher do próximo”), com produtores de Hollywood (Lillian Ross em “Filme”), ou com bandoleiros motorizados (Hunter S. Thompson em “Hell´s Angels”)

No “Cama de Cimento”, em momentos diversos, me coloquei como personagem. Não havia como deixar de fora as impressões de um jovem repórter de classe média que se embrenha entre os desabrigados de São Paulo.

E acredito que um dos maiores trunfos do livro é justamente fazer com que o leitor se sinta na pele de um sujeito (relativamente) normal, que passa uma noite tentando dormir ao lado de traficantes de crack, ou que se disfarça de mendigo para ser recolhido a um albergue municipal.

No “Projeto Rave”, entretanto, tenho mantido o personagem repórter um pouco mais distanciado, a não ser em algumas circunstâncias específicas, como no capítulo em que narro as sensações que tive depois de tomar um ecstasy na pista de dança de uma rave.

Acho que, como o livro será muito focado em perfis dos personagens, a interferência do narrador desviaria a atenção. No caso da história do puteiro, por exemplo. Gasto duas ou três páginas para descrever as ações de Dmitri naquele ambiente, o que deve fornecer ao leitor pistas sobre a personalidade do DJ.

E por mais que a referida narrativa agregue informações sobre o mundo do personagem, será que não seria exagero encaixar duas páginas descrevendo meus contratempos com a cerveja?


[1] Com a nova, feia e confusa diagramação da página (feita pelo WordPress, mas já posta de lado), Bruno e JC se atrapalharam, e colocaram o comentário no post anterior, mas entendi que se referiam à história do roubo da cerveja

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4 Respostas

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  1. JC said, on setembro 25, 2008 at 19:06

    “Este é mais um paradoxo, que a maioria das impressões e pensamentos mais importantes na vida de uma pessoa são os que passam pela cabeça tão rápido que rápido não chega nem a ser a palavra exata, eles parecem ser tão diferentes ou alheios ao tempo normal e seqüencial do relógio que rege nossas vidas e possuem tão pouco em comum com o inglês meio linear, de uma- palavra- depois- da- outra, com o qual todos nos comunicamos que poderia levar uma vida inteira, fácil, só para expôr em detalhes um segundo do conteúdo de um clarão de pensamentos e conexões etc. – e apesar disso parece que continuamos tentando usar o inglês por aí (ou seja qual for a língua nativa usada em seu país, não precisa nem dizer) para tentar transmitir aos outros o que estamos pensando e descobrir o que eles estão pensando, quando bem no fundo todo mundo sabe que é uma piada e que faz tudo parte de uma encenação.” [David Foster Wallace, “Good Old Neon”]

    O excerto acima tem mais relações com o seu post do que parece.

  2. adrio inveriach said, on setembro 26, 2008 at 01:33

    Bem mais uma vez vem à tona o lance do não envolvimento participativo

    O lance da cerveja é engraçado, mas o reporter sente, e se envolve.
    O não envolvimento permite uma visão mais objetiva e portanto mais crítica.

    Pelo que vc escreveu neste post vc quer o leitor mais distanciado, consciente de que está lendo uma reportagem.
    Então deverá ocorrer o processo de afastamento, a anti-catarse de que fala o Brecht.

    É o conflito entre a estética e a objetividade, uma vez que a mensagem estética por definição é ambígua.(segundo o linguista Roman Jakobson)
    Veja que aí em cima eu disse que o lance da cerveja é engraçado, ou seja existe uma conotação, uma estética.

    Mas por outro lado às vezes acho que a ambiguidade de uma mensagem pode provocar a necessidade de uma observação mais participativa. O leitor tem que interpretar , portanto é forçado a uma análise da situação. As mensagens estéticas são muito eficientes, tanto que são vítimas de censura em regimes ditatoriais.

    Acho que tive um ataque semiológico

    Bem, meu voto é não… quer dizer sim… ou melhor talvez.

    Não: o lance é engraçado mas irrelevante. Não contribui em nada para o relato do problema.
    Sim: Essas piadas, as pequenas ironias é que dão a graça e a beleza do texto.

    Talvez…. é pode ser. Um documentário não pode ser artístico?

    Sei lá… Pô meu! vc que ta escrevendo e a gente que tem que decidir o que vai entrar no livro… Quero minha comissão (rss)

  3. Tomás Chiaverini said, on setembro 26, 2008 at 14:23

    Na verdade, não é que eu queira o leitor distanciado. Só acho que, neste caso, o fato de me colocar na ação desvia o foco do personagem, que é o DJ Dmitri. É ele que está interagindo com o espaço e é apenas devido a ele que esse espaço está retratado no livro.

    Talvez o repórter personagem só tenha de ser usado quando se torna irremediavelmente o foco da ação: dorme embaixo do viaduto, toma um comprimido de ecstasy, etc. Ou ainda quando outro personagem retratado interage com ele, tem alguma reação diante dele.

    Quanto à estética, viva a estética! Senão leríamos apenas a Folha e o Estado.

  4. adrio inveriach said, on setembro 26, 2008 at 21:45

    Então vale o não envolvimento participativo. O reporter no viaduto ou que tomou ecstasy participou mas não se envolveu. Ele entrou lá mas não se envolveu com a “trama”, não virou personagem, não mudou a história. Participa mais ou menos como se estivesse assistindo a peça, sem ser ator. E isso?

    Quanto a mensagem estética… veja vc que muita gente prefere este ou aquele jornal por ser mais bonito! O sucesso do Jornal da Tarde foi o aspecto gráfico inovador.


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