Antes da Estante

Paz, amor e aliciamento

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on setembro 29, 2008

É fato. Querem acabar com as raves. Há uma série de projetos de lei tramitando em diversos municípios brasileiros. As propostas são embasadas pelo argumento de que as festas constituem um estímulo ao consumo de drogas, visão compartilhada por políticos, policiais, pastores evangélicos e pais aflitos.

Mas, além desses setores mais conservadores da sociedade, há um bom número de ex-entusiastas do movimento, que hoje sequer passa perto de uma rave. Para eles, nos primeiros eventos, ocorridos há mais de uma década, havia um clima de paz, amor e comunhão, clima que se acabou quando as festas tornaram-se gigantescas e passaram a visar o lucro acima de tudo.

Numa manhã de domingo durante uma mega-rave ocorrida no segundo semestre de 2008, o organizador da festa, visivelmente embriagado de vodka com energético, travava um discurso pra lá de surreal, que ilustra bem a distância dos princípios neo-hippies das primeiras raves.

– Traz aqui. Deixa eu ver – dizia para um outro sujeito baixo, acima do peso, e com uma mancha vermelha no branco de um dos olhos, como se tivesse levado um soco.

– Mas não precisa, elas são de primeira – argumentava o do olho vermelho.

– Traz aqui. E eu quero ver – insistiu o organizador do evento até que o outro concordou e saiu andando.

Algum tempo depois voltou, cutucou o ombro do dono da festa e apontou para três meninas aparentando uns 16 ou 17 anos. Paradas no gramado, a alguns metros, as três tinham cabelos lisos compridos, usavam jeans justo, botas de cano alto, mordiscavam pirulitos e olhavam sorrindo para os dois sujeitos que discutiam.

– Não vai dar – respondeu o organizador depois de examinar as meninas.

– Pôxa meu, deixa eu subir com elas no palco, meia hora só.

– Não. Depois elas vão querer aparecer, ir lá pra frente junto com os DJs, não tem como.

– Pôxa meu, eu juro pra você, eu subo lá e quando você disser pra eu vazar eu vazo.

– Então vaza agora.

– Quinze minutos.

– Não vai dar – continuou o organizador, depois olhou para as meninas de novo, voltou-se para o outro e exclamou, como que se explicando – você podia ter arrumado coisa melhor, né?

– Ah, mas fazer o quê – respondeu o outro – é o que a gente consegue. Essas aí são fáceis. É só subir ali, encostar atrás do telão e em cinco minutos aposto que rola uma chupetinha…

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Ser ou não ser: esta é uma questão

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on setembro 25, 2008

No divertido último post, Bruno e JC sugeriram que eu inserisse, no livro, a história do roubo da cerveja no puteiro.[1] Pois eu, de minha parte, tenho certas dúvidas sobre até que ponto o repórter/narrador deve se colocar também como personagem.

Através da história do tal “jornalismo-literário” há diversos exemplos de autores que se retratam como parte do enredo e de outros, que se arvoram do posto de narrador oculto. A grande graça dos textos em que o repórter se coloca como personagem, na minha opinião, é que o leitor comum, geralmente, está muito mais próximo do autor do livro, do que do objeto retratado.

É mais fácil, para o cidadão médio, se identificar com um jornalista do que: com freqüentadores de clubes swing (Gay Talese em “A mulher do próximo”), com produtores de Hollywood (Lillian Ross em “Filme”), ou com bandoleiros motorizados (Hunter S. Thompson em “Hell´s Angels”)

No “Cama de Cimento”, em momentos diversos, me coloquei como personagem. Não havia como deixar de fora as impressões de um jovem repórter de classe média que se embrenha entre os desabrigados de São Paulo.

E acredito que um dos maiores trunfos do livro é justamente fazer com que o leitor se sinta na pele de um sujeito (relativamente) normal, que passa uma noite tentando dormir ao lado de traficantes de crack, ou que se disfarça de mendigo para ser recolhido a um albergue municipal.

No “Projeto Rave”, entretanto, tenho mantido o personagem repórter um pouco mais distanciado, a não ser em algumas circunstâncias específicas, como no capítulo em que narro as sensações que tive depois de tomar um ecstasy na pista de dança de uma rave.

Acho que, como o livro será muito focado em perfis dos personagens, a interferência do narrador desviaria a atenção. No caso da história do puteiro, por exemplo. Gasto duas ou três páginas para descrever as ações de Dmitri naquele ambiente, o que deve fornecer ao leitor pistas sobre a personalidade do DJ.

E por mais que a referida narrativa agregue informações sobre o mundo do personagem, será que não seria exagero encaixar duas páginas descrevendo meus contratempos com a cerveja?


[1] Com a nova, feia e confusa diagramação da página (feita pelo WordPress, mas já posta de lado), Bruno e JC se atrapalharam, e colocaram o comentário no post anterior, mas entendi que se referiam à história do roubo da cerveja

Ossos do ofício: roubado duas vezes num puteiro do centrão

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on setembro 22, 2008

Pois então, sexta passada, lá estava eu em um puteiro do centro da cidade, na companhia de Dmitri Rugiero, fundador do núcleo de festas Mega-Avonts e importante personagem do nosso livro.

Já vou avisando, para os leitores mais conservadores do Antes da Estante, que a referida casa de tolerância, encontrava-se desativada para sediar uma espécie de rave indoor.

Ainda havia luzes de neon roxo e palcos com aqueles postes prateados, onde uma ou outra garota de biquíni se exibiu durante algum tempo, mas, para fins libidinosos tradicionais, o estabelecimento estava mesmo desativado.

Mas, enfim, vamos ao primeiro roubo: paguei 5 reais por uma lata de Skol quase na temperatura ambiente. Aliás, paguei 5 reais por várias latas de Skol quase na temperatura ambiente, porque cheguei ao local por volta das onze da noite de sexta, hora em que Dmitri abriu a pista, e não saí antes das cinco da manhã. O primeiro roubo, portanto, repetiu-se algumas vezes.

O segundo roubo aconteceu quando a madrugada já ia mais do que alta. Novamente paguei os cinco reais por uma cerveja, apoiei a lata no balcão do bar enquanto guardava a carteira no bolso e quando virei para apanhar novamente a cerveja, ela havia evaporado. Não apenas a cerveja, mas a lata também.

Olhei em volta em busca do precioso líquido dourado e, bem ao meu lado, havia um rapaz magro, baixo, usando uma camisa ridiculamente florida e com a expressão do rosto posta numa inacreditável cara de paisagem. E na sua mão, evidentemente, havia uma lata de cerveja que não estava lá antes, e que se parecia incrivelmente com aquela que eu havia acabado de comprar.

Eu me aproximei do sujeito, e com a boca quase colada na sua orelha repulsiva, perguntei polidamente:

– Você roubou minha cerveja?

Ele deu de ombros e continuou com aquela cara abobada de paisagem. Eu me aproximei mais, até quase sentir o cheiro de desodorante barato, e perguntei de novo, agora já quase afirmando:

– Você roubou minha cerveja?!

Ele então se virou com uma careta retorcida, balançou um pouco de bêbado, e esticou a lata em minha direção, simplesmente devolvendo o produto do roubo. Eu, da minha parte, lembrei dos conselhos que minha mãe sempre me dá quando freqüento puteiros: “Vê lá onde põe a boca, meu filho”.

Então simplesmente fiz um gesto de desprezo e me virei para o outro lado, apenas para topar com uma amiga do sujeito que, vendo que eu conversava com ele, achou-se no direito de também conversar comigo:

­- Você é amigo do fulaninho? – (desculpem esqueci o nome da figura)

– Não, ele só acabou de roubar minha cerveja.

– Ai, putz – exclamou a menina meio sem jeito – Ai, dá um desconto pra ele, porque, ai putz, ele é supermeuamigo, mas é que as drogas tipo comeram o cérebro dele.

Cama de Cimento na TV

Posted in Extra by Tomás Chiaverini on setembro 19, 2008

Pois é, caros leitores do Antes da Estante, a fama vem a galope, arrastando tudo à sua volta como o furacão Ike. Quem estiver desocupado neste fim-de-semana pode se divertir um pouco rindo da cara deste que vos escreve, gaguejando diante das câmeras.

Há alguns meses concedi uma entrevista, profunda como as escavações do pré-sal, à pequena, porém notável, TV Mackenzie. Ela será exibida neste sábado (20h30) e reprisada no domingo (15h30).

Assunto: Cama de Cimento. Canais: NET, 11; TVA, 71 e 187.

Degustação: Rica Amaral toca na rave Xxxperience

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on setembro 18, 2008

Foram horas e mais horas de conversa, leituras e mais leituras de tudo o que já foi publicado sobre o DJ,  noites e mais noites apenas circulando por seu restaurante (o Chácara Santa Cecília), e uma viagem a Ribeirão Preto.

Mas, por fim, creio que temos um perfil caprichado do DJ Rica Amaral, que se espalhará por três capítulos do livro, amarrando e sendo amarrado pela história das raves no Brasil.

Abaixo, coloco três parágrafos que estarão na porção final do perfil, uma espécie de clímax da história de Rica. Os fatos narrados abaixo foram colhidos na madrugada do último dia 7, pouco depois de quase passarmos dessa para melhor, como contei aqui há duas semanas.

Depois de cruzar a aquela multidão sendo agarrado, apalpado e cumprimentado, Rica Amaral sobe pela lateral do palco e pontualmente às cinco horas da manhã, dez minutos depois de ter acordado no banco de trás do taxi de seu Zé, ele está pronto, e pergunta para uma moça da produção se já é hora de começar o set. Mas o line-up atrasou um pouco, e Rica ainda espera uns trinta minutos antes de entrar no palco, diante de um telão de uns quatro metros de altura.

Antes de assumir a CDJ, ele pede que a produção apague as luzes voltadas para a mesa de equipamentos. Explica que o DJ não pode ser um pop-star, que ele não está ali protagonizando um show de rock e que seu objetivo é fazer as pessoas dançaram, transcenderem pela música. Para isso, quanto menos aparecer, melhor.

Às cinco e trinta e três da manhã, vestindo uma jaqueta camuflada fechada até o pescoço, Rica coloca o fone de ouvido, insere um CD, ajusta alguns botões, e marca o ritmo das pancadas suaves que se iniciam, pac, pac, pac, como se seu dedo indicador fosse a baqueta do baterista virtual, pac, pac, pac e outras batidas descompassadas vão aparecendo e o pac, pac, pac continua, e a pista parece suspensa apenas esperando pelo que virá, e então, como se aplicasse um golpe de karatê, com a outra mão, o DJ anuncia a entrada do bumbo e tum, tum, tum, pronto, já era, todos estão pulando, gritando e assobiando como se fizessem parte daquela máquina musical comandada por Rica.

“Rave”

Posted in Extra by Tomás Chiaverini on setembro 17, 2008

De acordo com o Michaelis:

n 1 delírio, acesso de cólera, fúria. 2 coll elogio exagerado. 3 moda passageira, novidade. 4 festa louca e animada. • vi 1 delirar, tresvariar, proferir palavras incoerentes. 2 enfurecer, encolerizar. 3 ser louco por, querer a todo custo. 4 falar com demasiado entusiasmo, elogiar exagera­damente. rave-up Brit coll festa muito louca. to rave about one’s abilities fazer alarde de suas qualidades. to rave after querer a todo custo. to rave up festejar, divertir-se.

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O repórter e o raver

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on setembro 15, 2008

Uns sete ou oito meses atrás, sentado numa daquelas mesinhas de mármore do bar do Genésio, eu conversava com meu amigo JC sobre uma idéia que começava a tomar forma na minha cabeça, uma idéia maluca e despropositada, de escrever um livro-reportagem sobre raves.

Engessado pelo esquemão quadrado da grande imprensa, onde ainda hoje está atuando, meu estimado colega se empolgou de cara e, antes mesmo que eu fosse capaz de pronunciar a palavra psytrance, pegou no meu braço, se inclinou para frente e abriu um sorriso levemente assustador:

– Cara, se torne um raver – exclamou articulando bem as palavras. – Mergulhe de cabeça nesse mundo que vai ser um livro docaralho!

Desde então, venho tentando seguir os sábios conselhos de JC. Fui a um punhado de festas e até me descambei para o interior de Goiás num ônibus fretado, em companhia de 40 malucos, para participar dos cinco dias de música ininterrupta do festival Trancendence.

Mas acho que foi só neste último fim-de-semana, mais precisamente no sábado, dia 13, que, ao menos por algumas horas, realmente me tornei um raver. Pela primeira vez fui a uma festa sem o intuito de atuar como repórter.

Até levei minha bolsa, com bloco de anotações, caneta e gravador (vai saber), mas não usei nada disso. A fim de me ajudar a manter distância segura da reportagem, consegui arrastar minha namorada e um amigo – ambos virgens no mundo das raves -, para debaixo das tendas flúor da Earth Dance. Ainda encontrei outro colega da época da faculdade por lá, este um raver ocasional.

Assim, como simples amigos num sábado à noite, participamos do ritual de abertura que aconteceu ao mesmo tempo em 300 cidades de 80 países ao redor do mundo, dançamos por umas boas horas ao som do psytrance, comemos hambúrguer de soja, fizemos compra na lojinha de roupas raver, tomamos chuva e quase atolamos o carro na volta pra casa (com o doloroso prejuízo de uma lanterna traseira, esmigalhada contra o tronco duma árvore).

Já durante o percurso de volta, contudo, o repórter voltou a dominar a situação. E enquanto tentava enxergar a estrada debaixo de uma chuva grossa que não dava trégua, tratei de cobrir meus dois acompanhantes com uma avalanche de perguntas sobre suas primeiras impressões a respeito daquele barulhento fenômeno dançante.

Expandindo os tentáculos virtuais

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on setembro 11, 2008

Na época em que o site Essential, do portal Limão, publicou aquela matéria

sobre o “Projeto Rave”, Paula Romano, a repórter que me entrevistou, propôs que eu publicasse alguns dos textos do blog naquele mesmo espaço.

Fiquei um pouco em dúvida na época, afinal o site é sobre música, e o Antes da Estante está mais voltado para o jornalismo e seus meandros. De qualquer forma, ontem resolvi fazer uma experiência e o post desta segunda pode ser lido também no Essential que, a princípio, passa a publicar um texto meu por semana, todas as quartas.

Ossos do ofício

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on setembro 8, 2008

Pouco depois das três e meia da madrugada deste domingo, encontrava-me a percorrer o quilômetro 165 da rodovia Anhanguera. Meu transporte era um táxi extremamente confortável, com direito a bancos de couro e filmes de DVD. Como companhia, além de seu Zé, divertido motorista que sabe tudo sobre a vida dos principais DJs brasileiros, estava Rica Amaral.

Já disse aqui no blog, mas não custa repetir, que Rica será um dos principais personagens do livro. Por isso, eu havia me metido naquela viagem insólita, rumo a uma fazenda de cana em Ribeirão Preto, onde ocorreria a última edição da rave Xxxperience. A idéia era observar o DJ em ação.

Havíamos saído de São Paulo por volta da uma e meia da manhã, Rica tocaria às cinco, e Ribeirão ficava a mais de 300 quilômetros de distância. Assim, não havia tempo a perder e seu Zé pilotava a uma velocidade média de 140 quilômetros por hora, alcançando picos de 160 com facilidade.

Naquela hora, contudo, estávamos mais devagar, a uns 120, porque observávamos um carro na nossa frente, que descrevia perigosos zigue-zagues na pista, como se o motorista estivesse bêbado ou cochilando ao volante. Eu viajava no banco dianteiro e Rica ia atrás, devorando um pacote de batatinhas.

Quando seu Zé diminuiu a velocidade, um pouco receoso de ultrapassar o outro veículo, Rica debruçou-se entre os dois bancos dianteiros, e por algum tempo ficamos a observar os movimentos do outro carro, torcendo para que ele não saísse da pista e se esborrachasse contra algum outro veículo.

A possibilidade era remota, porque a estrada estava muito vazia, havia duas pistas largas e lisas, separadas das outras duas que voltavam por um amplo canteiro gramado.

Nós continuávamos observando, seu Zé esperava a hora para ultrapassar, quando, subitamente, vimos uma luz estranha crescer diante de nós. O carro que ia em zigue-zague desviou para a pista da direita. Como que por instinto, sem saber do que se tratava a luz, seu Zé achou por bem fazer o mesmo. Diminuiu ainda mais a velocidade e encostou à direita, seguindo o motorista que parecia bêbado.

Foi o tempo exato para evitar o choque com um outro veículo que vinha em alta velocidade, na contra-mão. Ele passou por nós como um fantasma, sem dar sinais de luz alta, sem tocar a buzina, apenas seguindo adiante naquela velocidade vertiginosa, à espera do encontro com o inevitável.

E nós também seguimos adiante. Tudo aconteceu tão rápido que não houve tempo para sustos.

Duas horas depois, Rica Amaral tocava no palco da Xxxperience, tentando não se desconcentrar com uma garota que, debruçada nas grades de proteção diante do palco, gritava sem parar:

“Ricaaaaa, te amôÔÔÔÔ!”.

Rave na pré-história

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on setembro 4, 2008

Quando escrevia o post anterior, falando sobre as origens tribais das raves, lembrei de uma matéria que li na Folha de S.Paulo e pode ser acessada aqui.

Lá o repórter e colunista Thiago Ney, especialista em música pop, desencava uma pesquisa de um certo sociólogo britânico sobre o comportamento musical dos homens de Neandertal.

Fazendo um paralelo com o mundo moderno, o sociólogo afirma que nossos ancestrais* promoviam algo muito parecido com uma rave, em suas cavernas situadas onde hoje se encontra a França.

*ERRO MEU: conforme bem apontou o leitor Ádrio Inveriach nos comentários abaixo, os Neandertais não são nosssos ancestrais.

De volta às origens

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on setembro 1, 2008

Boa parte dos cabelos vem emaranhada em tufos dreadlocks. As cores preferidas para saias rodadas, calças folgadas, batas e ponchos são aquelas de tonalidades naturais, do marrom ao verde musgo. Há rostos pintados com traços de tinta vermelha, e há aquela música, aquele ensurdecedor e repetitivo tambor eletrônico.

É impossível, portanto, olhar para uma pista de dança de uma rave ou festival sem traçar um paralelo imediato com alguma arquetípica festa tribal. E essa semelhança, às vezes, surpreende até os mais envolvidos com o fenômeno raver.

Há quase dois meses, na pista de dança do Trancendece, Alok, o organizador do Universo Paralello, olhou em volta, depois se virou para mim empolgado e sentenciou:

“Isso é uma incrível experiência antropológica pós-moderna.”

E eu fiquei pensando nisso.

E fiquei olhando a pista, aquele monte de gente pulando num Kuarup eletrônico, cuja fonte de energia estava no som repetitivo e hipnótico do psytrance… Então comecei a pensar na história da música eletrônica.

O psytrance evoluiu do house e do techo. O house e o techno vieram da disco-music, que veio do rock. O rock veio do blues. O blues evoluiu a partir das work-songs, músicas cantadas pelos escravos americanos, que certamente se inspiravam nos sons da África tribal, que devia ter muito em comum com o psytrance.

Dá o que pensar não?

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