Antes da Estante

Divagações: amigos ou personagens

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on agosto 4, 2008

Rica Amaral é um dos nomes mais importantes do universo raver brasileiro. Foi um dos primeiros a tocar (e a mixar) psytrance por aqui, atualmente é um dos DJs mais requisitados e bem-pagos do mercado nacional, e foi o fundador do núcleo de festas Xxxperience, que hoje promove as maiores raves do país.

Conversei com Rica pessoalmente duas vezes até o momento, sem contar trocas de e-mails e telefonemas. Somadas, as entrevistas devem totalizar umas seis horas de áudio gravado e estamos combinando outros encontros, provavelmente para que eu o acompanhe no trabalho.

Nas duas ocasiões em que conversamos ao vivo, o DJ me recebeu em sua casa, me ofereceu um caprichado café expresso com leite, me apresentou para seu filho pequeno e para sua mãe (que estava por lá cuidando do neto), e me emprestou livros e DVDs sobre mundo das raves.

Rica Amaral será um dos principais personagens da nossa narrativa. A partir de sua história de vida, irei abordar o universo das festas visto do ponto de vista dos organizadores dos eventos.

O casal que aparece junto comigo na foto acima (tirada durante o festival Trancendence, em Goiás), cujos nomes provavelmente não estarão no texto final, irá emprestar suas histórias para que eu mostre o mundo das raves a partir do ponto de vista inverso, daqueles que participam, que curtem as festas.

Convivi com eles durante dez dias. Saí de São Paulo no ônibus da excursão em que os dois viajavam, passei cinco dias acampado ao lado deles durante o Trancendence, e depois ainda me hospedei na mesma pousada, e gastei alguns dias grudado nos dois, percorrendo trilhas e cachoeiras da Chapada dos Veadeiros.

Durante as horas que estive com Rica e os dias que passei com o casal, colhi histórias fantásticas, curiosas, divertidas e até dramáticas. Posso dizer, que conheço relativamente bem essas pessoas e que sou capaz de descrever detalhes de suas vidas particulares com certa propriedade.

Ao mesmo tempo, um outro fenômeno acabou ocorrendo: me tornei amigo deles.

E quando estou escrevendo, por mais que tente esquecer o fato de que eles irão ler aquilo tudo, não há como disfarçar a existência de uma pontinha de preocupação. Será que estou sendo canalha com esse caras? Será que determinada frase vai deixá-los ofendidos ou magoados? E, principalmente, se há essa possibilidade, será que aquela frase é essencial, tem que estar no texto final?

A já combalida imparcialidade, acaba sofrendo duros golpes diante dessa proximidade toda.

Por outro lado, em alguns momentos, confrontando os primeiros rascunhos do texto sobre Rica, escrito após nosso primeiro encontro, com o outro, elaborado depois do segundo contato, percebi que o último está muito melhor. Não só pelo fato de que a apuração está mais completa, mas também porque algumas frases daquelas que poderiam deixá-lo chateado, foram deletadas.

E olhando para elas agora, percebo que não foram apagadas apenas por um receio quanto ao que Rica acharia delas. Foram limadas do texto porque eram preconceituosas, apegavam-se a um estereótipo que talvez a imagem do DJ passasse a mim num primeiro momento, e que, após um contato mais profundo, se mostrou infundado.

Portanto, lembrando do que sempre diz meu amigo que deixou de ser jornalista para trabalhar com índios isolados no interior da Amazônia: “foda-se a imparcialidade. O que realmente importa é o compromisso com os fatos” e, no caso, com a essência humana dos personagens.

7 Respostas

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  1. adrio inveriach said, on agosto 4, 2008 at 23:13

    No seu primeiro livro percebi simpatia e emoção sua em relação a determinadas pessoas. Achei isso uma qualidade, porque demonstra sinceridade.
    Se você se afeiçoou a algumas pessoas entrevistadas acho que isso pode aparecer sem problema algum. (lembre-se do caso Trumann Capote)

    Não acredito muito em imparcialidade. Se vc enviar um jornalista cristão, outro comunista e outro m uçulmano contar o que aconteceu na ex Iugoslávia pedindo pra eles serem imparciais, com certeza terá três verdades diferentes.

    Quanto a sua mudança em relação ao DJ, isto talvez possa ser publicado.
    Ou talvez debatido aqui neste perfumadíssimo blheorgh.

  2. adrio inveriach said, on agosto 5, 2008 at 00:13

    Acabo de fazer um tour por este perfumadíssimo bleorgh e achei que realmente ocorreu uma mudança em relação à postura crítica dos comentaristas e do Tomás em relação ao evento.
    Será isso o “não envolvimento participativo”?
    Ficou um material bem interessante que deveria ser preservado e talvez publicado. (Para nosso futuro deleite e para servir de material de estudo das futuras gerações de “Chiaverinólogos”)
    Só espero que nosso reporter não se transforme num ouvinte compulsivo de batestaca e instale caixas de quaquilhões de megawatts em seu carro.

    Ouça Bach, de vez enquando, para lavar as orelhas!!!

  3. Danita said, on agosto 5, 2008 at 02:05

    Hmm… Quase três mil visitas… Uma audiência muito boa.

  4. Tomás Chiaverini said, on agosto 5, 2008 at 18:34

    Esse termo “não envolvimento participativo” é muito bom, acho que vou ter que me apropriar dele.
    De repente arranjo um terno branco, uma gravata azul e um chapéu, e fundo um novo movimento literário.

  5. adrio inveriach said, on agosto 5, 2008 at 23:39

    Que bom! Apropriação consentida!

    Puxa, um movimento literário com reuniões em românticos e elegantíssimos bares boêmios e tudo…

    Lindas mulheres de piteiras longas, vestidos compridos e colares de pérolas!

    E, eu evidentemente lá presente como sócio Honorário, preparando drinques para as mais belas atrizes do Brasil!!!

    E… que tal Clube do Terno Branco!!!!

    Só entra homem de terno branco!

  6. Leonardo Lênin said, on agosto 23, 2008 at 12:07

    Valeu pela lembrança. vou segurando a onda por aqui. Estou curioso para saber como vai ficar o livro. Nos vemos no lançamento.

  7. […] disse aqui no blog, mas não custa repetir, que Rica será um dos principais personagens do livro. Por isso, eu havia […]


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