Antes da Estante

O dia em que quase parei o Trancendence

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on julho 31, 2008

Logo no início do festival, vendo que eu tinha um cadeado na minha barraca, a DJ Paula Simioni pediu que eu guardasse um imenso estojo com todas as faixas que ela e seu namorado, Ricardo Janczur, apresentariam no seu primeiro set em uma festa da magnitude do Trancendence.

Eu concordei, claro, acomodei o caixotão de couro embolado no meu saco de dormir, e evidentemente não voltei a pensar no assunto.

Duas noites depois, a fim de espairecer um pouco os ouvidos, tomei de uma lata gelada de cerveja e caminhei até o rio que corria atrás do camping. Para minha alegria, eu era o único por ali, e durante horas permaneci em silêncio no escuro, olhando a lua, deitado sobre uma pedra lisa que despontava no meio da corredeira.

Depois, caminhei sem pressa na direção do camping e parei no caminho para escovar os dentes, na pia ao relento de um dos banheiros coletivos.

Quando cheguei na minha barraca, foi só enfiar a chave no mini-cadeado e Paula colocou o rosto lívido para fora de sua tenda de lona, bem ao lado da minha.

­- Tomás, é você? – perguntou com a voz nervosa.

Quando respondi que sim, ela suspirou aliviada.

– Nossa, estamos há três horas te procurando na festa inteira. A gente entra em trinta minutos, na pista principal!

Mais alguns instantes naquela pedra e a pista principal ficaria em silêncio. Ou, mais provavelmente, a barraca de meu amigo Bruno Bartaquini sofreria uma cesariana.

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Voltando ao Mago

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on julho 28, 2008

Há quase um mês, postei um texto sobre a incrível história de vida do mais bem sucedido autor nacional, senhor Paulo Coelho de Souza. Na época, estava lendo a biografia escrita por Fernando Morais e fiz algumas considerações, principalmente sobre as vivências do escritor, o que acabou gerando uma breve discussão a respeito dos motivos que o levaram a se tornar o mais traduzido autor de nosso tempo.

Terminei de ler “O Mago” (Planeta/2008 ) há uns vinte dias e fiquei ligeiramente decepcionado com o final do livro, com uma carta, um tanto insossa, escrita por Paulo Coelho, destinada a Fernando Morais.

Outro elemento que pode decepcionar alguns leitores decorre do fato de que Morais não gasta muito tempo buscando explicar os misteriosos fatores que transformaram Paulo Coelho em fenômeno planetário.

De qualquer forma, é possível notar certos ingredientes que vão além de alguma suposta qualidade místico-literária-mercadológica no texto do mago imortal.

Quando lançou seu primeiro livro, Paulo Coelho já era um milionário, devido às letras compostas em parceria com Raul Seixas. Isso permitiu que ele injetasse um bom tanto de dinheiro na divulgação de seus livros. O autor chegou, por exemplo, a pagar a diversas rádios para que inserissem comentários positivos sobre sua obra na programação. Uma espécie de “jabá” literário.

Paulo também não economizava esforços na divulgação nem se furtava a desempenhar papéis pouco convencionais, dando entrevistas sobre seus poderes sobrenaturais e deixando-se fotografar de capa, espada e óculos escuros ­- o que fazia a alegria de entediados editores dos cadernos de cultura.

Além das performances bizarras para a imprensa, Paulo fazia e ainda faz de tudo para vender livros. Quando era desconhecido, passava noites distribuindo panfletos em filas de cinema. Agora que é mundialmente famoso, se auto-promove em seções de autógrafo surpresa, principalmente no exterior, onde é um verdadeiro pop-star.

Nessas ocasiões, entra em uma livraria qualquer, chama o gerente, apresenta-se como o escritor Paulo Coelho e se oferece para autografar seus livros. Enquanto isso, um sem número de admiradores já começa a se aglomerar ao seu redor , esteja ele na França, na Turquia ou no Egito

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Denarc monta delegacia em pleno cerrado

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on julho 24, 2008

O raver estava lá na pista, ouvindo aquele som hipnótico, aos pés da chapada, fumando seu baseado em meio a milhares de pessoas incrivelmente amigáveis. A certa altura da madrugada, um sujeito se aproximava dele, passava o braço em volta de suas costas num abraço fraterno e lançava a pergunta:

­- E então, legal a festa? Tá curtindo?

– Opa, massa! – respondia o outro.

– E esse baseado aí, tá curtindo?

– Opa, quer aí – o raver oferecia na gentileza característica da maioria dos participantes do Trancendence.

– Não, obrigado. Mas você pode vir comigo que você está preso.

O Denarc de Goiânia ainda não terminou de tabular os dados da operação, mas fala-se em algo como duzentas pessoas detidas. Eram todos levados para uma tenda, armada em plena festa, num espaço mais discreto do cerrado, e só durante a noite.

Como desde 2006 a lei brasileira passou a distinguir usuários de traficantes, hoje quem é flagrado usando ou transportando drogas não corre mais o risco de acabar na cadeia. As punições – que variam de acordo com o tipo e a quantidade de drogas apreendidas, e com a vontade do juiz – vão de repreensões verbais a multas ou serviços comunitários.

Para os que foram detidos no Trancendence havia um problema a mais. Além de tomarem um chá de cadeira em pleno festival, todos teriam de voltar à cidade de Alto Paraíso no mês seguinte, para ouvir a decisão do juiz.

E alguns produtores de festas da região, que tradicionalmente aproveitam o público remanescente do festival, até acharam boa a idéia toda essa confusão. Afinal, era um incentivo a mais para que os ravers esticassem um pouco a estadia na cidade.

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Novas

Posted in Extra by Tomás Chiaverini on julho 23, 2008

Quase um ano depois da publicação de “Cama de Cimento”, recebi da Ediouro os originais do texto final, revisado, em formato Word. Aproveitando a deixa, coloco todo o emocionante primeiro capítulo aqui, no Antes da Estante.

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A pista principal

Posted in Extra by Tomás Chiaverini on julho 23, 2008

Uma verdadeira pista de pouso para ETs em pleno cerrado
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Trancendence

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on julho 21, 2008

Cinco dias de festa e aproximadamente quatro mil pessoas (número a ser averiguado) acampadas em barracas espalhadas em meio àquela poeira fina do cerrado, numa semana em que a região completava mais de dois meses sem ver um único pingo de chuva.

Banho só com água fria e em geral, após enfrentar um bom tanto de fila. Demais necessidades fisiológicas deveriam ser administradas em um cubículo de cimento, com uma porta de madeira compensada, sem trinco. E a música, cinco dias de música sem parar um único minuto, pancadas eletrônicas ininterruptas, provenientes das mais modernas caixas de som que o homem foi capaz de criar.

Olhando de longe para aquelas barracas perdidas na poeira, num terreno distante cerca de duas horas de qualquer sinal de civilização, olhando aqueles malucos envergando cabeleiras dreadlock e fumando cones de maconha ou haxixe, um homem civilizado qualquer poderia afirmar que ali se vivia um clima de caos e anarquia.

Estaria certo, sem dúvida nenhuma, com um único detalhe. Durante aqueles cinco dias, não só por conta da bem organizada produção de evento, mas principalmente pela postura dos participantes, não tive o desprazer de assistir nada que realmente ameaçasse aquela estranha ordem vigente.

Não há brigas nas filas, mulheres dormem semi-nuas no chill-out sem serem incomodadas e crianças, várias crianças, brincam soltas na poeira, como se estivessem em um grande parque de diversões. As pessoas se ajudam, se preocupam umas com as outras e é quase impossível alguém comer, fumar ou beber algo do seu lado sem lhe oferecer um pedaço, uma tragada ou um gole.

Curiosamente, essa atmosfera de caos ordenado só foi quebrada quando a polícia, mais especificamente o DENARC de Goiânia, resolveu fazer valer a lei do mundo exterior naquele pedaço barulhento de cerrado.

Mais detalhes na quinta-feira, que ainda temos horas e horas de entrevista para transcrever e páginas e páginas de bloquinho para decifrar.

On the road

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on julho 17, 2008

Pagando a mísera quantia de R$13 a hora pelo acesso à internet, escrevo direto do aeroporto de Brasília apenas para falar do lado divertido de se trabalhar sem patrão, carteira assinada e, como não podia deixar de ser, sem salário.

Sim, eu fiquei cinco noites acampado em meio a cinco mil malucos que passaram esse tempo todo buscando a transcendência através de música, drogas e provações físicas. Mas voltarei a isso mais tarde e agora vou apenas contar um pouco sobre meus bizarros deslocamentos.

Saí de São Paulo na terça passada, dia 8, metido em um ônibus com mais de quarenta ravers e suas bolsas, pochetes e cartucheiras recheadas de ecstasy, maconha, haxixe, LSD e outras substâncias ilegais. Vinte e seis horas depois (com direito a pontes assustadoras e estradas incrivelmente precárias, estreitas e poeirentas, cheguei ao local do festival).

Cinco dias depois, meti-me novamente em um ônibus, dessa vez um daqueles antigos, arredondados que só servem a certas escolas do interior e era pilotado por um caboclo bigodudo com um puído chapéu de boiadeiro. O sujeito dirigia o ônibus como se domasse um cavalo xucro e, durante uma hora e meia mergulhados numa poeira inacreditável, fomos ultrapassando demais veículos que simplesmente desfaleciam ou desmanchavam pelo caminho, até chegarmos na cidade de Alto Paraíso (GO).

Durante todo esse percurso, assim como na estadia em Alto Paraíso, estive em companhia de um divertido casal de ravers que devem tornar-se personagens do nosso livro.

Dois dias depois (no caso hoje de manhã), às cinco e meia, embarquei num Gol daqueles já cansados, de um jornalista de Brasília que viajava com a mãe. Conheci os dois ontem, durante uma trilha na chapada dos Veadeiros. Menos de duas horas depois, após cruzar pouco mais de duzentos quilômetros a uma velocidade de gelar o estômago, (140km/h nos momentos calmos) estava nesta estranha cidade que é a capital do país.

Ainda consegui uma carona com a irmã do sujeito que me deixou no aeroporto. Agora, se tudo der certo, dentro de algumas horas estarei saboreando uma inconfundível pizza paulistana.

Desculpem pela pressa e pela revisão descompromissada, mas é que a contagem regressiva dos meus créditos na base da tela me deixa tenso. Em breve, mais notícias do Trancendence.

Posted in Extra by Tomás Chiaverini on julho 15, 2008

Chiaverini sobreviveu e passa bem.

Trancendence

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on julho 10, 2008

Pois bem, caros leitores do Antes da Estante, se vocês estão lendo este post é porque eu não consegui arrumar um computador com conexão à Internet aqui onde devo estar, em pleno festival Trancendence, Alto Paraíso, Goiás.

Este post foi escrito na segunda feira à noite, em meio às derradeiras preparações para esta epopéia eletro-hippie em que devo estar mergulhado. Foi postado pelo meu prestativo e caridoso irmão caçula (que também não teria mais muito que fazer, pois está de férias).

Se tudo deu certo, portanto, no início da noite da terça-feira última, devo ter embarcado em um ônibus ­fretado, pitorescamente batizado de Spaceship, para enfrentar uma jornada de 18 horas ou mais. Junto comigo, estarão mais uns quarenta ravers desconhecidos que, tenho fé, dividirão suas fantásticas histórias com os futuros leitores de nossa humilde narrativa.

Se tudo deu certo, enquanto vocês estão lendo este post, eu estou perdido num enorme descampado ao lado da chapada dos Veadeiros, com os ouvidos já castigados pelas pancadas do psytrance.

Se tudo deu certo, estou acampado sobre uma camada subterrânea de místicos cristais, em meio a 5 mil desconhecidos, com acesso a confortáveis banheiros que não passam de buracos no chão, e a chuveiros, que, na verdade, tratam-se de bicas de água gelada, desviada do rio.

Os posts talvez se tornem irregulares daqui pra diante. Irregulares para mais ou para menos, conforme acesso ao mundo virtual.

Assim, aguardem cenas dos próximos capítulos e torçam para que tudo continue dando certo. Ouvi dizer que as mentalizações positivas chegam muito rápido àquela região específica da crosta terrestre.

Os Fatos?!*

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on julho 7, 2008

– E quantas pessoas havia na primeira rave Madagascar? – pergunto.

– Umas três mil – responde Júlio, antes de cravar os dentes num hambúrguer de uma lanchonete modernosa.

– Três mil, você está louco – contesta Raquel, a outra “sócia” do evento. – Não chegou nem a duas mil.

– Que duas mil nada! Só de convite vip a gente distribuiu quase mil – insiste Júlio.

– Ai, você é muito sem noção. Não tem a menor, noção das coisas!

– Ah, eu sou sem noção então? Você está contando errado.

– Ai, Júlio… Não acredito. Você é muito sem noção. Você vai insistir que tinha mais que duas mil pessoas?

– Que eu lembre tinha.

– Mas como “que eu lembre”, Júlio? Ele precisa da informação correta!

– Certo, certo, calma gente. Vamos à outra pergunta. Quanto custou a primeira edição da rave Madagascar?

– Putz, uns dez mil – responde Júlio.

– Que dez mil, Jú-li-ô!? – contesta Raquel, já indignada, com o rosto todo salpicado de maionese.

– Lógico que foi, se você for contar tudo que a gente gastou desde o começo…

– Ai, Júlio, assim não vai dar. Você é muuuuuuito sem noção!

– Certo, outra pergunta – intervenho novamente. – Vocês, por acaso, são namorados?

– Ex-namorados – explica Raquel, sorrindo sem graça e tentando limpar a maionese do cabelo…

* Sim, a conversa acima realmente aconteceu. Os dois ex-namorados são os sócios da rave Madagascar e parece que a história é quase como coloquei no post anterior mesmo. Foi preciso assistir a muita discussão, mas eles conseguiram chegar a um acordo sobre quase tudo. O único exagero da primeira fonte (do post anterior) foi a página falsa no Orkut, que nunca existiu. Detalhes, daqui a alguns meses, numa livraria perto de você.

O boato*

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on julho 3, 2008

Era uma vez alguns amigos ravers que foram assistir ao longa de animação “Madagascar”, da DreamWorks. Em determinado momento do filme, numa suposta menção ao ecstasy, os bichos do desenho tentam arrumar algumas “balinhas” antes de ir para uma festa.

A cena gerou alguma polêmica na época e, aproveitando a deixa, aqueles amigos resolveram fazer uma rave batizada de Madagascar. Com o boca-a-boca impulsionado pela polêmica do filme, a festa, programada para 400 pessoas, recebeu mais de 2 mil.

Houve até um certo caos na hora, tiveram de sair no meio da rave para comprar mais bebidas, mas no fim deu tudo certo e os produtores, empolgados, resolveram fazer logo uma segunda edição do evento.

Com o vultuoso lucro de primeira festa, eles investiram pesado e se programaram para receber nada menos que 8 mil pessoas.

Cerca de duas semanas antes da festa, no entanto, um espertalhão oportunista, sem nenhuma ligação com os organizadores, criou uma comunidade da Madagascar no Orkut. Quando faltavam uns três dias para a rave, ele postou uma mensagem dizendo que a festa havia sido cancelada.

Paralelamente, o mesmo indivíduo alugou um sítio situado apenas 500 metros antes do local onde a rave Madagascar – que não havia realmente sido cancelada – iria ocorrer. Quando chegou na hora da festa, boa parte dos ravers confusos paravam no primeiro sítio, desciam do carro meio em dúvida e procuravam alguma placa que identificasse a rave como Madagascar.

Quando perguntavam sobre o nome da festa na portaria ouviam sempre a mesma resposta:

– Ora, você não soube? A Madagascar foi cancelada. Mas, se você tiver o convite estamos aceitando. Senão você pode comprar um convite para a nossa rave.

O golpe era trazer os convidados da outra festa e lucrar com a venda de bebida tudo o que não era ganho com os ingressos.

Resultado. A Madagascar, programada para um público de 8 mil pessoas, recebeu 2 mil convidados e teve um prejuízo de R$ 50 mil. A outra rave foi um sucesso total, com um público de cerca de 5 mil pessoas.

* A história acima me foi narrada por um raver, amigo de uma amiga de uma amiga, há alguns meses. Depois de muito escarafunchar na internet, finalmente consegui o celular de uma das organizadoras da rave Madagascar, com quem irei conversar no fim da tarde de hoje. Segunda-feira, colocarei outro post, contando se o boato acima é vero ou apenas bene trovato.

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