Antes da Estante

Rascunhos

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on junho 16, 2008

Os quatro parágrafos abaixo têm grandes chances de, após alguns ajustes, ganharem a honra de abrir o livro:

Carros novos, carros brilhantes, limpos e polidos vão sofrendo e arfando, vencendo pedregulhos e avançando numa fila indiana que serpenteia por entre a poeira misturada à neblina de uma noite de junho. Lentamente, eles sacolejam adiante pela estradinha cada vez mais estreita, que logo se transforma em picada, uma trilha sinuosa aberta no meio da mata, com largura suficiente apenas para que os automóveis passem raspando os retrovisores nos galhos e gravetos caídos.

A luz amarelada dos faróis ilumina o caminho coberto de mato baixo e o tronco esbranquiçado das árvores que se erguem ao redor, e parecem sempre prestes a avançar para o centro da estrada. Um cachorro vira-latas preto, grande, caminha despreocupadamente no sentido contrário e os estafados automóveis têm de parar por um momento para que ele passe trotando sossegado.

Alguns metros adiante, a picada desemboca subitamente numa grande clareira, um pedaço de pasto esburacado e úmido com tufos de capim despontando por todo o lado. Estacas finas de madeira sustentam fitas plásticas listradas de amarelo e preto que delimitam as baias de estacionamento. Um sujeito magro de boné, parado no final da trilha, cobra R$ 20 para aqueles que queiram largar seus carros modernos e bem tratados ali, no meio do nada, sob o sereno de uma noite de outono.

Ao desligar o motor, é possível ouvir, ao longe e por todos os lados, o som insistente e profundo de um bumbo eletrônico que se repetirá até a noite do dia seguinte, embalando milhares de ravers num moderno ritual de êxtase coletivo

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8 Respostas

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  1. Adrio Inveriach said, on junho 17, 2008 at 23:23

    Bem, prezado jovem jornalista, gosto do seu estilo…

    só não gostei do “estafados automóveis”

    mas gostei do “moderno ritual de êxtase coletivo”.

  2. Tomás Chiaverini said, on junho 18, 2008 at 00:08

    Forçado demais ou levemente piegas?

  3. orlando said, on junho 18, 2008 at 18:05

    Engraçado, tive a mesma impressão que o Adrio, também achei que “estafados automóveis” não está em sintonia com o restante do texto. Muito bom, descritivo, para deixar o leitor exatamente no contexto da cena!
    Deu vontade de continuar a ler!

  4. Tomás Chiaverini said, on junho 18, 2008 at 18:09

    Pelo jeito os estafados automóveis vão ter de cair fora. Relendo pela décima quinta vez, também não gosto desse “A luz amarelada dos faróis”. “Luz amarelada” se tornou um pouco clichê, como diria meu amigo João Carlos Magalhães. Mudei para “A luz artificial dos faróis”, que também ajuda a reforçar uma idéia da cidade invadindo o campo.

  5. Tomás Chiaverini said, on junho 18, 2008 at 18:11

    PS: Que bom que gostaram do resto!

  6. MaryAnna said, on junho 19, 2008 at 03:03

    Adoreiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!!

    Continuaaaa!!! \o/

    concordo com a retirada dos ‘estafados automóveis’… da ‘luz amarelada’ num tinha sacado, mas ‘luz artificial dos faróis’ de certo que fica melhor!! ^^

    bjo grande amigo!… ;**

  7. JC said, on junho 23, 2008 at 02:04

    Acho que tem que manter tudo. Uma pegada do caralho.

  8. Tomás Chiaverini said, on junho 23, 2008 at 14:48

    JC! Que honra tê-lo por aqui!
    Justo você acha que tenho de manter até as luzes amareladas e aclichezadas?


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