Antes da Estante

Idéia Fixa

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on junho 5, 2008

Quem lê um livro-reportagem deve esperar que o autor tenha vivido por algum tempo mergulhado em seu tema de pesquisa.

E creio que isso ocorra quase sempre nos bons livros, às vezes com extremos, como no caso de Truman Capote, que teria se envolvido sexualmente com um de seus personagens; de Joseph Michel, que viu seu escritório tornar-se a sala de estar do desabrigado Joe Gould; ou até de Fernando Morais, que ouviu o Paulo Coelho falar por DUZENTAS HORAS.

Isso sem falar em Günter Walraff, que trabalhou durante meses como um imigrante ilegal na Alemanha para escrever o livro “Cabeça de Turco”, e depois se disfarçou de repórter almofadinha e se infiltrou no jornal de direita “Bild”, do qual saiu com os originais de “Fábrica de Mentiras”.

Diz a lenda que Walraff se tornou tão famoso, que seu sobrenome foi transformado em verbo e passou a ser usado como gíria. O termo Walraffizar (numa livre tradução do alemão) significaria disfarsar-se para obeter informação confidencial.

E mesmo quando não há tanto exagero, essa imersão causa certos transtornos – para os autores e não para os leitores, evidentemente.

Estou há cerca de cinco meses pesquisando o universo das raves no Brasil e no mundo. Li quase uma dezena de livros e teses sobre o assunto, sem falar em matérias e notas da imprensa. Realizei quase trinta entrevistas sobre o mesmo tema. E venho torrando os neurônios a fim de montar o rascunho de como as informações se juntarão no livro.

Resultado: nas horas vagas, mesmo quando estou assistindo a um filme ou tentando ler algo sobre outro tema, meu sistema nervoso central teima em refletir sobre alguma frase dita por determinado entrevistado, ou em encontrar um jeito de encaixar aquela informação sobre a propagação sonora de baixos no capítulo em que o DJ conta sua biografia.

E pra piorar, quase todas as pessoas com quem convivo socialmente já estiveram em alguma festa, ou conhecem alguém que tem alguma história para contar sobre o assunto, ou, no mínimo, têm alguma opinião formada sobre o fenômeno. Assim, até nos encontros sociais o assunto me persegue.

Nas últimas semanas, tornou-se raro conseguir dormir uma noite sem que, em alguma festa de música eletrônica do mundo onírico, encontrasse com boa parte de meus personagens dando palpites sobre como seria melhor estruturar o texto.

Mas enfim, tudo isso foi só para justificar a paradeira no Antes da Estante: na quarta feira passada peguei o carro, dirigi uns trezentos quilômetros na direção sul até a cidade de Iporanga, e passei alguns dias frios e chuvosos metido em cavernas escuras, monocromáticas e silenciosas.

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3 Respostas

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  1. orlando said, on junho 10, 2008 at 17:32

    Teremos um próximo livro sobre liminologia? Ou a vida sexual dos morcegos do Petar?

  2. Adrio Inveriach said, on junho 11, 2008 at 22:33

    É isso aí, Orlando… e como essas cavernas ficam forradas de cocô, o próximo livro do jovem jornalista não vai cheirar muito bem!

  3. orlando said, on junho 12, 2008 at 21:59

    O livro traz um pack de plástico transparente adesivado à capa, com um sachê de ervas! Não sei bem que qualidade de ervas…


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