Antes da Estante

Ossos do ofício

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on abril 23, 2008

Seis horas da tarde numa na região central da cidade. Pelo horário que o “especialista” em música eletrônica marcou para dar entrevista, já é possível notar que ele deve sofrer de algum distúrbio psico-social.

Mas podia ser apenas um pouco de sadismo, uma vontade de pôr o repórter à prova, ou o ato de uma pessoa extremamente vaidosa ou egocêntrica tentando reforçar seu valor. “Sou tão importante que um jornalista é capaz de atravessar a cidade no pico da hora do rush só para me entrevistar”.

Teorias psicológicas à parte, lá fui eu.

Saí de casa às 16h, para não correr o risco de atrasar e, mesmo assim, cheguei em cima da hora. Os clientes estufavam a padaria como recheio de sonho e tive de me acotovelar com algum jovem executivo pra conseguir uma mesa bem localizada. Arranjei uma daquele tipo que os mafiosos gostam: no fundo do salão, voltada para a entrada.

Além de me fazer atravessar a cidade e de marcar um encontro num lugar onde é preciso gritar para fazer o garçom entender a frase “uma média e uma água com gás”, o sujeito achou por bem me dar um chazinho básico de cadeira.

Sem problemas, amigo. Nós jornalistas estamos pra lá de acostumados ao fenômeno. Temos de chegar sempre na hora porque, afinal, começar uma entrevista desrespeitando o entrevistado é receita para má vontade nas respostas. Acontece que no Brasil quase ninguém chega na hora, o que torna o ato de esperar parte da profissão.

Vinte minutos depois, o “especialista” chega.

Como o fato de se escrever livros-reportagem é um tanto inusitado, sempre deixo que meus entrevistados comecem perguntando.

Ele sorri parecendo simpático e expõe a primeira dúvida:

– Você costuma ir a festas rave? Gosta de música eletrônica?

– Não. Comecei a freqüentar festas e a ouvir música eletrônica por conta do livro.

Espanto. Olhos arregalados e… o sorriso simpático se vai. Todo mundo que entrevisto ultimamente me faz essas duas perguntas.

Gozado.

Quando apurava informações para o Cama de Cimento, nunca me perguntavam se eu gostava de “mendigos”; quando passei vinte e três horas na frente dum fórum em Embu Guaçú à espera do julgamento de um homicídio, não me perguntaram se eu admirava assassinatos; e quando enfrentei uma viagem de uma semana pelo interior da Amazônia com médicos da FAB, não fui questionado sobre minha possível atração por ribeirinhos doentes.

Mas, enfim, não sei se foi por conta da minha resposta, ou da minha cara de moleque, mas o “especialista” azedou de vez. Respondeu de forma vaga a todas as perguntas. Algo como “é, pode ser”, “sim”, “não sei te dizer”, etc.

Quando terminei minha lista de perguntas sem uma única resposta que parecesse valer pelas duas horas de estresse no trânsito, tentei uma última manobra a fim de valorizar a viagem. Perguntei se o “especialista” não teria como me apontar outras fontes de informação.

Pensava em uma lista de livros, revistas especializadas, ou nomes de outros especialistas, mais comunicativos.

– Tenta pesquisar na internet – foi a resposta.

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Uma resposta

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  1. Adrio Inveriach said, on abril 27, 2008 at 21:53

    Bem, prezado reporter… afinal o especialista ´nisso que hoje chamam de música eletrônica é especialista em enganar as suas vítimas com efeitos eletrônicos mais ou menos automáticos sobre tres ou quatro notas… aquele coisa musicalmente tosca e retrógrada, que não suporta qualquer análise.
    O cara tem mesmo que ficar na defensiva, porque de música, provavelmente não entende nada. Se entender é pior ainda.
    Muito diferente de um desvalido, um cara que está jogado no sub-mundo e vê num reporter uma ínfima possíbilidade de alguém prestar atenção nele… sem considera-lo algo asqueroso…
    E será que o fato de vc ir entrevistar um cara na pior já não demostra uma certa simpatia?


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