Antes da Estante

Talese por Talese

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on abril 13, 2008

Como prometi no post anterior, seguem abaixo dois trechos do incrível, fantástico, estupendo “A Mulher do Próximo”, em que a lenda viva do jornalismo Gay Talese destrincha os detalhes mais profundos e escondidos da vida sexual americana, entre as décadas de 1950 e 1970.

O primeiro, é a parte em que o próprio Talese se apresenta como personagem no final do livro. O segundo, é a parte em que ele visita uma casa de massagem erótica pela primeira vez. E conta tudo com detalhes, para desespero da Sra. Talese.

O personagem Talese, pelo repórter Talese:

Um homem esguio, olhos escuros, 43 anos, cujos cabelos castanhos estavam começando a ficar grisalhos. Talese não era totalmente desconhecido para as pessoas da sala. Visitara Sandstone [o primeiro clube de swing dos EUA] muitas vezes no passado, inclusive o salão de baile. O livro que estava preparando já recebera uma publicidade excepcional em muitos jornais e revistas. A maior parte do que se escrevera a respeito de Talese na imprensa, no entanto, fora jocosamente apresentado, insinuando que sua técnica de pesquisa era a de “observador participante” no mundo do erotismo. As reportagens davam a entender que sua freqüência a salões de massagem, sessões vespertinas em cinemas que exibiam filmes pornográficos, o conhecimento íntimo de clubes de swing e orgias de todo o país não passavam de uma manobra engenhosa de sua parte para se entregar à sensualidade e ser infiel à esposa, justificando tudo em nome da “pesquisa” social.

A primeira massagem de Talese (por Talese)

(…) Talese levantou e divisou no corredor uma loura de rosto sardento, que tinha apenas uma semelhança muito vaga com a June da fotografia. Talvez nem fosse a mesma pessoa, o que não a impedia de ser também atraente. Era esquia, olhos escuros, usava uma saia rosa e camisa de malha amarela e sandálias. Ao levá-lo pelo corredor até a cabine N° 5, carregando um único lençol engomado que tirara do armário, ela falou com um sotaque sulista.

Disse ser do Alabama, o Estado em que Talese cursara a universidade. Ela ficou escutando por algum tempo, na cabine individual, enquanto Talese fazia reminiscências sobre o Sul. Mas logo se mostrou impaciente. Recordou a Talese que aquele era um encontro profissional, o relógio estava correndo. Sugeriu que ele tirasse logo as roupas e deitasse na mesa, sobre a qual já estendera o lençol. Depois que Talese assim fez, a jovem começou a despir-se. Virando-se revelou um corpo bem proporcionado, que ele achou excitante.

– Óleo ou talco? – perguntou ela, aproximando-se da mesa.

Talese correu os olhos pela cabine, indeciso. Depois de uma breve pausa, ele perguntou:

– Tem banheiro aqui?

– Não.

– Então vou querer talco.

Ela pegou uma lata de talco Johnson para criança e Talese logo sentiu seus dedos afagando-lhe os ombros e peito, descendo em seguida para a barriga e coxas. Ele observou-a inclinar-se sobre seu corpo, os braços e seios se movendo, as mãos brancas do talco. Podia aspirar o perfume dela, sentia as palmas de suas próprias mão transpirando, viu o pênis levantar. Fechou os olhos e ouviu os suspiros de outros homens nas cabines adjacentes, assim como os ruídos do trafego na Lexington Avenue, carros buzinando, ônibus se afastando barulhentamente do meio-fio. Pensou na Bloomingdale`s e na Alexander`s, no outro lado da rua, as multidões de fregueses e vendedores que naquele momento estavam debruçadas sobre balcões, comprando e vendendo…

– Quer alguma coisa especial? – perguntou a mulher.

-Podemos trepar?

Ela sacudiu a cabeça.

– Não faço isso. E também não chupo. Só faço o serviço local.

-Serviço local?

-Trabalho com as mãos.

-Está certo. Pode fazer.

-Vai ser extra.

-E quanto de extra?

-Quinze dólares.

É demais pensou Talese. Mas no excitamento em que estava não tinha como barganhar. Por isso, assentiu e ficou observando-a com curiosidade e expectativa, enquanto ela despejava mais talco em sua virilha e depois se punha a afagá-lo habilmente até o orgasmo, pressentindo com exatidão, e não um segundo mais cedo, o momento de pegar um lenço de papel na caixa ao lado.

Obs: Retirei os dois trechos da primeira edição em português de “A Mulher do Próximo”, lançado em 1980, pela Editora Record. Há uma edição mais esmerada, da Cia das Letras(foto), mas encontrei essa num sebo por R$ 10. E se Gay Talese achou caro pagar U$ 15 por uma massagem erótica, acho compreensível que eu tenha me satisfeito com a versão mais barata e judiada de “A Mulher do Próximo”.

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Uma resposta

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  1. orlando said, on abril 14, 2008 at 21:56

    Bravíssimo! Excelente a lembrança de Gay Telese. Que tal voltarmos aos anos 80 com Günther Walraff???


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