Antes da Estante

O repórter está nu

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on abril 10, 2008

Dentre todos os nomes do Jornalismo Literário com os quais tive contato, um dos meus preferidos é o de Gay Talese.

Ele tornou-se famoso, entre outras coisas, por uma matéria em que construiu um brilhante perfil de Frank Sinatra sem trocar uma palavra com o astro, que estava de mau-humor devido a um resfriado e a boatos de seu envolvimento com a máfia, e não atendeu Talese como o combinado.

No livro “Fama e Anonimato” (Cia das Letras/2004), encontra-se tanto esse perfil de Sinatra, em que se descobre, entre outras coisas, que ele usava peruca; quanto outras histórias capilares curiosas como a que revela que o então campeão dos pesos pesados levava uma barba postiça para as lutas a fim de sair disfarçado se perdesse.

Em outras obras, Talese revelou os mínimos detalhes do funcionamento do New York Times – “O Reino e o Poder” (Cia das Letras/2000) -, e esmiuçou a vida de uma família mafiosa – “Os Honrados Mafiosos” (Expressão e Cultura/1972). Detalhe: os mafiosos estavam em ação, e permitiram que ele publicasse a história.

Mas na minha modesta opinião, seu livro mais fabuloso chama-se “A Mulher do Próximo” (Cia das Letras/2002) e trata dos costumes sexuais da moderna sociedade americana. Ali é possível entrar na mente de Hugh Hafner e saber como ele fundou a Palyboy com apenas 600 dólares; visitar os primeiros clubes de swing; e entender a censura do governo americano, em pleno século vinte, a livros como “Ulisses”, de James Joyce.

Mas Talese vai além das histórias, que, mesmo se fossem narradas em tópicos seriam fantásticas. O livro é construído com uma incrível maestria técnica permitindo que o leitor seja levado de uma história para a outra de forma orgânica. Talese não termina um assunto e começa outro, ele flui através das narrativas diversas.

E então, quando o leitor já está estupefato com as informações e a forma como elas são tecidas, eis que, lá no finalzinho do livro, encontra-se com um personagem chamado, vejam só, Gay Talese.

Para surpresa geral da nação ele se coloca na história e, literalmente, se despe diante dos leitores (desculpem, não resisti ao chavão).

Aparentemente sem nenhum pudor, a lenda do jornalismo narra suas aventuras em casas de massagem erótica, descreve participações em orgias, e conta como seu casamento foi posto em risco durante os NOVE ANOS em que passou apurando a história.

Segunda-feira colocarei dois trechos fantásticos da parte do livro onde ele tira a fantasia de jornalista e torna-se um personagem (pois é, não resisti de novo).

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Uma resposta

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  1. […] como um imigrante, para escrever o livro “Cabeça de Turco”; acompanhei o consagrado Gay Talese em suas aventuras por casas de suingue e massagens eróticas, na elaboração de “A mulher do […]


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