Antes da Estante

“A Horda de Visigodos”

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on abril 7, 2008

Durante o lançamento de Cama de Cimento, uma tia afastada folheou o livro demonstrando todo o interesse que a ocasião demandava. Alguns minutos depois, com as sobrancelhas levantadas num misto de espanto e confusão, me chamou de lado e perguntou apontando uma página:

– Mas isso é um romance? É ficção?

– Não tia, é um livro reportagem. É tudo verdade – respondi um pouco apressado e preocupado com a próxima dedicatória que teria de escrever.

Ela olhou mais um pouco para a página e, ainda com as sobrancelhas arqueadas, retrucou um pouco incrédula:

– Mas estou vendo aqui que tem diálogos!

Minha tia tem certa razão em seu espanto. Quando se fala em jornalismo o que vem à mente é aquela matéria quadrada dos jornalões, em que é raríssimo encontrar algo de criativo no texto, como, por exemplo, um diálogo(!).

Felizmente, para repórteres e leitores, no campo dos livros-reportagem, a criatividade e a utilização de elementos literários já estão pra lá de difundidos e podem ser usados com certa liberdade, talvez graças à tal “horda de visigodos” que chacoalhou o mercado editorial americano nos idos de 1960.

Horda de visigodos é a maneira como Tom Wolfe se refere à turma de jornalistas (da qual ele é um dos expoentes) que revolucionou o jeito de fazer reportagem nos EUA. Ele e outros nomes hoje transformados em ícones como Truman Capote, Gay Talese e Norman Mailler criaram o New Journalism, ou Novo Jornalismo, ou ainda, Jornalismo Literário.

Na verdade, creio que seria mais acertado dizer que eles fizeram um marketing em torno de algo que existe desde antes da invenção do papel, que é contar uma história real de forma atraente e divertida. Ou levaram essas técnicas ancestrais para a vanguarda do jornalismo, que estava engessada em leads e sub-leads, deixando toda a diversão para os romancistas.

A partir dessa época, Tom Wofe (o almofadinha da foto) cobria-se de glória ao começar suas reportagens assim:

Dez da manhã de domingo nas colinas da Carolina do Norte. Carros, quilômetros de carros em todas as direções, milhões de carros, carros pastel, verde aqua, Malaca aqua, laca Malaca, lavanda Nuvem, pink Assassino, framboesa Cara-Esfolada, coral Praia de Nudismo, laranja Emoção Honesta, e carros creme Paixão de Carmo Novo, todos indo para a corrida de stockcar, e quele velho sol maternal da Carolina do Norte explodindo nos pára-brisas. (Radical Chique e o Novo Jornalismo – Cia das Letras – 2005)

Nessa mesma época, o não menos afetado Truman Capote se metia por cidadezinhas do interior entrevistando os assassinos de uma família de caipiras e sentia-se seguro o suficiente para descrever, por páginas e páginas, o que uma menina pensou trancada em seu quarto horas antes de ser assassinada.

No momento da apuração a menina está morta, não há como saber o que passava dentro de sua cabecinha adolescente, mas os jornalistas literários pregam que, a partir de um contato extremamente profundo com personagens ou suas histórias, é possível, sim, saber o que essas pessoas pensariam em determinada situação.

Capote talvez seja aquele que vai mais longe na mistura da realidade com a suposta realidade, mas apesar de ser considerado um ícone do Jornalismo Literário, ele não dizia estar fazendo jornalismo. Isso era muito pouco para Capote que, quando escreveu  “À Sangue Frio”, afirmou ter criado nada menos do que um novo gênero literário: o “romance de não-ficção”.

Por conta desses e outros exageros, alguns críticos se referem aos “mestres” do Jornalismo Literário como pára-jornalistas. Profissionais mais preocupados com floreios de texto e ternos sob medida do quem com a veracidade dos fatos.

De qualquer forma, não há como negar que, depois deles, a profissão ficou muito mais divertida. Pena que na grande imprensa brasileira haja cada vez menos espaço para textos divertidos e elaborados.

Temos, no entanto, a revista Piauí, para provar que nem tudo está perdido.

Anúncios

2 Respostas

Subscribe to comments with RSS.

  1. […] da história do tal “jornalismo-literário” há diversos exemplos de autores que se retratam como parte da história e de outros, que se […]

  2. […] gênero recém criado pelos americanos, que estava na crista da onda na época (já falamos disso aqui).  Do alto de sua incomparável modéstia, ele dizia estar inaugurando um novo gênero literário: […]


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: