Antes da Estante

Ossos do ofício

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on abril 3, 2008

Como disse no post anterior, uma das maiores vantagens do processo de elaboração de um livro-reportagem é a possibilidade de ir a fundo nos assuntos abordados, o que permite oferecer resultados de qualidade superior ao de outros meios.

Encontrei um ótimo exemplo prático dessa teoria em minhas recentes investigações sobre o ecstasy.

Os primeiros passos da apuração foram semelhantes àqueles que eu daria se estivesse trabalhando em uma matéria para algum jornal diário.

Fiz uma ampla pesquisa na internet e procurei fontes confiáveis pelos caminhos normais. A primeira foi o chefe dos investigadores de uma divisão da polícia civil que coíbe o tráfico de drogas sintéticas, e a segunda foi um psiquiatra do Hospital das Clínicas, especialista em ecstasy.

O policial me ofereceu um bom quadro histórico da droga no Brasil enquanto que o psiquiatra, além de confirmar a versão histórica do investigador, me explicou de forma precisa como a droga age no organismo.

Se eu estivesse apurando uma matéria para um veículo qualquer, a maior dificuldade provavelmente seria encontrar um personagem, um usuário de ecstasy para ilustrar a matéria.

Mas, como já estou mergulhado nesse universo há uns bons três meses, já havia entrevistado um rapaz que acabara de tomar três comprimidos, numa festa rave.

Assim, com os dados colhidos até aqui, eu me daria por satisfeito e aposto que qualquer editor também. Para o livro, contudo, achei que a parte histórica estava um pouco fraca. Os dois especialistas haviam me confirmado a versão da internet de que o ecstasy havia sido patenteado pela Merck, em 1912 como um inibidor de apetite.

Mas eu sentia que faltava um pouco de sal na história. Depois de alguns telefonemas por diversas unidades da USP, cheguei a uma professora da Farmácia que, por telefone, desmentiu de cara a versão dada pelos dois especialistas de que o ecstasy havia sido um remédio para emagrecer.

Ela estava um tanto atarefada e não pôde conversar muito, mas me enviou uma série de artigos em PDF, sobre a história do ecstasy.

Um deles, em particular, tinha material suficiente para fazer o roteiro de um épico de Hollywood. Contava de onde vinham todos os boatos referentes à droga, que incluíam teorias sobre uso da substância por soldados na Primeira Guerra Mundial, elucubrações sobre a possibilidade da droga ter sido descoberta por um vencedor do prêmio Nobel de química, entre outros causos bizarros.

Vou deixar a parte mais divertida para quem comprar o livro, mas o mais surpreendente do processo de apuração é que o artigo desmentia categoricamente a teoria de que o ecstasy havia sido patenteado como um inibidor de apetite.

Na verdade, a droga estava presente na formulação de um outro medicamento, para conter hemorragias. Como no início do século passado era comum se patentear fórmulas e não substâncias, o MDMA foi patenteado por tabela e não chegou a ser usado comercialmente.

Portanto, diria que nunca se pode pecar por excesso de apuração. A não ser quando o livro já parece pronto e não há jeito de desapegar do bicho. Lembro de uma frase de alguma personalidade, trazida a meus ouvidos por meu estimado editor:

“Um autor nunca termina um livro, apenas o abandona”.

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