Antes da Estante

Tergiversando

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on abril 28, 2008

Tenho dificuldade em acreditar em qualquer coisa que tangencie o sobrenatural. De milagres católicos a extra-terrestres, passando por Feng Shui e curas energéticas. Minha tendência é desacreditar de tudo que não tenha sido provado e comprovado por cientistas e afins.

E mesmo quando está tudo certinho e deu até no Jornal Nacional, é comum que eu continue com algumas dúvidas.

Mas, apenas como exercício mental, outro dia, parado num trivial congestionamento de fim de tarde, me pus a considerar a possibilidade da existência de algum tipo de energia desconhecida que pudesse ser produzida pelo cérebro humano.

Algo como uma força telepática que fizesse com que certas intenções e sentimentos muito intensos, de alguma forma, extrapolassem nossa caixa craniana, vagassem como uma massa etérea por algum tempo e depois de algum tempo se transformassem em outra coisa qualquer.

O que seria essa outra coisa qualquer se sua matéria-prima fosse composta de toda a raiva humana que um congestionamento de 190 quilômetros irradia?

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Ossos do ofício

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on abril 23, 2008

Seis horas da tarde numa na região central da cidade. Pelo horário que o “especialista” em música eletrônica marcou para dar entrevista, já é possível notar que ele deve sofrer de algum distúrbio psico-social.

Mas podia ser apenas um pouco de sadismo, uma vontade de pôr o repórter à prova, ou o ato de uma pessoa extremamente vaidosa ou egocêntrica tentando reforçar seu valor. “Sou tão importante que um jornalista é capaz de atravessar a cidade no pico da hora do rush só para me entrevistar”.

Teorias psicológicas à parte, lá fui eu.

Saí de casa às 16h, para não correr o risco de atrasar e, mesmo assim, cheguei em cima da hora. Os clientes estufavam a padaria como recheio de sonho e tive de me acotovelar com algum jovem executivo pra conseguir uma mesa bem localizada. Arranjei uma daquele tipo que os mafiosos gostam: no fundo do salão, voltada para a entrada.

Além de me fazer atravessar a cidade e de marcar um encontro num lugar onde é preciso gritar para fazer o garçom entender a frase “uma média e uma água com gás”, o sujeito achou por bem me dar um chazinho básico de cadeira.

Sem problemas, amigo. Nós jornalistas estamos pra lá de acostumados ao fenômeno. Temos de chegar sempre na hora porque, afinal, começar uma entrevista desrespeitando o entrevistado é receita para má vontade nas respostas. Acontece que no Brasil quase ninguém chega na hora, o que torna o ato de esperar parte da profissão.

Vinte minutos depois, o “especialista” chega.

Como o fato de se escrever livros-reportagem é um tanto inusitado, sempre deixo que meus entrevistados comecem perguntando.

Ele sorri parecendo simpático e expõe a primeira dúvida:

– Você costuma ir a festas rave? Gosta de música eletrônica?

– Não. Comecei a freqüentar festas e a ouvir música eletrônica por conta do livro.

Espanto. Olhos arregalados e… o sorriso simpático se vai. Todo mundo que entrevisto ultimamente me faz essas duas perguntas.

Gozado.

Quando apurava informações para o Cama de Cimento, nunca me perguntavam se eu gostava de “mendigos”; quando passei vinte e três horas na frente dum fórum em Embu Guaçú à espera do julgamento de um homicídio, não me perguntaram se eu admirava assassinatos; e quando enfrentei uma viagem de uma semana pelo interior da Amazônia com médicos da FAB, não fui questionado sobre minha possível atração por ribeirinhos doentes.

Mas, enfim, não sei se foi por conta da minha resposta, ou da minha cara de moleque, mas o “especialista” azedou de vez. Respondeu de forma vaga a todas as perguntas. Algo como “é, pode ser”, “sim”, “não sei te dizer”, etc.

Quando terminei minha lista de perguntas sem uma única resposta que parecesse valer pelas duas horas de estresse no trânsito, tentei uma última manobra a fim de valorizar a viagem. Perguntei se o “especialista” não teria como me apontar outras fontes de informação.

Pensava em uma lista de livros, revistas especializadas, ou nomes de outros especialistas, mais comunicativos.

– Tenta pesquisar na internet – foi a resposta.

Gay Telese está resfriado

Posted in Extra by Tomás Chiaverini on abril 17, 2008

Há mais ou menos um mês, estou eu terminado de ler “A Mulher do Próximo”, quando abro a Folha de S.Paulo de manhã e encontro, na entrevista de segunda, um texto incrível com o senhor Gay Talese falando sobre os escândalos sexuais que envolvem os governadores de Nova Iorque.

A entrevista (que pode ser lida na Folha, por assinantes) traz colocações no mínimo interessantes. O vovozinho Talese insinua, por exemplo, que talvez o presidente Bush esteja, como dizer… carente de aventuras extra-conjugais.

Segundo a lenda do jornalismo, os melhores presidentes dos EUA (Kenedy, Clinton, etc) tinham assessoria especial para desopilação do fígado, o que talvez diminuísse a tensão diária do trabalho e amenizasse o impulso bélico natural dos nossos irmãos anglo-saxões.

Mas o mais divertido e o que mais chamou atenção no texto, foi mesmo a primeira linha: “Gay Talese está resfriado”. Uma tirada genial e referência clara ao famoso perfil de Sinatra.

Para completar as curiosidades, o texto era escrito pelo excelente repórter e meu ex-colega de Cotidiano, Daniel Bergamasco. Atualmente ele é o correspondente da Folha nos EUA, cargo geralmente ocupado pelos profissionais mais competentes da redação.

Como Mr. Daniel é um cara muito gente boa, resolvi mandar meus cumprimentos pela matéria. No mesmo dia, entrei no Orkut dele e deixei um recado dando os parabéns

A resposta:

“É muita sorte ligar pro Gay Talese e ele estar resfriado, desacreditei.”

Talese por Talese

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on abril 13, 2008

Como prometi no post anterior, seguem abaixo dois trechos do incrível, fantástico, estupendo “A Mulher do Próximo”, em que a lenda viva do jornalismo Gay Talese destrincha os detalhes mais profundos e escondidos da vida sexual americana, entre as décadas de 1950 e 1970.

O primeiro, é a parte em que o próprio Talese se apresenta como personagem no final do livro. O segundo, é a parte em que ele visita uma casa de massagem erótica pela primeira vez. E conta tudo com detalhes, para desespero da Sra. Talese.

O personagem Talese, pelo repórter Talese:

Um homem esguio, olhos escuros, 43 anos, cujos cabelos castanhos estavam começando a ficar grisalhos. Talese não era totalmente desconhecido para as pessoas da sala. Visitara Sandstone [o primeiro clube de swing dos EUA] muitas vezes no passado, inclusive o salão de baile. O livro que estava preparando já recebera uma publicidade excepcional em muitos jornais e revistas. A maior parte do que se escrevera a respeito de Talese na imprensa, no entanto, fora jocosamente apresentado, insinuando que sua técnica de pesquisa era a de “observador participante” no mundo do erotismo. As reportagens davam a entender que sua freqüência a salões de massagem, sessões vespertinas em cinemas que exibiam filmes pornográficos, o conhecimento íntimo de clubes de swing e orgias de todo o país não passavam de uma manobra engenhosa de sua parte para se entregar à sensualidade e ser infiel à esposa, justificando tudo em nome da “pesquisa” social.

A primeira massagem de Talese (por Talese)

(…) Talese levantou e divisou no corredor uma loura de rosto sardento, que tinha apenas uma semelhança muito vaga com a June da fotografia. Talvez nem fosse a mesma pessoa, o que não a impedia de ser também atraente. Era esquia, olhos escuros, usava uma saia rosa e camisa de malha amarela e sandálias. Ao levá-lo pelo corredor até a cabine N° 5, carregando um único lençol engomado que tirara do armário, ela falou com um sotaque sulista.

Disse ser do Alabama, o Estado em que Talese cursara a universidade. Ela ficou escutando por algum tempo, na cabine individual, enquanto Talese fazia reminiscências sobre o Sul. Mas logo se mostrou impaciente. Recordou a Talese que aquele era um encontro profissional, o relógio estava correndo. Sugeriu que ele tirasse logo as roupas e deitasse na mesa, sobre a qual já estendera o lençol. Depois que Talese assim fez, a jovem começou a despir-se. Virando-se revelou um corpo bem proporcionado, que ele achou excitante.

– Óleo ou talco? – perguntou ela, aproximando-se da mesa.

Talese correu os olhos pela cabine, indeciso. Depois de uma breve pausa, ele perguntou:

– Tem banheiro aqui?

– Não.

– Então vou querer talco.

Ela pegou uma lata de talco Johnson para criança e Talese logo sentiu seus dedos afagando-lhe os ombros e peito, descendo em seguida para a barriga e coxas. Ele observou-a inclinar-se sobre seu corpo, os braços e seios se movendo, as mãos brancas do talco. Podia aspirar o perfume dela, sentia as palmas de suas próprias mão transpirando, viu o pênis levantar. Fechou os olhos e ouviu os suspiros de outros homens nas cabines adjacentes, assim como os ruídos do trafego na Lexington Avenue, carros buzinando, ônibus se afastando barulhentamente do meio-fio. Pensou na Bloomingdale`s e na Alexander`s, no outro lado da rua, as multidões de fregueses e vendedores que naquele momento estavam debruçadas sobre balcões, comprando e vendendo…

– Quer alguma coisa especial? – perguntou a mulher.

-Podemos trepar?

Ela sacudiu a cabeça.

– Não faço isso. E também não chupo. Só faço o serviço local.

-Serviço local?

-Trabalho com as mãos.

-Está certo. Pode fazer.

-Vai ser extra.

-E quanto de extra?

-Quinze dólares.

É demais pensou Talese. Mas no excitamento em que estava não tinha como barganhar. Por isso, assentiu e ficou observando-a com curiosidade e expectativa, enquanto ela despejava mais talco em sua virilha e depois se punha a afagá-lo habilmente até o orgasmo, pressentindo com exatidão, e não um segundo mais cedo, o momento de pegar um lenço de papel na caixa ao lado.

Obs: Retirei os dois trechos da primeira edição em português de “A Mulher do Próximo”, lançado em 1980, pela Editora Record. Há uma edição mais esmerada, da Cia das Letras(foto), mas encontrei essa num sebo por R$ 10. E se Gay Talese achou caro pagar U$ 15 por uma massagem erótica, acho compreensível que eu tenha me satisfeito com a versão mais barata e judiada de “A Mulher do Próximo”.

O repórter está nu

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on abril 10, 2008

Dentre todos os nomes do Jornalismo Literário com os quais tive contato, um dos meus preferidos é o de Gay Talese.

Ele tornou-se famoso, entre outras coisas, por uma matéria em que construiu um brilhante perfil de Frank Sinatra sem trocar uma palavra com o astro, que estava de mau-humor devido a um resfriado e a boatos de seu envolvimento com a máfia, e não atendeu Talese como o combinado.

No livro “Fama e Anonimato” (Cia das Letras/2004), encontra-se tanto esse perfil de Sinatra, em que se descobre, entre outras coisas, que ele usava peruca; quanto outras histórias capilares curiosas como a que revela que o então campeão dos pesos pesados levava uma barba postiça para as lutas a fim de sair disfarçado se perdesse.

Em outras obras, Talese revelou os mínimos detalhes do funcionamento do New York Times – “O Reino e o Poder” (Cia das Letras/2000) -, e esmiuçou a vida de uma família mafiosa – “Os Honrados Mafiosos” (Expressão e Cultura/1972). Detalhe: os mafiosos estavam em ação, e permitiram que ele publicasse a história.

Mas na minha modesta opinião, seu livro mais fabuloso chama-se “A Mulher do Próximo” (Cia das Letras/2002) e trata dos costumes sexuais da moderna sociedade americana. Ali é possível entrar na mente de Hugh Hafner e saber como ele fundou a Palyboy com apenas 600 dólares; visitar os primeiros clubes de swing; e entender a censura do governo americano, em pleno século vinte, a livros como “Ulisses”, de James Joyce.

Mas Talese vai além das histórias, que, mesmo se fossem narradas em tópicos seriam fantásticas. O livro é construído com uma incrível maestria técnica permitindo que o leitor seja levado de uma história para a outra de forma orgânica. Talese não termina um assunto e começa outro, ele flui através das narrativas diversas.

E então, quando o leitor já está estupefato com as informações e a forma como elas são tecidas, eis que, lá no finalzinho do livro, encontra-se com um personagem chamado, vejam só, Gay Talese.

Para surpresa geral da nação ele se coloca na história e, literalmente, se despe diante dos leitores (desculpem, não resisti ao chavão).

Aparentemente sem nenhum pudor, a lenda do jornalismo narra suas aventuras em casas de massagem erótica, descreve participações em orgias, e conta como seu casamento foi posto em risco durante os NOVE ANOS em que passou apurando a história.

Segunda-feira colocarei dois trechos fantásticos da parte do livro onde ele tira a fantasia de jornalista e torna-se um personagem (pois é, não resisti de novo).

“A Horda de Visigodos”

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on abril 7, 2008

Durante o lançamento de Cama de Cimento, uma tia afastada folheou o livro demonstrando todo o interesse que a ocasião demandava. Alguns minutos depois, com as sobrancelhas levantadas num misto de espanto e confusão, me chamou de lado e perguntou apontando uma página:

– Mas isso é um romance? É ficção?

– Não tia, é um livro reportagem. É tudo verdade – respondi um pouco apressado e preocupado com a próxima dedicatória que teria de escrever.

Ela olhou mais um pouco para a página e, ainda com as sobrancelhas arqueadas, retrucou um pouco incrédula:

– Mas estou vendo aqui que tem diálogos!

Minha tia tem certa razão em seu espanto. Quando se fala em jornalismo o que vem à mente é aquela matéria quadrada dos jornalões, em que é raríssimo encontrar algo de criativo no texto, como, por exemplo, um diálogo(!).

Felizmente, para repórteres e leitores, no campo dos livros-reportagem, a criatividade e a utilização de elementos literários já estão pra lá de difundidos e podem ser usados com certa liberdade, talvez graças à tal “horda de visigodos” que chacoalhou o mercado editorial americano nos idos de 1960.

Horda de visigodos é a maneira como Tom Wolfe se refere à turma de jornalistas (da qual ele é um dos expoentes) que revolucionou o jeito de fazer reportagem nos EUA. Ele e outros nomes hoje transformados em ícones como Truman Capote, Gay Talese e Norman Mailler criaram o New Journalism, ou Novo Jornalismo, ou ainda, Jornalismo Literário.

Na verdade, creio que seria mais acertado dizer que eles fizeram um marketing em torno de algo que existe desde antes da invenção do papel, que é contar uma história real de forma atraente e divertida. Ou levaram essas técnicas ancestrais para a vanguarda do jornalismo, que estava engessada em leads e sub-leads, deixando toda a diversão para os romancistas.

A partir dessa época, Tom Wofe (o almofadinha da foto) cobria-se de glória ao começar suas reportagens assim:

Dez da manhã de domingo nas colinas da Carolina do Norte. Carros, quilômetros de carros em todas as direções, milhões de carros, carros pastel, verde aqua, Malaca aqua, laca Malaca, lavanda Nuvem, pink Assassino, framboesa Cara-Esfolada, coral Praia de Nudismo, laranja Emoção Honesta, e carros creme Paixão de Carmo Novo, todos indo para a corrida de stockcar, e quele velho sol maternal da Carolina do Norte explodindo nos pára-brisas. (Radical Chique e o Novo Jornalismo – Cia das Letras – 2005)

Nessa mesma época, o não menos afetado Truman Capote se metia por cidadezinhas do interior entrevistando os assassinos de uma família de caipiras e sentia-se seguro o suficiente para descrever, por páginas e páginas, o que uma menina pensou trancada em seu quarto horas antes de ser assassinada.

No momento da apuração a menina está morta, não há como saber o que passava dentro de sua cabecinha adolescente, mas os jornalistas literários pregam que, a partir de um contato extremamente profundo com personagens ou suas histórias, é possível, sim, saber o que essas pessoas pensariam em determinada situação.

Capote talvez seja aquele que vai mais longe na mistura da realidade com a suposta realidade, mas apesar de ser considerado um ícone do Jornalismo Literário, ele não dizia estar fazendo jornalismo. Isso era muito pouco para Capote que, quando escreveu  “À Sangue Frio”, afirmou ter criado nada menos do que um novo gênero literário: o “romance de não-ficção”.

Por conta desses e outros exageros, alguns críticos se referem aos “mestres” do Jornalismo Literário como pára-jornalistas. Profissionais mais preocupados com floreios de texto e ternos sob medida do quem com a veracidade dos fatos.

De qualquer forma, não há como negar que, depois deles, a profissão ficou muito mais divertida. Pena que na grande imprensa brasileira haja cada vez menos espaço para textos divertidos e elaborados.

Temos, no entanto, a revista Piauí, para provar que nem tudo está perdido.

Ossos do ofício

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on abril 3, 2008

Como disse no post anterior, uma das maiores vantagens do processo de elaboração de um livro-reportagem é a possibilidade de ir a fundo nos assuntos abordados, o que permite oferecer resultados de qualidade superior ao de outros meios.

Encontrei um ótimo exemplo prático dessa teoria em minhas recentes investigações sobre o ecstasy.

Os primeiros passos da apuração foram semelhantes àqueles que eu daria se estivesse trabalhando em uma matéria para algum jornal diário.

Fiz uma ampla pesquisa na internet e procurei fontes confiáveis pelos caminhos normais. A primeira foi o chefe dos investigadores de uma divisão da polícia civil que coíbe o tráfico de drogas sintéticas, e a segunda foi um psiquiatra do Hospital das Clínicas, especialista em ecstasy.

O policial me ofereceu um bom quadro histórico da droga no Brasil enquanto que o psiquiatra, além de confirmar a versão histórica do investigador, me explicou de forma precisa como a droga age no organismo.

Se eu estivesse apurando uma matéria para um veículo qualquer, a maior dificuldade provavelmente seria encontrar um personagem, um usuário de ecstasy para ilustrar a matéria.

Mas, como já estou mergulhado nesse universo há uns bons três meses, já havia entrevistado um rapaz que acabara de tomar três comprimidos, numa festa rave.

Assim, com os dados colhidos até aqui, eu me daria por satisfeito e aposto que qualquer editor também. Para o livro, contudo, achei que a parte histórica estava um pouco fraca. Os dois especialistas haviam me confirmado a versão da internet de que o ecstasy havia sido patenteado pela Merck, em 1912 como um inibidor de apetite.

Mas eu sentia que faltava um pouco de sal na história. Depois de alguns telefonemas por diversas unidades da USP, cheguei a uma professora da Farmácia que, por telefone, desmentiu de cara a versão dada pelos dois especialistas de que o ecstasy havia sido um remédio para emagrecer.

Ela estava um tanto atarefada e não pôde conversar muito, mas me enviou uma série de artigos em PDF, sobre a história do ecstasy.

Um deles, em particular, tinha material suficiente para fazer o roteiro de um épico de Hollywood. Contava de onde vinham todos os boatos referentes à droga, que incluíam teorias sobre uso da substância por soldados na Primeira Guerra Mundial, elucubrações sobre a possibilidade da droga ter sido descoberta por um vencedor do prêmio Nobel de química, entre outros causos bizarros.

Vou deixar a parte mais divertida para quem comprar o livro, mas o mais surpreendente do processo de apuração é que o artigo desmentia categoricamente a teoria de que o ecstasy havia sido patenteado como um inibidor de apetite.

Na verdade, a droga estava presente na formulação de um outro medicamento, para conter hemorragias. Como no início do século passado era comum se patentear fórmulas e não substâncias, o MDMA foi patenteado por tabela e não chegou a ser usado comercialmente.

Portanto, diria que nunca se pode pecar por excesso de apuração. A não ser quando o livro já parece pronto e não há jeito de desapegar do bicho. Lembro de uma frase de alguma personalidade, trazida a meus ouvidos por meu estimado editor:

“Um autor nunca termina um livro, apenas o abandona”.

Como encontrar um traficante de ecstasy

Posted in Extra by Tomás Chiaverini on abril 1, 2008

Aviso aos navegantes: o Antes da Estante não incentiva o uso e muito menos o tráfico de drogas. O post que se segue tem como único propósito mostrar como é fácil comprar ecstasy sem nem mesmo sair de casa e como o tráfico de drogas está disseminado na Internet.

  • 1) Entre no Orkut
  • 2) Digite “rave” no campo de busca (no alto à direita) e clique na lupinha.
  • 3) Clique na segunda comunidade da lista: “Quero ir a rave de Madagascar”.
  • 4) Clique no link “Vendo lança perfumes, doces e balas…”

É isso. A partir daí é possível ter contato direto com um traficante de ecstasy, LSD e lança perfumes.

A entrega, segundo o sujeito, é feita por SEDEX, via caixa postal.

NÃO RECOMENDO CLICAR NO PERFIL DO TRAFICANTE pois ele pode saber quem acessou.

Ressalto ainda que o ecstasy é uma droga ilícita e, portanto, não passa por qualquer controle de qualidade.

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