Antes da Estante

Ecstasy – Da classe média ao PCC

Posted in Extra by Tomás Chiaverini on março 17, 2008

200px-ecstacy_monogram1.jpgA equipe especializada em drogas sintéticas da Polícia Civil de São Paulo causou uma certa confusão e desconforto em seus colegas quando apareceu na delegacia com 1.200 comprimidos de ecstasy e alguns suspeitos presos em flagrante, em1998.

Era a primeira grande apreensão da droga em São Paulo e, como a substância era pouco conhecida, não estava claro se os jovens de classe média alta, que as vendiam em festas de música eletrônica, deveriam ser enquadrados nas leis previstas para crimes como tráfico de drogas, associação para o tráfico e formação de quadrilha.

Mas a dúvida não durou muito. Os filhos da classe média, agora elementos, foram presos e a equipe, chefiada pelo investigador Claudiney Henrique e estimulada por seus superiores, passou a investir mais em operações relacionadas ao ecstasy.

Além dos métodos tradicionais de investigação, como escutas telefônicas e monitoramento de suspeitos, até alguns anos atrás a polícia mantinha agentes disfarçados que freqüentavam boates de música eletrônica e festas raves.

Muitas prisões aconteciam dentro dos clubes e durante as festas. E era muito fácil prender essa molecada. Eles não andavam armados, não tinham relações com o tráfico de drogas tradicional e não se preocupavam muito com a polícia.

Na verdade, muitos deles nem mesmo se consideravam traficantes e não acreditavam que estavam sendo algemados, colocados em um camburão e levados para alguma carceragem para esperar pelo julgamento.

A maioria era composta por jovens que viajavam para a Europa ou os EUA, tinham contato com o ecstasy lá, traziam alguns comprimidos na bagagem e vendiam aos amigos.

Com o tempo, foram percebendo que aquilo podia render muito dinheiro sem grande esforço.

Alguns se profissionalizaram e passaram a fazer o tráfico de mão-dupla. Viajavam para os EUA ou Europa levando Cocaína – que aqui é mais barata pela proximidade de países produtores como Colômbia e Bolívia – e voltavam com os comprimidos de Ecstasy que chegavam a custar R$ 80 em território nacional.

A maioria deles não acreditava que estava indo presa só por vender umas “balinhas” aos amigos, mas a equipe de Claudiney, ou apenas Ney, como o policial gosta de ser chamado, continuava a assombrar as festas e a prender os traficantes que também começaram a ir a julgamento.

Por incrível que pareça, os advogados bem pagos da classe média não conseguiram evitar que boa parte desses traficantezinhos de fim-de-semana acabassem condenados e encaminhados às prisões.

E naquela conversa de o que você fez e quanto você puxou, eles começaram a contar sobre o produto que comercializavam, os comprimidinhos que vêm em cores diferentes e com símbolos estampados, para ajudar o usuário a saber a procedência da droga e a viagem que ela promoverá.

A forma da pílula é uma espécie de marca do produto que indica principalmente o conteúdo porque, apesar de ser composta basicamente por MDMA – Metilenodioximetanfetamina, uma substância desenvolvida pela Merk em 1914 para inibir o apetite – é comum haver outras drogas misturadas nas “balinhas”.

Os filhos da burguesia contaram tudo isso nas celas das penitenciárias e não deu outra. O pessoal que puxava cana com eles, preso por tráfico de cocaína, maconha e crack, cresceu os olhos para o negócio. As informações se espalharam pela rede do crime organizado.

De uns dois anos pra cá, a equipe de Ney até vai a algumas festas para observar os mecanismos de comercialização, mas geralmente nem se dá ao trabalho de efetuar prisões. Porque quem for preso tomando bala ou dividindo com um amigo não irá cumprir um dia de pena e nem precisará pagar multa. Apenas assinará um termo circunstanciado como usuário e será liberado em seguida.

E o tráfico já não se restringe mais às festas, entrou no esquema profissional. Tanto que, atualmente, a polícia suspeita que o PCC (Primeiro Comando da Capital), aquela organização comandada de dentro das prisões que aterrorizou São Paulo em 2006, já esteja produzindo seu próprio ecstasy em laboratórios aqui no Brasil.

Só que a qualidade é muito pior do que a das balinhas trazidas da Europa. E muitos dos usuários de hoje tomam esse ecstasy sujo, que chega a custar apenas R$ 15, e não sabe que o que está ingerindo tem pouco a ver com o ecstasy europeu.

E ao que tudo indica o tráfico das “balinhas coloridas” só tende a aumentar.

“Quando estourava uma biqueira na favela, eu nunca ia imaginar encontrar ecstasy. Hoje, eu posso te dizer que cerca de 15% a 20% da contabilidade do tráfico organizado de drogas é decorrente da venda do ecstasy”, afirma Ney.

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Uma resposta

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  1. orlando said, on março 18, 2008 at 01:27

    Se você “fuçar” um pouquinho mais no DP, talvez descubra que o “Hells Club” – nome dado ao after-hours do Columbia, que funcionava no final da Augusta com Henrique Schauman – foi um dos locais pioneiros do Brasil em termos de comercialização de ecstasy. O Hells acontecia, salvo não me engano, de sábado para domingo, a partir das 4 ou 5 da manhã e ia até…sei lá, uma da tarde. Era uma espécie de analogia à então famosa Trade, em Londres, celebrada por seus after-hours (normalmente os clubs e pubs com dance floor encerravam 4 da matina, fosse a Heaven, fosse a Ministry of Sound, fosse mesmo Madame Jojo) e seus frequentadores super-chapados. Nem lembro o nome psy-trance já existia na época. Mas já era minimalista e lisérgico, tal qual o psy. Tando na Trade, como no Hells Club.


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