Antes da Estante

Origem da Idéia

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on fevereiro 29, 2008

Mais uma chapa de camarões passa por cima da minha cabeça, chiando e soltando um cheiro doce de churrasco.

Natural daTransilvânia (Romênia), Matyas aproveita a deixa, ergue o copo de batida vazio, aponta o dedo para os restos amassados de alguma fruta e dirige-se à garçonete, confundindo os idiomas:

–   One more!

A mocinha, feliz com a porcentagem gorda que irá embolsar no fim da noite, apenas sorri confusa, sem entender. Ele também fica um pouco confuso, depois pergunta à namorada – uma modelo paulista – o que estava bebendo.

–   Batida de pitanga – ela responde em voz baixa piscando devagar os olhos bonitos e grandes.

–   Então mais uma batida de pitanga! – exclama Matyas, retomando o português quase sem sotaque.

A garçonete dá um sorriso exagerado para o freguês rico, jovem, simpático e bonito e sai rebolando com sua mini-saia em direção ao balcão do restaurante de madeira, cravado numa praia de “Viagem e Turismo” em algum lugar no sul da Bahia.

Na outra ponta da mesa Walter, um DJ holandês conversa com o sócio de Matyas sobre softwares e hardwares que, pelo que entendi, juntos seriam capazes de estourar os tímpanos de uma pequena multidão.

Ao lado deles, Ângela, uma australiana especialista em cerimônias de abertura de festivais psy-trance e viajante profissional há nove anos, explica à acompanhante do repórter sobre a importância de se ter consciência da energia contida em cada alimento.

Do outro lado da mesa, Charlote, uma estilista carioca com aparência e porte de top model, apenas acompanha a tudo e se arrisca a experimentar o salmão tartar que havia sido depositado à sua frente pouco antes.

Matyas continua a contar sobre os festivais psicodélicos. Tinha começado falando do Universo Paralello, festa que acabara dias antes e atraíra cerca de dez mil pessoas do mundo todo. Dez mil jovens neo-eletro-hippies que se desidrataram de dançar durante cinco dias, numa praia próxima dali.

Dez mil viajantes que tomaram toda uma praia e se amontoaram instalados em uma das três áreas de acampamento, com 170 duchas, 120 banheiros e uma usina de reciclagem instalada só para o evento.

Percebendo minha empolgação, Matyas continuou. Falou sobre o Earth-Dance – festival que ocorre no mesmo instante em 360 cidades de 40 países e atrai milhões em meditações coletivas – e o Burning Man, que reúne cinqüenta mil pessoas num deserto dos EUA, todos obrigados a participar de alguma forma num dos 2.500 palcos.

Estupefato com aquele novo mundo que piscava suas luzes coloridas para mim, eu fazia o possível para anotar tudo numa porção de guardanapos que ainda estão amarfanhados em alguma gaveta da minha escrivaninha.

Uma outra chapa de camarão passa chiando. Não sei dizer se é a terceira ou quarta. Perdi a conta.

Tagged with: ,
%d blogueiros gostam disto: