Antes da Estante

Casa Nova

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on abril 28, 2015

A partir de agora, o que vinha para este blog vai para: www.tomaschiaverini.com

Unhas da imortalidade

Posted in Crônica, Nota de Rodapé by Tomás Chiaverini on outubro 1, 2013

Durante anos guardei minhas unhas. Não lembro exatamente como tive a ideia. Mas um dia, depois de aparar pés e mãos não joguei tudo fora como faria um humano mentalmente são. Em vez disso, guardei as pequeninas meias-luas de queratina numa caixinha de tic-tac sabor laranja. No começo não havia um motivo específico. Talvez tenha sido preguiça de ir até o lixo, talvez a caixinha estivesse ali, ao alcance, sobre o criado-mudo.

De qualquer forma, isso logo se tornou um hábito. E, com o tempo, passou a me proporcionar um discreto prazer. Pensava naquela música do Chico. No futuro distante, um escafandrista revira uma casa submersa e encontra resquícios de um amor do passado. Pensava que um dia um arqueólogo viria revirar meu criado-mudo, talvez fossilizado após uma hecatombe nuclear ou coisa que o valha, e encontraria ali minha coleção de unhas, acumuladas durante uma vida.

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O pão, a pomba e as sandálias prateadas

Posted in Crônica by Tomás Chiaverini on outubro 1, 2013

Segunda-feira. Acordo com uma sensação estranha e intensa de que nada faz sentido. Levantar da cama, sobretudo, não faz sentido. São nove horas, um horário ridiculamente preguiçoso para qualquer cidadão de bem. Mesmo assim programo o celular para tocar trinta minutos mais tarde. Não chego a dormir de novo. Fico lá, debaixo das cobertas, imaginando a manhã fria e tentando entender o que, afinal, não faz sentido com tanta força.

Foi um bom fim de semana. Priscila veio ficar comigo, bebemos vinho sem moderação, saímos para jantar, assistimos a filmes velhos na TV. No domingo fizemos torta de maçã, com uma receita indicada pela Clau. Estava um dia muito frio, mas mesmo assim fomos a pé comprar os ingredientes. Quando saímos havia uma pomba parada bem ao lado da entrada do prédio, numa esquina do bairro das Perdizes. Estava muito quieta e não voou quando nos aproximamos. Provável que estivesse doente ou machucada.

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Explosões, pancadaria e tédio, no novo Homem de Aço

Posted in Crônica by Tomás Chiaverini on julho 18, 2013

Não existe amor em 3D

por Tomás Chiaverini*

Domingo passado fui assistir ao Homem de Aço. Cento e quarenta minutos de explosões, prédios desabando, destroços e rajadas de energia saltando sobre a plateia mastigadora de pipoca ensebada. Saí do cinema zonzo, cabeça doendo, com a nítida impressão de que, se continuar por esse rumo, o tão amado 3D vai acabar de vez com o cinema.

Meu primeiro contato com o Super-Homem foi numa telinha de 14 polegadas. Sessão da Tarde: Superman II – A Aventura Continua. Deve ter sido no final da década de 1980, eu estava então com meus sete ou oito anos.

Lembro que a coisa ia bem até que o Super-Homem, completamente apaixonado por Louis Lane resolve abrir mão dos poderes. Para amar uma mortal é obrigado a tornar-se mortal também. Entra num esquife de gelo que mantém na Fortaleza da Solidão (seu esconderijo no Polo Norte) e sai de lá um homem comum. Que ideia…

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Ovnis em Ubatuba

Posted in Crônica by Tomás Chiaverini on junho 11, 2013

Os óvnis do meu pai

por Tomás Chiaverini

Meu pai viu um objeto voador não identificado. Não só viu como fotografou. A coisa toda aconteceu na véspera do ano novo, em Ubatuba, onde ele mora há alguns anos. Era noite, ele estava no jardim e fotografava estrelas, testando uma nova teleobjetiva. Como todos os fotógrafos da era digital, clicava, depois olhava no visor LCD, ampliando as imagens para conferir os detalhes. Foi assim que viu o OVNI.

Aumentou uma das estrelas e viu que, na verdade, não era apenas uma, mas várias, agrupadas num emaranhando de luzes em forma de cesta. Tirou uma sequência de fotos. Mostrou a uma amiga para ter certeza de que não estava tresvariando. Não estava. Havia realmente uma cestinha de luzes estacionada, no céu de Ubatuba.

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O raro prazer de se demitir, na crônica de hoje no Nota de Rodapé

Posted in Crônica by Tomás Chiaverini on outubro 24, 2012

Seja feliz, demita-se

Eu nunca cheguei a conhecê-lo mas sempre o achei triste. A impressão vinha das vezes em que nos cruzamos pelos corredores da emissora. Era muito gordo e baixo e usava um rabo de cavalo que não dava conta de esconder o início da calvície. Caminhava com dificuldade, sempre fumando um Marlborão vermelho, exalando tédio e cansaço.

Só o vi sorrir uma vez. Na verdade foi no mesmo dia em que ouvi sua voz pela primeira vez. Estava estranhamente radiante. As mãos tremiam de empolgação, segurando um cigarro que não fazia questão de acender. O motivo? Acabara de ser demitido.

– Vou pra Bahia, deitar embaixo de um coqueiro e fumar um quilo de maconha – dizia rindo feito criança.

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O charme retrô dos bigodes de Levy Fidelix, no Nota de Rodapé

Posted in Crônica, Jornalismo by Tomás Chiaverini on outubro 3, 2012

Os Moinhos de Vento de Levy

Levy Fidelix foi o primeiro candidato a chegar ao debate da TV Cultura – realizado em setembro – com quase duas horas de antecedência. Adentrou os portões exibindo um caprichado sorriso sob o bigode preto retinto, aparentemente recém retocado de Grecim 2000. Ao contrário de seus adversários (excetuando-se, por motivos óbvios, Soninha), vestia um terno mal ajustado e uma gravata listrada, daquelas largas, de antigamente. Quando o embate começou, destilou os disparates de sempre, ainda que o famoso aerotrem tenha perdido espaço para um banco municipal. Na surreal hipótese de Levy tornar-se prefeito, o tal banco, de alguma maneira mágica, salvaria a cidade da iminente bancarrota.

Foram duas horas e meia de discursos enfadonhos e semi-afagos entre os oito candidatos, e faltavam menos de quinze minutos para meia-noite quando o mediador, Mario Sergio Conti, finalmente decretou o término do lenga-lenga. Apesar do adiantado da hora, a imprensa, que heroicamente lotava a plateia, subiu ao palco em busca de declarações. Aquela coisa de sempre: microfones, gravadores, câmeras e filmadoras disputando espaço para registrar uma declaração insossa qualquer.

Os mais assediados foram Haddad, Serra e Russomanno, líderes nas pesquisas. Mas todos, até os menos expressivos, como Gianazzi e Paulinho da Força, mereceram alguma atenção dos repórteres. Menos o pobre Levy. Nem sequer um microfonezinho se dispôs a dar voz às suas utopias tão ingênuas e divertidas.

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Corte seu próprio cabelo, pergunte-me como.

Posted in Crônica by Tomás Chiaverini on agosto 30, 2012

Emancipação Capilar

Barbeiros não sabem cortar cabelos. Pode parecer uma afirmação absurda, mas é fato. Barbeiros cortam cabelos como se fossem gramados. E cabelos não são gramados. São parte da nossa identidade, como orelhas, nariz ou sobrancelhas. Mas os barbeiros não levam isso em conta. Apenas cortam, sempre igual. Antes de começarem, quando nos sentamos nas cadeiras das barbearias (tão parecidas com as dos consultórios dentários), eles sempre perguntam como queremos o corte: mais curto, mais comprido, pentear pro lado, pentear pra trás. Mas, no fim, cortam sempre igual.

Um homem que sai do barbeiro é reconhecido à distância. E por alguns dias tem de lidar com sua personalidade homogeneizada, qual um recruta do exército ou um menino de calças curtas, obrigado a acatar os gostos capilares da mãe.

Eu sempre odiei barbeiros por causa dessa mania de deixar todo mundo com a mesma cara de bom moço. Fossem os barbeiros arquitetos e todas as cidades se assemelhariam a condomínios de Alphaville. Um mundo limpinho, arrumadinho, porém desprovido de charme e de identidade própria.

Mas cheguei a tentar algumas vezes. Em geral em barbearias razoavelmente baratas, mas nem sempre. Certa vez, num lapso de insanidade e obviamente estimulado por uma mulher, fui a um desses salões caríssimos, onde todos vestiam quimonos. Me fizeram massagem, me lavaram a cabeça com xampus aromáticos de ervas desconhecidas, me deram revistas importadas pra eu apontar o penteado ideal, cortaram os cabelos com navalha e, no fim, o resultado foi a mesma bananice de sempre.

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Aperitivo

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on julho 26, 2012

“Afinal, se o método científico não é capaz de explicar algo tão abundante e natural como a vida, subitamente me pareceu uma idiotice tentar lançar mão dele para desvendar algo tão raro e incerto como a vida após a morte. E se a boa, velha e simples comunicação verbal nos tem causado tantas tragédias ao longo do tempo, como ser prepotente a ponto de tentar entender a linguagem não dita de ondas cerebrais pescadas no éter dos inconscientes?”

Todas as proibições do Kassab, no Nota de Rodapé

Posted in Crônica by Tomás Chiaverini on julho 25, 2012

Esquadrão da gema mole

Eis que o Kassab resolveu restringir a distribuição de sopa para moradores de rua. A medida absurda virou uma bola de neve nas redes sociais, organizou-se um sopaço na frente da casa do prefeito e as autoridades, um olho na sopa outro nas eleições, trataram de voltar atrás. De qualquer forma, mais uma vez veio à tona essa mania de proibir tudo, que parece parte do DNA Serra/Kassab, que está deixando o mundo mais chato e que, ao mesmo tempo, pavimenta um caminho perigoso.

As leis deveriam ser feitas no intuito de manter nossa espécie agressiva e autodestrutiva num estado mínimo de harmonia. Os reacionários tendem a confundir as coisas. Acham que elas têm a função de deixar o mundo mais limpinho e arrumado, parecido com alguma ideia pré-concebida de paraíso que lhes tenha sido inculcada na infância.

Quando eles são levados a sério, criam-se leis estúpidas que diminuem a liberdade dos homens, quando, na verdade deveriam fazer justamente o contrário. Deveriam ser construídas de modo que cada um pudesse desfrutar o máximo de liberdade sem causar grandes prejuízos aos vizinhos (algum prejuízo é inerente à existência). Em outras palavras, a liberdade de um termina quando começa a liberdade do outro.

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Crônica do mês, no Nota de Rodapé

Posted in Crônica, Jornalismo by Tomás Chiaverini on junho 22, 2012

Daqui a pouco você volta pro Face

Um gordinho me ultrapassou na fila do quilo. E o pior é que eu não estava empacado na área de saladas, lutando com um ovo de codorna, impedindo que ele chegasse logo ao Penne Alfredo. Se fosse assim, haveria alguma licitude. Mas não. Meu prato já estava montado, salada temperada, no caminho diagonal da balança, quando o gordinho, de repente, me ultrapassou.

Incrédulo diante de tamanho descaso para com as convenções gastronômicas, parei e encarei ostensivamente o sujeito, que aparentemente nem se deu conta. Era um baixote atarracado, flácido e suado, o que me alimentava a vontade de aplicar-lhe um tabefe ao pé da orelha. Claro que não fiz nada, nem sequer lhe cutuquei o ombro reclamando, e o almoço transcorreu burocrático e insosso como sempre.

Mas o fato é que tive vontade. Principalmente porque senti minha masculinidade, meus direitos, meu espaço vital sendo conspurcados pela pressa do gordinho. Diante de sua rotunda circunferência eu poderia me acalmar pensando que era gula, algum desequilíbrio hormonal, compulsão alimentar. Mas não creio que tenha sido fome o motivo do homenzinho ter se prestado a tão desprezível papel social. Ele queria ganhar tempo, isso sim.

Queria pesar logo o prato, ir logo pra mesa, comer logo, pagar logo, voltar logo pro trabalho, pegar logo o carro, ir logo pra casa, tomar banho logo, jantar logo, trepar logo na mulher, gozar logo, dormir logo, acordar logo, tomar café logo, ir logo pro trabalho no dia seguinte, sair pra almoçar logo…

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Ode aos burocratas, na crônica do mês no Nota de Rodapé

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on maio 16, 2012

Contraponto

Caro rato de gabinete, homo sapiens de bunda murcha, barriga pochete e pinto encollhido. Caro gestor de recursos humanos, sapato e certezas quadradas, ser de mente obtusa, operador de Excel, comedor de bandejão, cheirador de ar-condicionado. Em suma, caro burocrata. Este texto foi escrito para você.

E pela paciência dos que agonizam na fila do INSS, pela alma dos que sonham com o seguro desemprego, pelo tempo desperdiçado dos que surfam no site da Receita, espero que essas linhas tenham o efeito de uma escarrada no café morno e melado que você ingere em dozes homeopáticas pra alimentar a azia.

Atenção, caro burocrata, tire o olho do jogo de paciência e preste atenção!
Porque a revelação a seguir abalará as estruturas de seu intelecto de ondas curtas, dissolverá a cola de seus post-its, desbotará o azul Royal de suas esferográficas. Pois o fato, caro engravatado analógico, é que o relógio de ponto, esse objeto tão idolatrado por sua raça, esse instrumento de dominação, controle remoto dos assalariados não controla realmente nada.

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Desodorantes, na crônica do mês no Nota de Rodapé

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on abril 19, 2012

Pelas Axilas de Ícaro!

Não é de hoje que o povo da publicidade exagera. É o trabalho deles, afinal. Criam um mundo de fantasia onde o produto em questão, seja ele um carro esporte ou um adesivo para dentaduras, nos tornará mais felizes.

Às vezes a gente até finge que acredita. Até espera que, quando o garçom chegar com a cerveja, o bar será imediatamente tomado por gostosas decotadas, piscando os cílios compridos e mandando beijinhos. Mas, no fim, a gente sabe que vai acabar cercado pelos mesmos amigos barbados e barrigudos de sempre. Até aí tudo bem, há que se ter alguma fantasia na vida, ainda que apenas nos trinta segundos do comercial de cerveja.

Mas tudo tem limite.

E outro dia, enquanto escovava os dentes no meu pequeno e reconfortante banheiro, fui atingido por uma epifania. O limite há muito havia sido rompido.

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Crônica do mês, no Nota de Rodapé

Posted in Crônica by Tomás Chiaverini on março 22, 2012

Aula de humildade com o professor Aziz Ab’Saber

Há cerca de dez anos o anfiteatro da faculdade de geografia da USP estava lotado de jovens barbudos e cabeludos, garotas de saia indiana e sandálias de couro, pós-adolescentes ainda brigando pra se livrar das espinhas no rosto. Centenas de estudantes de várias turmas que se juntavam para ouvir o geógrafo Aziz Ab’Saber.

Tratava-se de uma aula especial. Não propriamente pelo conteúdo, mas porque Aziz era uma lenda do departamento, tido por muitos como o maior geógrafo brasileiro em atividade, um dos maiores do mundo. Além disso, estava aposentado e não lecionava mais para graduação.

Quando ele entrou, pouco depois das sete da noite, todos os lugares estavam ocupados. Havia estudantes em pé, outros sentados nos degraus, entre a plateia. Na época, Aziz já aparentava uma saúde frágil. Sofria com problemas de visão e andava devagar, encurvado pelo peso das quase oito décadas enfileiradas.

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O alter ego feminino de Chiaverini, na revista Piauí 65

Posted in Jornalismo, literatura, Piauí by Tomás Chiaverini on fevereiro 14, 2012

O segredo de Paulinha

Como uma garota do outro mundo fez mil amigos em dois meses

por Tomás Chiaverini

Paula Merkell é moderna, descolada e sutilmente misteriosa. Formada em moda, está no auge dos 28 anos e é muito popular. Em seu perfil do Facebook, solicitações de amizade pululam como flashes num show do Restart. Em dois meses foram cerca de 100, acompanhadas por flores virtuais, poemas e saudações enviados por amigos pixelizados de todo o país. Para os mais próximos, a notícia a seguir será um tanto dolorosa: sim, Paula Merkell não existe.

A musa não passa de uma marionete eletrônica de breve existência. Diferentemente de outros perfis falsos que se multiplicam pela rede, o de Paulinha não pretendia promover marcas, xeretar a vida alheia, buscar alvos para crimes ou colher dados para campanhas promocionais. Foi criado com o propósito único de amealhar mil amigos, meta que cumpriu em 56 dias.

Aos marmanjos que insistiram para a jovem postar fotos pessoais, causará mais aflição saber que a pessoa no comando de Paulinha é homem. Mas que não se martirizem. O avatar da jovem foi criado para figurar como um pires de mel ofertado aos súditos de Mark Zuckerberg. As pequenas armadilhas começaram já na escolha do nome. Brasileiro, simples e despojado, secundado por um sobrenome forte, emprestado da chanceler alemã Angela Merkel, com um “L” a mais no final, para minimizar o risco dos homônimos.

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Crônica de estreia no Nota de Rodapé

Posted in Crônica by Tomás Chiaverini on fevereiro 8, 2012

Ressaca, Michel Teló e Times New Roman

Pretendia escrever sobre um filme. Comecei até. Ia ser um texto legal, descolado, com tiradas de humor.

No final ia ter uma co-relação com o título da coluna que, como a Helena me disse com a sinceridade anabolizada por meia garrafa de vinho, não é dos melhores.

Mas eu ia escrever porque é o que gosto de fazer, porque a ideia parecia boa, porque me comprometi com um amigo. Comecei a escrever, até. Mas estava ficando uma merda.

Não uma completa merda, mas uma merda razoável. Talvez vocês lessem e achassem bacana, se divertissem, curtissem ou até, honraria maior das redes sociais, compartilhassem no mural do Facebook. Mas o fato é que estariam lendo apenas uma merda razoável.

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As surreais lições de Zé do Caixão, na Piauí 61

Posted in Jornalismo, Piauí by Tomás Chiaverini on outubro 17, 2011

O doce mais doce que o doce

As lições gasosas de Zé do Caixão para aprendizes de detetive

por Tomás Chiaverini

Apertados em carteiras de fórmica bege, os 38 aspirantes a detetive particular silenciaram assim que Zé do Caixão adentrou a sala de aula. Passava um pouco das 10 horas de um sábado. O sol entrava pelos janelões e diminuía a aura macabra do cineasta, levemente encurvado aos 75 anos. As unhas longuíssimas, encardidas e retorcidas – seu traço distintivo mais marcante – haviam sido cortadas duas semanas antes. Ele tampouco trajava a característica capa preta sobre a camisa. Mas isso não impediu que, ao lado do quadro-negro, José Mojica Marins atraísse total atenção dos alunos do Instituto Universal dos Detetives Particulares, no Centro de São Paulo.

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Loyola, Verissimo e Zuenir, na revista piauí 60

Posted in Jornalismo, literatura, Piauí by Tomás Chiaverini on setembro 19, 2011

Os feirantes

No novo cenário das letras nacionais, Loyola Brandão, Verissimo e Zuenir Ventura dão autógrafos, apertam mãos, sorriem e tiram fotos

por Tomás Chiaverini

gnácio de Loyola Brandão subiu nas asas da fama aos 8 anos de idade, quando matou os sete anões e libertou Branca de Neve da escravidão doméstica. O crime ocorreu num exercício de redação no qual a criançada imaginava finais alternativos para as histórias que lia. No de Loyola, a heroínaliquidou os baixotes com uma sopa de cogumelos venenosos e viveu feliz para sempre.

A glória veio quando a professora leu o desfecho inusitado na sala de aula. Bastou Dunga, Zangado e companhia caírem mortos para que, com uma gargalhada em uníssono, todos voltassem os olhos de admiração para a última fileira, onde o introvertido autor costumava se sentar.

“Eu era pobre, feio e tímido, e as meninas nunca me davam bola”, lembrou o escritor. “Mas naquele momento me senti olhado e, inconscientemente, decidi que a literatura seria o meu caminho. Foi também meu primeiro momento de celebridade, quando a classe saiu no recreio espalhando: ‘O Ignácio matou os anões! O Ignácio matou os anões!’”

Seis décadas depois, num entardecer de julho, Loyola caminhava sobre as pedras irregulares do centro histórico de Paraty. Em meia hora, subiria ao palco da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), o festival de Cannes da literatura brasileira. Aos 74 anos, quase cinquenta como escritor, garantiu que estava tão nervoso quanto naquela manhã em Araraquara, quando a professora leu sua redação em voz alta para os colegas. “Eu sempre fico tenso antes de me apresentar”, gesticulou com os óculos na mão. “E se não fico, sai uma merda.”

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Conheça a rede de TV árabe Al Jazeera, na edição 49 de Retrato do Brasil

Posted in Jornalismo by Tomás Chiaverini on agosto 16, 2011

 As Batalhas da Al Jazeera

A emissora árabe, que ficou famosa após divulgar vídeos de Osama bin Laden, foi bombardeada pelos EUA, teve um cinegrafista preso em Guantánamo por sete anos, desempenhou papel determinante nas recentes revoltas do Oriente Médio e recebeu elogios de Hillary Clinton

por Tomás Chiaverini

NO INÍCIO DE  2003, a Guerra do Iraque monopolizava o noticiário internacional. Sob o argumento de que o ditador Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa, o governo de George W. Bush iniciara uma pesada ofensiva contra o país árabe. A operação avançou rapidamente e 20 dias após o início do conflito tropas norteamericanas cobriam a cidade de Bagdá com uma intensa chuva de mísseis.

No escritório da rede de TV Al Jazeera na capital iraquiana, ouvia-se uma interminável sequência de explosões e disparos, como se a guerra fosse invadir o local a qualquer momento. Enquanto parte da equipe da emissora queria subir ao telhado do prédio para registrar a troca de tiros, o produtor sênior Samir Khader continha os ânimos, pedindo que esperassem o combate se afastar. Durante algum tempo, técnicos, produtores e repórteres apenas ouviram os estrondos e estampidos. Quando o conflito pareceu arrefecer, Khader ordenou que o correspondente Tarek Ayub e um operador de câmera subissem à cobertura.

Minutos mais tarde a transmissão teve início, mas tudo que se via na sala de edição era a imagem do correspondente sentado no chão, com as costas apoiadas contra uma barricada de sacos de areia. Usava um pesado capacete de combate e um colete à prova de balas azul-escuro, que lhe cobria o tronco até o pescoço. Trazia no rosto uma expressão tensa, mistura de medo, incompreensão e ansiedade.

Da sala de controle, o editor ordenou ao cinegrafista que deixasse de filmar o repórter, voltasse as lentes para a rua e procurasse mostrar cenas do bombardeio que destruía a cidade. O técnico obedeceu e passou a procurar imagens aleatoriamente.

Enquanto isso, outro corresponde da Al Jazeera na cidade, ao telefone com um editor, avisou que um caça norte-americano se aproximava da emissora com o nariz baixo, numa manobra característica de ataque. O cinegrafista que estava com este segundo correspondente acompanhou o voo rasante da aeronave e registrou o momento em que três pequenos pontos incandescentes se desprenderam do caça. Três mísseis lançados simultaneamente. Um deles atingiu em cheio o telhado do escritório da Al Jazeera, matando na hora o correspondente Tarek Ayub e ferindo o operador de câmera.

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Confira o site da Retrato 

Campeonato de cubo mágico, na polêmica Piauí 59

Posted in Jornalismo, Piauí by Tomás Chiaverini on agosto 15, 2011

Cada um no seu quadrado

É de Uberlândia o recordista sul-americano de montagem de cubo mágico

por Tomás Chiaverini

ara os pobres de espírito, o cubo mágico é um brinquedo dos mais irritantes. Tentativas obstinadas para deixar cada um de seus seis lados com quadradinhos da mesma cor não costumam render mais do que horas perdidas e frustração. A maioria desiste e larga numa gaveta qualquer o quebra-cabeça endiabrado. Os mais arrebatados destroem o cubo a marretadas ou arremessam-no contra a parede, num compreensível acesso de ira.

Mas, assim como existem aqueles que conseguem assoviar, estalar os dedos, mexer as orelhas ou dobrar a língua, há também uma elite privilegiada capaz de resolver o quebra-cabeça com certa facilidade. Pior: há cidadãos que desembaralham o tinhoso com uma rapidez de dar raiva aos reles mortais. O australiano Feliks Zemdegs, o mais ligeiro do mundo na solução do cubo mágico, ajeitou certa vez os seis lados em espantosos 5,66 segundos – pouco mais de metade do tempo que o jamaicano Usain Bolt levou para bater o recorde dos 100 metros rasos. Zemdegs tem 15 anos.

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