Antes da Estante

O editor solta o verbo

Publicado em De segunda por Tomás Chiaverini em Junho 15, 2009

O editor A. P. Quartim de Moraes é um dos homens que fazem as coisas acontecer no mundo dos livros. Aparentemente sente-se à vontade ao dar murros em pontas de faca arriscando-se a publicar autores ilustremente desconhecidos, como este que vos escreve.

Quartim foi o único editor brasileiro a olhar com carinho os originais do “Cama de Cimento” e teve a manha de brigar pela publicação do livro de tema espinhoso. Depois, mostrando toda a juventude de seus 67 anos, defendeu e aprovou o projeto “Festa Infinita” diante do conselho editorial da Ediouro. Pra quem tiver curiosidade, parte dessa saga já foi contada aqui, aqui e aqui.

E as braçadas contra a corrente vão além de publicar títulos que não sejam best-sellers garantidos. Vez ou outra, o editor solta o verbo, como fez na revista Mundo Literário e, mais recentemente, no Estadão.

Nesse último artigo, publicado sábado passado, Quartim elabora uma teoria no mínimo interessante para ir contra a máxima de que o público brasileiro não se interessa por literatura nacional:

“(…) A experiência profissional me habituou a ouvir, de livreiros e até mesmo de editores, a explicação, bem simplesinha, de que o desempenho do mercado demonstra que o leitor de livros brasileiro não tem grande apreço por conteúdos ficcionais nacionais; não se interessa, enfim, por histórias brasileiras. E seria apenas por essa razão que, na comparação com a nacional, a ficção estrangeira predomina nas listas de livros mais vendidos e – causa ou efeito? – nos catálogos editoriais e nas livrarias.

Se a programação das emissoras de televisão brasileiras seguisse o mesmo “critério”, o chamado horário nobre estaria hoje tomado por séries do tipo Lost, 24 Hours, Sex and the City and so on. Não é o que ocorre. A teledramaturgia brasileira, fundada maciçamente em conteúdos brasileiros, é absolutamente hegemônica em audiência e conquistou um padrão de qualidade que se impôs no mercado internacional. É hoje talvez o maior produto de exportação brasileiro no campo da criação artística e cultural. O know-how por ela conquistado tem reflexos evidentes não só na criação de subprodutos de grande refinamento artístico – muitas das chamadas minisséries -, como até mesmo na recente produção cinematográfica nacional. Trata-se, é claro, de uma criação artística destinada ao consumo de massa, com tudo o que isso possa significar em termos de frustração da expectativa de maior sofisticação intelectual. Expectativa que, de resto, não chega a ser uma característica marcante do mercado livreiro. Mas o fato é que as novelas de televisão fazem sucesso em todos os estratos sociais. Até os leitores de bons livros as acompanham. Trata-se, inegavelmente, de um importante fenômeno cultural. E, claro, de um negócio extremamente lucrativo. (…)”

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