Denarc monta delegacia em pleno cerrado
O raver estava lá na pista, ouvindo aquele som hipnótico, aos pés da chapada, fumando seu baseado em meio a milhares de pessoas incrivelmente amigáveis. A certa altura da madrugada, um sujeito se aproximava dele, passava o braço em volta de suas costas num abraço fraterno e lançava a pergunta:
- E então, legal a festa? Tá curtindo?
- Opa, massa! – respondia o outro.
- E esse baseado aí, tá curtindo?
- Opa, quer aí – o raver oferecia na gentileza característica da maioria dos participantes do Trancendence.
- Não, obrigado. Mas você pode vir comigo que você está preso.
O Denarc de Goiânia ainda não terminou de tabular os dados da operação, mas fala-se em algo como duzentas pessoas detidas. Eram todos levados para uma tenda, armada em plena festa, num espaço mais discreto do cerrado, e só durante a noite.
Como desde 2006 a lei brasileira passou a distinguir usuários de traficantes, hoje quem é flagrado usando ou transportando drogas não corre mais o risco de acabar na cadeia. As punições – que variam de acordo com o tipo e a quantidade de drogas apreendidas, e com a vontade do juiz – vão de repreensões verbais a multas ou serviços comunitários.
Para os que foram detidos no Trancendence havia um problema a mais. Além de tomarem um chá de cadeira em pleno festival, todos teriam de voltar à cidade de Alto Paraíso no mês seguinte, para ouvir a decisão do juiz.
E alguns produtores de festas da região, que tradicionalmente aproveitam o público remanescente do festival, até acharam boa a idéia toda essa confusão. Afinal, era um incentivo a mais para que os ravers esticassem um pouco a estadia na cidade.

