Antes da Estante

Ode aos burocratas, na crônica do mês no Nota de Rodapé

Publicado em Uncategorized por Tomás Chiaverini em maio 16, 2012

Contraponto

Caro rato de gabinete, homo sapiens de bunda murcha, barriga pochete e pinto encollhido. Caro gestor de recursos humanos, sapato e certezas quadradas, ser de mente obtusa, operador de Excel, comedor de bandejão, cheirador de ar-condicionado. Em suma, caro burocrata. Este texto foi escrito para você.

E pela paciência dos que agonizam na fila do INSS, pela alma dos que sonham com o seguro desemprego, pelo tempo desperdiçado dos que surfam no site da Receita, espero que essas linhas tenham o efeito de uma escarrada no café morno e melado que você ingere em dozes homeopáticas pra alimentar a azia.

Atenção, caro burocrata, tire o olho do jogo de paciência e preste atenção!
Porque a revelação a seguir abalará as estruturas de seu intelecto de ondas curtas, dissolverá a cola de seus post-its, desbotará o azul Royal de suas esferográficas. Pois o fato, caro engravatado analógico, é que o relógio de ponto, esse objeto tão idolatrado por sua raça, esse instrumento de dominação, controle remoto dos assalariados não controla realmente nada.

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Desodorantes, na crônica do mês no Nota de Rodapé

Publicado em Uncategorized por Tomás Chiaverini em abril 19, 2012

Pelas Axilas de Ícaro!

Não é de hoje que o povo da publicidade exagera. É o trabalho deles, afinal. Criam um mundo de fantasia onde o produto em questão, seja ele um carro esporte ou um adesivo para dentaduras, nos tornará mais felizes.

Às vezes a gente até finge que acredita. Até espera que, quando o garçom chegar com a cerveja, o bar será imediatamente tomado por gostosas decotadas, piscando os cílios compridos e mandando beijinhos. Mas, no fim, a gente sabe que vai acabar cercado pelos mesmos amigos barbados e barrigudos de sempre. Até aí tudo bem, há que se ter alguma fantasia na vida, ainda que apenas nos trinta segundos do comercial de cerveja.

Mas tudo tem limite.

E outro dia, enquanto escovava os dentes no meu pequeno e reconfortante banheiro, fui atingido por uma epifania. O limite há muito havia sido rompido.

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Crônica do mês, no Nota de Rodapé

Publicado em Crônica por Tomás Chiaverini em março 22, 2012

Aula de humildade com o professor Aziz Ab’Saber

Há cerca de dez anos o anfiteatro da faculdade de geografia da USP estava lotado de jovens barbudos e cabeludos, garotas de saia indiana e sandálias de couro, pós-adolescentes ainda brigando pra se livrar das espinhas no rosto. Centenas de estudantes de várias turmas que se juntavam para ouvir o geógrafo Aziz Ab’Saber.

Tratava-se de uma aula especial. Não propriamente pelo conteúdo, mas porque Aziz era uma lenda do departamento, tido por muitos como o maior geógrafo brasileiro em atividade, um dos maiores do mundo. Além disso, estava aposentado e não lecionava mais para graduação.

Quando ele entrou, pouco depois das sete da noite, todos os lugares estavam ocupados. Havia estudantes em pé, outros sentados nos degraus, entre a plateia. Na época, Aziz já aparentava uma saúde frágil. Sofria com problemas de visão e andava devagar, encurvado pelo peso das quase oito décadas enfileiradas.

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O alter ego feminino de Chiaverini, na revista Piauí 65

Publicado em Jornalismo, literatura, Piauí por Tomás Chiaverini em fevereiro 14, 2012

O segredo de Paulinha

Como uma garota do outro mundo fez mil amigos em dois meses

por Tomás Chiaverini

Paula Merkell é moderna, descolada e sutilmente misteriosa. Formada em moda, está no auge dos 28 anos e é muito popular. Em seu perfil do Facebook, solicitações de amizade pululam como flashes num show do Restart. Em dois meses foram cerca de 100, acompanhadas por flores virtuais, poemas e saudações enviados por amigos pixelizados de todo o país. Para os mais próximos, a notícia a seguir será um tanto dolorosa: sim, Paula Merkell não existe.

A musa não passa de uma marionete eletrônica de breve existência. Diferentemente de outros perfis falsos que se multiplicam pela rede, o de Paulinha não pretendia promover marcas, xeretar a vida alheia, buscar alvos para crimes ou colher dados para campanhas promocionais. Foi criado com o propósito único de amealhar mil amigos, meta que cumpriu em 56 dias.

Aos marmanjos que insistiram para a jovem postar fotos pessoais, causará mais aflição saber que a pessoa no comando de Paulinha é homem. Mas que não se martirizem. O avatar da jovem foi criado para figurar como um pires de mel ofertado aos súditos de Mark Zuckerberg. As pequenas armadilhas começaram já na escolha do nome. Brasileiro, simples e despojado, secundado por um sobrenome forte, emprestado da chanceler alemã Angela Merkel, com um “L” a mais no final, para minimizar o risco dos homônimos.

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Crônica de estreia no Nota de Rodapé

Publicado em Crônica por Tomás Chiaverini em fevereiro 8, 2012

Ressaca, Michel Teló e Times New Roman

Pretendia escrever sobre um filme. Comecei até. Ia ser um texto legal, descolado, com tiradas de humor.

No final ia ter uma co-relação com o título da coluna que, como a Helena me disse com a sinceridade anabolizada por meia garrafa de vinho, não é dos melhores.

Mas eu ia escrever porque é o que gosto de fazer, porque a ideia parecia boa, porque me comprometi com um amigo. Comecei a escrever, até. Mas estava ficando uma merda.

Não uma completa merda, mas uma merda razoável. Talvez vocês lessem e achassem bacana, se divertissem, curtissem ou até, honraria maior das redes sociais, compartilhassem no mural do Facebook. Mas o fato é que estariam lendo apenas uma merda razoável.

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As surreais lições de Zé do Caixão, na Piauí 61

Publicado em Jornalismo, Piauí por Tomás Chiaverini em outubro 17, 2011

O doce mais doce que o doce

As lições gasosas de Zé do Caixão para aprendizes de detetive

por Tomás Chiaverini

Apertados em carteiras de fórmica bege, os 38 aspirantes a detetive particular silenciaram assim que Zé do Caixão adentrou a sala de aula. Passava um pouco das 10 horas de um sábado. O sol entrava pelos janelões e diminuía a aura macabra do cineasta, levemente encurvado aos 75 anos. As unhas longuíssimas, encardidas e retorcidas – seu traço distintivo mais marcante – haviam sido cortadas duas semanas antes. Ele tampouco trajava a característica capa preta sobre a camisa. Mas isso não impediu que, ao lado do quadro-negro, José Mojica Marins atraísse total atenção dos alunos do Instituto Universal dos Detetives Particulares, no Centro de São Paulo.

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Loyola, Verissimo e Zuenir, na revista piauí 60

Publicado em Jornalismo, literatura, Piauí por Tomás Chiaverini em setembro 19, 2011

Os feirantes

No novo cenário das letras nacionais, Loyola Brandão, Verissimo e Zuenir Ventura dão autógrafos, apertam mãos, sorriem e tiram fotos

por Tomás Chiaverini

gnácio de Loyola Brandão subiu nas asas da fama aos 8 anos de idade, quando matou os sete anões e libertou Branca de Neve da escravidão doméstica. O crime ocorreu num exercício de redação no qual a criançada imaginava finais alternativos para as histórias que lia. No de Loyola, a heroínaliquidou os baixotes com uma sopa de cogumelos venenosos e viveu feliz para sempre.

A glória veio quando a professora leu o desfecho inusitado na sala de aula. Bastou Dunga, Zangado e companhia caírem mortos para que, com uma gargalhada em uníssono, todos voltassem os olhos de admiração para a última fileira, onde o introvertido autor costumava se sentar.

“Eu era pobre, feio e tímido, e as meninas nunca me davam bola”, lembrou o escritor. “Mas naquele momento me senti olhado e, inconscientemente, decidi que a literatura seria o meu caminho. Foi também meu primeiro momento de celebridade, quando a classe saiu no recreio espalhando: ‘O Ignácio matou os anões! O Ignácio matou os anões!’”

Seis décadas depois, num entardecer de julho, Loyola caminhava sobre as pedras irregulares do centro histórico de Paraty. Em meia hora, subiria ao palco da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), o festival de Cannes da literatura brasileira. Aos 74 anos, quase cinquenta como escritor, garantiu que estava tão nervoso quanto naquela manhã em Araraquara, quando a professora leu sua redação em voz alta para os colegas. “Eu sempre fico tenso antes de me apresentar”, gesticulou com os óculos na mão. “E se não fico, sai uma merda.”

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Conheça a rede de TV árabe Al Jazeera, na edição 49 de Retrato do Brasil

Publicado em Jornalismo por Tomás Chiaverini em agosto 16, 2011

 As Batalhas da Al Jazeera

A emissora árabe, que ficou famosa após divulgar vídeos de Osama bin Laden, foi bombardeada pelos EUA, teve um cinegrafista preso em Guantánamo por sete anos, desempenhou papel determinante nas recentes revoltas do Oriente Médio e recebeu elogios de Hillary Clinton

por Tomás Chiaverini

NO INÍCIO DE  2003, a Guerra do Iraque monopolizava o noticiário internacional. Sob o argumento de que o ditador Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa, o governo de George W. Bush iniciara uma pesada ofensiva contra o país árabe. A operação avançou rapidamente e 20 dias após o início do conflito tropas norteamericanas cobriam a cidade de Bagdá com uma intensa chuva de mísseis.

No escritório da rede de TV Al Jazeera na capital iraquiana, ouvia-se uma interminável sequência de explosões e disparos, como se a guerra fosse invadir o local a qualquer momento. Enquanto parte da equipe da emissora queria subir ao telhado do prédio para registrar a troca de tiros, o produtor sênior Samir Khader continha os ânimos, pedindo que esperassem o combate se afastar. Durante algum tempo, técnicos, produtores e repórteres apenas ouviram os estrondos e estampidos. Quando o conflito pareceu arrefecer, Khader ordenou que o correspondente Tarek Ayub e um operador de câmera subissem à cobertura.

Minutos mais tarde a transmissão teve início, mas tudo que se via na sala de edição era a imagem do correspondente sentado no chão, com as costas apoiadas contra uma barricada de sacos de areia. Usava um pesado capacete de combate e um colete à prova de balas azul-escuro, que lhe cobria o tronco até o pescoço. Trazia no rosto uma expressão tensa, mistura de medo, incompreensão e ansiedade.

Da sala de controle, o editor ordenou ao cinegrafista que deixasse de filmar o repórter, voltasse as lentes para a rua e procurasse mostrar cenas do bombardeio que destruía a cidade. O técnico obedeceu e passou a procurar imagens aleatoriamente.

Enquanto isso, outro corresponde da Al Jazeera na cidade, ao telefone com um editor, avisou que um caça norte-americano se aproximava da emissora com o nariz baixo, numa manobra característica de ataque. O cinegrafista que estava com este segundo correspondente acompanhou o voo rasante da aeronave e registrou o momento em que três pequenos pontos incandescentes se desprenderam do caça. Três mísseis lançados simultaneamente. Um deles atingiu em cheio o telhado do escritório da Al Jazeera, matando na hora o correspondente Tarek Ayub e ferindo o operador de câmera.

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Confira o site da Retrato 

Campeonato de cubo mágico, na polêmica Piauí 59

Publicado em Jornalismo, Piauí por Tomás Chiaverini em agosto 15, 2011

Cada um no seu quadrado

É de Uberlândia o recordista sul-americano de montagem de cubo mágico

por Tomás Chiaverini

ara os pobres de espírito, o cubo mágico é um brinquedo dos mais irritantes. Tentativas obstinadas para deixar cada um de seus seis lados com quadradinhos da mesma cor não costumam render mais do que horas perdidas e frustração. A maioria desiste e larga numa gaveta qualquer o quebra-cabeça endiabrado. Os mais arrebatados destroem o cubo a marretadas ou arremessam-no contra a parede, num compreensível acesso de ira.

Mas, assim como existem aqueles que conseguem assoviar, estalar os dedos, mexer as orelhas ou dobrar a língua, há também uma elite privilegiada capaz de resolver o quebra-cabeça com certa facilidade. Pior: há cidadãos que desembaralham o tinhoso com uma rapidez de dar raiva aos reles mortais. O australiano Feliks Zemdegs, o mais ligeiro do mundo na solução do cubo mágico, ajeitou certa vez os seis lados em espantosos 5,66 segundos – pouco mais de metade do tempo que o jamaicano Usain Bolt levou para bater o recorde dos 100 metros rasos. Zemdegs tem 15 anos.

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Avesso, no jornal A Gazeta

Publicado em Avesso por Tomás Chiaverini em junho 20, 2011

Escritor se equilibra entre ficção e realidade

 Com dois livros-reportagem no currículo, Tomás Chiaverini faz sua estreia na ficção

Tiago Zanoli
tzanoli@redegazeta.com.br

Basta uma olhadela pela história de Tomás Chiaverini para perceber que ele é movido pela necessidade de estar em constante movimento, de descobrir novos lugares e diferentes personagens. Há sete anos, por exemplo, ele mal concluíra o curso de Jornalismo, quando decidiu aventurar-se pelo Norte do país à procura de histórias que lhe rendessem boas reportagens.

Passou cinco meses entre Amazonas, Pará e Roraima e, de lá, escreveu como freelancer para as revistas “Carta Capital” e “Caros Amigos” e a Agência de Notícias Brasil-Árabe.

O melhor fruto dessa experiência, no entanto, chega bem mais tarde, com a publicação do romance “Avesso”, lançado recentemente pela editora Global. Na obra, Chiaverini joga o tempo inteiro com ambiguidades, se equilibrando no tênue limite entre ficção e realidade, entre jornalismo e literatura, ao narrar (em primeira pessoa) a viagem de um jovem jornalista recém-formado pela região amazônica.

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O trabalho dos flanelinhas, na revista Retrato do Brasil

Publicado em Jornalismo, Retrato do Brasil por Tomás Chiaverini em junho 17, 2011

Se Essa Rua Fosse Minha

À margem da lei, os flanelinhas atuam nas grandes cidades sob o olhar desconfiado dos motoristas e sem o respaldo do poder público

Por Tomás Chiaverini

É noite no bairro boêmio da Vila Madalena,em São Paulo. Um“x” de fita reflexiva laranja sobre a camiseta pólo veste Alemão, 21 anos, que se posta ao lado de uma vaga vazia e espera. Quando percebe algum motorista à procura de vaga, assobia e depois gesticula, ajudando na baliza. Assim que o motorista sai, informa que zelará pelo automóvel até às 2h. Mais tarde, quando o “cliente” volta, corre até perto do carro e espera pelos trocados que lhe garantem o sustento.

À primeira vista, o trabalho de Alemão parece bastante simples. Tão simples que, muitas vezes, nem sequer é visto como uma profissão. Foi esse argumento, por exemplo, que fez com que a prefeitura de Porto Alegre (RS) interrompesse, no início de 2010, um projeto de regulamentação da função de guardadores de carro, iniciado em 2009.

A baixa adesão dos flanelinhas – apenas 70 se cadastraram – foi um dos motivos para a interrupção do projeto. Mas o fator determinante, de acordo com o governo municipal, foi o fato de que os guardadores não colaboram para o aumento da segurança e não há demanda real pelo trabalho que oferecem. Para a Prefeitura de Porto Alegre, portanto, não faz sentido legalizar e fiscalizar um serviço que não deveria existir.

Essa aparente simplicidade esconde, contudo, um sistema complexo e intrincado de um fenômeno presente na maioria das metrópoles do país. Grande parte dos flanelinhas atua sempre na mesma área. Ao longo do tempo, eles descobrem os hábitos dos moradores e do comércio local, tornam-se conhecidos e ganham confiança. Apoiam e recebem apoio dos demais trabalhadores. Inserem-se no ecossistema urbano e frequentemente acabam dominando regiões inteiras da cidade.

Alemão, por exemplo, é praticamente dono da quadra onde trabalha, na rua Mourato Coelho, entre a Inácio Pereira da Rocha e a Aspicuelta,em São Paulo. Seudomínio sobre aquela área específica foi construído ao longo de onze anos. Hoje, ele sabe de cor a rotina de cada morador e conhece bem todos os outros guardadores de carro da região, o que lhe permite atuar com calma e segurança. Numa sexta-feira de fevereiro, a Retrato do Brasil acompanhou o flanelinha durante as cerca de 8 horas que sua noite de trabalho durou.

A jornada começou pouco depois das seis da tarde. Antes disso, ele havia levado cerca de 50 minutos para viajar de ônibus do Taboão da Serra (região metropolitana de São Paulo) a Pinheiros. Veio acompanhado da mãe, Simone, 34 anos, e de dois irmãos – H., de nove anos, e T., um bebê de um ano e meio. Simone faz questão de acompanhar o trabalho do filho mais velho.

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O crack e o trabalho de redução de dano, na revista Retrato do Brasil

Publicado em Jornalismo, Retrato do Brasil por Tomás Chiaverini em junho 15, 2011

Dos Males o Menor

Por Tomás Chiaverini

Pedestres, Policiais militares e guardas-civis não reparam no garoto de uns oito ou dez anos que fuma crack na esquina da rua dos Gusmões com a avenida Rio Branco, no centro de São Paulo. Mesmo assim, ele está sempre atento, pronto para se esconder ou fugir, escapulindo para algum cortiço ocupado da região. Tanto que, quando o redutor de danos Marco Fuentealva se aproxima para conversar, ele se protege feito um avestruz, cobrindo a cabeça com um moletom azul-encardido.

Sorridente e bonachão, Fuentealva não se aflige com a postura arredia do menino e segue adiante. Vestindo a camiseta amarela do Centro de Convivência É de Lei (uma das primeiras ONGs a fazerem redução de danos no Brasil), embrenha-se num grupo com duas dezenas de pessoas maltrapilhas e sujas, cobertas de feridas nos rostos, braços e mãos. Quase todos estão agarrados a pequenos cachimbos de metal e observam o entorno com um olhar de desespero e incompreensão.

Aos poucos vão percebendo a presença de Fuentealva e de sua parceira de trabalho e se aproximam formando um pequeno aglomerado. Não há muito espaço para conversa. Todos já conhecem a rotina, repetida duas a três vezes por semana: avançam, pegam uma piteira de silicone, um batom protetor labial à base de calêndula e logo voltam a se afastar, acomodando-se pelos cantos da calçada suja.

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Na revista piauí deste mês

Publicado em Jornalismo, Piauí por Tomás Chiaverini em junho 13, 2011

As aves que aqui não gorjeiam

Um ornitólogo holandês busca algo que cante em São Paulo

por Tomás Chiaverini

O sábado amanheceu nublado como num conto de Edgar Alan Poe. No Parque Villa-Lobos, às margens da Marginal Pinheiros, apenas dois ou três valentes paulistanos desafiavam o frio e trotavam, orgulhosos, com o peito estufado de saúde. Às sete da manhã, o silêncio só é cortado pelo ronco distante dos aviões, que a cada dez ou quinze minutos cruzam o céu a caminho do Aeroporto de Congonhas.

Como nenhum pássaro se dá ao trabalho de cantar em homenagem ao dia cinzento, o desânimo abate o grupo de aficionados por aves que perambula pelo parque. Metidos em calças cáqui e botas de trilha, os catorze caminham devagar, em silêncio, olhos e ouvidos atentos. Alguns levam pequenos binóculos pendurados no pescoço, outros carregam gravadores de última linha, como os usados nos filmes de espionagem.

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Atendendo a pedidos, a primeira página de Avesso, pra degustação…

Publicado em Avesso, literatura por Tomás Chiaverini em março 18, 2011

Alto Solimões

Um vento quente entra pelas frestas da parede de madeira. A lâmpada amarelada balança e me resgata de um sono agitado. Ouço o rio que corre alguns metros abaixo, escuro e sorrateiro, deslizando em toda a sua magnitude. Sento na cama e vejo que ela ainda dorme tranquila, deitada no chão de tábuas da palafita.

Horas antes, eu a agarrava pelos cabelos pretos enquanto ela esfregava o corpo ondulante e suado sobre mim, enquanto ela se contorcia e respirava como se o ar úmido do Amazonas não fosse suficiente para saciá-la, como se queimasse por dentro e precisasse de mais oxigênio, de cada vez mais oxigênio para aumentar o calor da caldeira que se instalara em suas entranhas, para alimentar a combustão que eu lhe causava, para lubrificar seu calor que me apertava e no qual eu mergulhava com raiva e sem escolha. Eu a agarrava pelos cabelos pretos, a odiava e me afundava dentro dela só para me esquecer. Eu estava pagando, mas ela que gostava. Gemia e respirava aquele ar oco de quente, e eu a puxava mais, para perto e para longe, mas ela não percebia, respirava e ondulava violentamente derrubando gotas ferventes de suor dentro dos meus olhos.

Não imaginava que ela fosse tão leve nem que eu pudesse lançá-la ao chão com tanta força. Na parede. Na verdade ela bateu na parede de madeira antes, e toda a palafita balançou. Ela bateu nas tábuas de azul descascado e depois escorregou para o chão. Caiu nua e suada, escorregadia, com os cabelos lisos de índia cobrindo o rosto; mas não o suficiente para esconder seus olhos pretos, seus olhos negros que me encaravam com dúvida, com um resquício de prazer arrependido e com medo.

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Um brasileiro no 17º concurso paulista de karaokê – piauí 54

Publicado em Uncategorized por Tomás Chiaverini em março 15, 2011

Ovelha negra

As agruras de um brasileiro em um concurso nipônico de karaokê

Por Tomás Chiaverini

Avantajados ventiladores giravam sem descanso, mas não deram conta de refrescar a atmosfera saariana do auditório. Centenas de espectadores, em sua maioria senhores de olhos puxados, suavam e se abanavam inutilmente com leques de papel. No palco, os finalistas do 17o Paulistão de Karaokê, que aconteceu em Sorocaba. A situação deles era ainda pior: ao contrário da plateia, não podiam desfrutar do conforto dos bermudões, camisetas sem manga e chinelos.

Luxo e glamour eram pré-requisitos. Mulheres exibiam vestidos longos ou impecáveis trajes de gueixa. Homens envergavam ternos, fraques, casacas, ou se embrulhavam em quimonos ricamente bordados. Flores artificiais, babados e paetês adornavam os cantadores de ambos os sexos. Havia especial predileção por lantejoulas furta-cor. A fim de explorar ao máximo esse brilho todo, luzes coloridas se movimentavam no proscênio e tornavam a temperatura ainda mais escaldante.

Nada disso abalou a calma dos candidatos, quase todos japoneses ou descendentes – segundo estimativas extraoficiais, cerca de 95% dos 604 participantes veem o mundo através de olhos puxados. Um a um eles subiram ao palco, fizeram uma rápida mesura de agradecimento e, com ritmo e afinação impecáveis, entoaram canções populares japonesas. Nada de Roberto, Wandeca ou Bruno & Marrone. A legenda que passa ditando o ritmo também é coisa para amadores. No 17o Paulistão, as canções foram interpretadas de cor, em japonês. Era escassa a presença de não descendentes.

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Conheça o dono da voz brasileira de Al Pacino, na piauí 54

Publicado em Jornalismo, Piauí por Tomás Chiaverini em março 14, 2011

The Voices

Peripécias do avatar vocal de Tom Cruise, Al Pacino e Richard Gere

Por Tomás Chiaverini

Pressionado de todo lado, o chefe dos detetives deu um anel direto para o coronel, na expectativa de que este lhe adiantasse o que fosse sobre os dois cadáveres recém-desovados no tristemente famoso Vale do Silicone. Teve sorte:

– Sim, já sabemos o principal – informou-lhe o coronel, com a satisfação de quem vive de matar charadas. – Ambos morreram de encontros ruins.

– Tem certeza? É a mesma causa mortis do macaquinho do Indiana Jones!

A vida em versão brasileira não é cor-de-rosa, como bem sabe o ator carioca Ricardo Schnetzer –, e não só pelo risco permanente de ser humilhado pela tradução. Aos 57 anos, e depois de três décadas de atuação em superproduções do cinema mundial, ele mora num quarto e sala no Rio de Janeiro, costuma ter alguma dor de cabeça para pagar as contas do mês e, quando caminha pelas ruas, não precisa se preocupar com o assédio dos fãs, vítima que é do mais perfeito anonimato. Para o distinto público, ele não é um nome e, menos ainda, um rosto. Por outro lado, quando abre a boca… Dono de um timbre grave, modulado por quarenta anos de tabagismo militante, Schnetzer fala por Al Pacino, Tom Cruise, Richard Gere e Nicolas Cage, entre outros mais ou menos famosos que, em versão brasileira, encontraram nele o seu grande porta-voz.

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Avesso em mãos!

Publicado em Amazônia, Avesso por Tomás Chiaverini em fevereiro 24, 2011

Pois então, caros leitores, eis que a grande espera chega ao fim. Avesso saiu do forno e tem data de lançamento marcada: 26 de março, sábado, das 15h às 18h. Vai ser novamente na Livraria da Vila da Fradique Coutinho, em Pinheiros, SP.

Aos afobados a boa notícia é que o livro já está à venda em algumas livrarias.

Parral na Piauí

Publicado em Jornalismo, Piauí por Tomás Chiaverini em outubro 13, 2010

Ágil e destemido, qual um cangaceiro que avança pela caatinga, Yumbad Baguun Parral esgueira-se por entre as mesas e cadeiras dos bares da Lapa, em São Paulo. Dotado da estatura de 1,66 metro, lança mão de um paradoxal chapéu de couro cor-de-rosa e de uma barbicha de trancinha grisalha meticulosamente composta para atrair a atenção da boemia. Já de início a tarefa soa inglória, pois ele atua sobretudo nas calçadas e, nessa sexta-feira glacial de setembro, boa parte de suas presas virtuais parece ter capitulado ao conforto de dvds e cobertores. Por volta das 22 horas, a maioria das mesas ao ar livre está às moscas.

Mas Yumbad Baguun Parral, pseudônimo de Miguel Cavalcante Felix, não se aflige. Aos 47 anos, com segurança e paciência esculpidas ao longo de uma década na função, esse alagoano arretado ergue a cabeça e leva em frente o seu sorriso constante e simpático. Com um andar calmo e alinhado, arrematado pelo blazer escuro sobre o pulôver amarelo, vai oferecendo dois de seus produtos literários mais atraentes: o romance Santa Puta, a Redentora, que, segundo ele, já vendeu cerca de 10 mil exemplares, e a recém-lançada sátira política Senadô Severino, Sua Excrescência.

Nas primeiras abordagens, o escritor é miseravelmente ignorado. Quando não, recebe caretas de desdém que abalariam os brios de Dom Quixote e arrefeceriam os juízos de Policarpo Quaresma. Não os de Parral, que segue de bar em bar, de mesa em mesa, de vítima em vítima.

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Ao vivo

Publicado em Reprise por Tomás Chiaverini em outubro 7, 2010

Atendendo a pedidos, republico um texto escrito logo após o lançamento do livro Festa Infinta, que narra a experiência de ser entrevistado pela MTV. O vídeo pode ser conferido aqui, mas o áudio está um pouco baixo. É preciso aumentar bem o volume pra ouvir. O volume do texto parece bom.

A rua Afonso Bovero começa numa curva. É difícil fazer baliza em ruas curvas. Me atrapalho, raspo a roda no meio-fio. Modéstia à parte, não costumo fazer esse tipo de barbeiragem. Mas estou um pouco tenso. Ansioso, certamente. E não consigo que meu cérebro se ocupe com nada além de uma elucubração inútil sobre o que irão me perguntar e como responderei.

Desligo o motor. Viro o espelho retrovisor interno na minha direção e, feito uma madame que retoca a maquiagem antes de ir às compras, dou uma última conferida no meu rosto. Olhos, boca, nariz, orelhas, olheiras, está tudo lá. Tranco o carro e caminho devagar, pra não correr o risco de chegar ao estúdio com a camisa empapada de suor. O tempo não está muito quente, a rua é arborizada, então meu temor não se concretiza.

Na recepção, me identifico. Tentando dar a entender que aquela é uma situação rotineira para mim, digo o nome do produtor que a assessoria de imprensa me passou. Vou participar do “Controle”, exclamo errando o nome do programa. “Acesso”, a recepcionista responde paciente, enquanto me fotografa e estende o crachá de visitante. Pede que eu espere. Passa das 15h30, constato no celular. Meia hora pra entrar no ar. Obediente, sento e espero.

Moderninhos entram e saem o tempo todo. Tênis All-star, calças jeans largas demais em certas partes e justas demais em outras, camisetas apertadas ressaltando magreza, e cabelos meticulosamente despenteados.

Vez ou outra, algum rosto conhecido passa pela catraca. Estranho. Não sou um telespectador assíduo da MTV, então essas pessoas me são familiares, mas não figuram como realmente famosas. Num primeiro momento, soam mais como colegas da faculdade que não vejo faz tempo, do que como celebridades da televisão. Tenho de me controlar para não cumprimentá-los.

Às 15h48, levanto impaciente. Faltam doze minutos para entrar no ar e estou ali, plantado na sala de espera.  Mas estou calmo. Me sinto calmo. Seguro. Já dei entrevistas para a televisão antes, penso comigo mesmo pra me acalmar mais. Mas o cérebro responde num jab rápido: foi na TV Mackenzie, não na MTV. Depois encaixa um upper, certeiro no queixo: e não foi ao vivo.

Certo. Agora estou um pouco nervoso. Confiro novamente o celular. 15h52. Oito minutos para entrar no ar. Olho para a recepção. As duas mocinhas conversam despreocupadas, sem dar bola pra minha angústia.

Às 15h55, cinco minutos antes do programa começar, a recepcionista me chama. Pede que eu passe a catraca, tome o elevador, e vá até o quinto andar.

Plin!

Quinto andar, o elevador desemboca numa espécie de redação: várias bancadas com computadores, separados por divisórias baixas. O produtor logo me vê e vem me cumprimentar. É um moleque, mais novo do que eu. Veste bermuda, camiseta e um enorme boné branco, meio de lado. Pede que eu o siga. Desce escadas. No caminho, pára, volta-se para mim, e diz que esqueceu de me avisar, mas que no fim da entrevista terei de pedir um clipe.

Branco.

Não sou grande fã de videoclipes. Não consigo pensar em nada a não ser nas eventuais perguntas sobre o “Festa Infinita” e nas possibilidades de resposta. Ele sugere alguns, todos de música eletrônica. Não acho boas as sugestões. A essas alturas, quero dissociar o livro da música eletrônica, mostrar que ele vai além de retratar o mundo raver. Tento lembrar de algum clipe.

Lembro.

Keith Richards, balões coloridos, um cara sobe correndo no palco, Keith para de tocar, tira a guitarra do pescoço e, como um rebatedor de beisebol, acerta em cheio o infeliz que ainda leva uns sopapos dos seguranças, antes de ser devolvido para a platéia. “Satisfaction”, lembro a música e informo o produtor da minha escolha.

Ufa.

Ele parece meio decepcionado porque não pedi nada de música eletrônica, que teria a ver com o assunto do livro. Abre uma pesada porta de metal. Continuo atrás dele. Uma sala pequena, escura, forrada de botões e monitores, com alguns técnicos sentados atentos às telas.

No monitor que parece receber mais atenção de todos, reconheço o cenário do programa em que eu deveria estar. O apresentador Leo Madeira e duas garotas que não conheço, falam sobre o disco “Cê”, do Caetano Veloso. “Você vai entrar no segundo bloco”, exclama o produtor. Pessoas entram e saem da sala carregando grandes e antiquadas caixas plásticas de vídeo-tapes. Tento não atrapalhar.

O produtor sai da sala. Uma garota entra com uma pilha de fitas em formato beta, desvia de mim como se na verdade houvesse me transpassado. Ninguém parece notar que há um desconhecido na sala. O produtor volta. Pede que eu o siga. Descemos mais escadas. Ou subimos.

Ele abre outra porta pesada, eu continuo atrás dele, e de repente, diante de mim, está o cenário que eu havia visto algumas vezes na televisão. Mas não estou nele. Estou sobre um carpete preto vagabundo que cobre a faixa estreita do chão atrás das câmeras. É uma faixa bem estreita mesmo. Isso me surpreende. Quando assisto a um programa gravado em estúdio, tenho a impressão de que o espaço atrás das câmeras é bem amplo. Mas aquele é pequeno, apertado, meio claustrofóbico até.

O produtor me deixa ali e sai por onde entrou.

Ao meu lado há uma mesa pequena com uma jarra d’água e o um exemplar do meu livro. Incrível como ele se espalha, penso comigo mesmo. Oferecem-me água. Não aceito, apesar da boca um pouco seca. Assisto ao programa. Leo Madeira e as duas meninas – uma em embalagem de boneca, outra milimetricamente desleixada ­– entrevistam MV Bill por telefone. O repper não fala coisa com coisa, e pra piorar o áudio de retorno está tão ruim que metade das frases desencontradas se perde em meio ao chiado.

Mas Leo é um apresentador experiente, faz algumas perguntas simples e logo encerra a entrevista com uma colocação genericamente simpática.

Passo a mão na testa pra ver se não estou suando muito. Um pozinho viria a calhar. Mas pelo jeito não vai ter nada dessas frescuras. Lembro das outras vezes que apareci na TV. Uma em um exercício durante a faculdade de jornalismo, outra em uma entrevista sobre o “Cama de Cimento” (nenhuma ao vivo). O pó pra tirar o brilho sempre fizera parte do ritual. O pó e o microfone de lapela.

“Microfone”, falo pra um sujeito que está ao meu lado. “Eu não deveria ter um microfone?”. Ele me olha com cara de “quem é você”, depois aponta para outro sujeito, o responsável pelos microfones. Pelo menos fiz a minha parte, penso comigo mesmo. E eles devem saber o que estão fazendo.

Entra um videoclipe, Leo sai da frente das câmeras, vai até a mesa, enche um copo d’água e pára ao meu lado. É sempre engraçado encontrar pessoalmente essa gente da TV. Eu conheço ele, mas ele não me conhece. Gosto de um programa que ele apresenta com a Marina Person.  Se bem que, neste caso, ele deveria me conhecer. Afinal vai me entrevistar em alguns instantes.

O microfone. O responsável vem com ele na minha direção e Leo percebe quem eu sou. Volta-se para falar comigo, dá os parabéns pelo livro, bebe mais um pouco de água e volta para finalizar o bloco. É bastante simpático. Simples como sua imagem na TV da a entender. Microfone instalado.

Comerciais.

Leo me chama. Entro no espaço delimitado pelo chão diferenciado, e sinto que meus sapatos, com a sujeira da rua e toda aquela vida real grudada nas solas, poderia contaminar aquele ambiente televisivo.

As meninas me cumprimentam. Estou calmo. Levam-me até o fundo do estúdio e me convidam para sentar. Não há lugar para sentar, concluo, ainda calmo. Uma das garotas se senta. Incrível, há um lugar para sentar. Um balcão, que se torna invisível na parede de listras coloridas. Eu me sento entre os três. O câmera pede que fiquemos mais próximos. Obedeço, pernas cruzadas. Estou calmo. Botão da camisa aberto, informal, MTV, mas sem excessos, ninguém precisa ver os pelos do peito do autor, do autor que está calmo como se tivesse nascido para a televisão. É ao vivo, mas estou calmo.

Leo segura o meu livro. Folheia. O câmera gira à nossa volta como uma mosca varejeira. Continuo calmo, calmo… Homem-maracujina, tranqüilo, relax como funcionário público em repartição do interior.

Jogamos conversa fora. As meninas me olham com uma expressão que eu diria ser de uma curiosidade que beira a incompreensão. Não parece haver hierarquia oficial entre os apresentadores do programa, mas fica claro que Leo é quem está à frente. Ele me pergunta sobre o livro. Respondo. Depois ele me olha por algum tempo, e toma emprestada aquela expressão das suas colegas. “Você é moleque né?”.

Fico na dúvida sobre a pergunta e ele repete: “Você é bem moleque né, quantos anos você tem?”. Respondo com meus 28 e Leo parece impressionado. “A minha idade”, pondera ele, tirando o sentindo da sua aparente surpresa. Pois é, sorrio, calmo, sereno. Afinal, estou conversando com um moleque da mesma idade. Somos só dois molequeles levando um blá, trocando um proceder descontraído. Na moral.

Continuando na sua posição de liderança, Leo volta-se para mim e lança uma pergunta sobre o por quê de eu ter escolhido escrever sobre raves. A calma permanece. Já respondi isso uma centena de vezes, e não está valendo ainda. Respondo bem, sem gaguejar. Ele emenda outra pergunta. Eu olho para o lado, e lá está o câmera, indiscretamente agachado à minha frente, com aquela bazuca apontada direto pra minha cabeça. Calmo. Continuo calmo. Mas… Estamos no ar?

Ele está me perguntando, está me entrevistando, a entrevista começou, estamos no ar, esse cara agachado aí na minha frente está levando minha imagem para milhares de lares, milhões talvez, e agora estou fazendo cara de bobo, cara de bobo para milhares de lares, a pergunta, qual era a pergunta, a resposta, a resposta já se foi, uma gaguejada e encerramos o assunto, pronto pode mandar a outra que essa foi assim mesmo, do jeito que deu e…

“Trinta minutos para entrar no ar”, exclama uma voz do além.

Ufa. Não valeu. Não estávamos no ar.

E agora, estamos no ar. Agora sim. O botão da camisa, o suor da testa, certo, vamos lá. Leo pega o livro, fala sobre ele, mostra para a câmera e manda a primeira pergunta, uma que ele já tinha feito no aquecimento. Estou um pouco afobado. Normal, um pouco de adrenalina, mas ela sai bem, a resposta, sai satisfatória e tudo bem. Estou aqui, estou na televisão, ao vivo, e continuo vivo, continuo respirando. Tenho vontade de levar a mão ao pescoço e disfarçadamente conferir o andamento de meus batimentos cardíacos, mas me controlo. Não sou hipocondríaco.

As perguntas se seguem. Previsíveis. Já dei várias entrevistas sobre o “Festa Infinita”. Nenhuma na televisão, mas as perguntas variam pouco. Então, subitamente, estou calmo novamente. Calmo. Respondo sem gaguejar quase nada, articulando bem as idéias, e de repente Leo pega o livro novamente, levanta em direção à câmera, pede que eu fale o clipe escolhido e me agradece pela presença. Acabou.

Nossa foi rápido.

Na saída, tropeço no carpete preto vagabundo. Certo, estou um pouco nervoso. O produtor aparece para se despedir de mim, aperto a mão do Leo, beijo o rosto maquiado das meninas, e tomo o elevador. Saio na rua com os pulmões carentes.

Caminho até meu velho Corsinha, entro, dou a partida. Faz sol, a temperatura está agradável, e o trânsito até que flui bem.

Fim

Publicado em Uncategorized por Tomás Chiaverini em outubro 5, 2010

Pois então, como os argutos leitores deste espaço já terão notado, a viagem acabou, assim como a série de relatos sobre ela. Mais uma vez, este blogue terá de se adaptar a uma nova realidade, mutando-se feito político em campanha. Aguardem.

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