Antes da Estante

Fechado para balanço

Publicado em Uncategorized por Tomás Chiaverini em Julho 6, 2009

Novos posts a partir do dia 20.

Mijem na sopa!

Publicado em De Quinta por Tomás Chiaverini em Julho 2, 2009

O culto ao materialismo em nossa sociedade chegou a níveis tão altos que, vez ou outra, vemos surgir fatos aberrantes, coisas estranhas mesmo, coisas tão bizarras que não poderiam figurar nem mesmo em um filme de Fellini, ou em um livro de García Márquez. E nós olhamos essas aberrações do mundo contemporâneo, pensamos “nossa, que coisa”, e logo esquecemos, porque em pouco tempo virá outro aborto da natureza.

Mas vamos aos fatos.

Os restaurantes mais caros de São Paulo, onde uma refeição pode facilmente ultrapassar o valor do salário mínimo, se uniram, esta semana, para impedir que as gorjetas, os 10% de serviço, sejam destinados a seus garçons. Repito. Querem impedir que a gorjeta vá para seu destino natural, o bolso de quem realmente trabalha.

Pretendem contratar uma empresa de lobby, para tentar barrar o projeto de lei que obriga restaurantes a destinarem corretamente a taxa de serviço.

É isso mesmo. O engomado Fasano, com seus ternos sob medida, o moderninho e midiático Alex Atala, com suas tatuagens e piercings de mamilo, e o altivo Jun Sakamoto, com toda a sua filosofia oriental até a hora do almoço, estão preocupados porque ficarão podres de rico mais devagar.

O argumento, não só deles, mas de outros empresários endinharados, é o de sempre. Vai haver quebradeira no setor. Imagino. Imagino Alex Atala pobre. O que iria substituir sua cara sorridente na capa dos suplementos gastronômicos?

Mas, enfim, minha sugestão aos garçons: mijem na sopa, meus caros. Levantem o salmão e escarrem no sushi. Se o cliente reclamar, digam que o Vichyssoise leva uma gotinha de aceto balsâmico, que o nigiri é temperado com um tipo especial de raiz forte. Raríssima.

Ah, quantas variações podemos aventar… Cozinhem cuecas sujas no caldo de peixe. Batam o baby beef com o salto das botas. Lavem as endívias no vaso sanitário. Piquem fios de pentelho e misturem à canela do café expresso. Ejaculem no crème brûlée. E o petit gâteau?… bem, deixo à cargo de vossas imaginações. E dito isso, vou almoçar.

Vista do topo

Publicado em De segunda por Tomás Chiaverini em Junho 29, 2009

Eis que aconteceu!

Com apenas 28 anos, dois livros publicados, alcancei a hora de ser resenhado pelo supra-sumo da imprensa mundial, quiçá universal. Está certo que foi uma simples notinha. Algumas linhas apenas. Mas não há como negar a importância incomparável da publicação.

Sim, meus caros, fomos muito além de Folha, Estado, New York Times, The New Yorker, fomos muito além…

Não, nada se compara a isso. Nada se compara ao prazer de, após uma longa e estafante jornada, constatarmos que, finalmente, conquistamos um espaço nas célebres páginas da G Magazine!

Você compraria o livro de um amigo?

Publicado em De Quinta por Tomás Chiaverini em Junho 24, 2009

Vamos lá, caros leitores, respondam rápido: vocês comprariam e leriam o livro escrito por um amigo?

A resposta positiva parece ser a mais óbvia. Aposto que a maioria de vocês pensou nela como a primeira hipótese. Claro que comprariam! Mas, descontando os amigos realmente próximos, a realidade, meus caros, se mostra ligeiramente diversa. É comum haver certo receio em comprar e ler livros de conhecidos.

E antes que os amigos leitores se sintam mal, já me adianto. Isso não é uma crítica nem muito menos um lamento. Entendo completamente o receio, e a explicação para isso me parece simples.

Existem milhares de livros excelentes, já consagrados por crítica e público. Quem lê muito, em uma vida será incapaz de ler tudo de notoriamente relevante que o homem já produziu. Não há, portanto, tempo a ser desperdiçado.

Por outro lado, dentre todos os infindáveis títulos publicados constantemente, são raríssimos aqueles que tenham qualidade notável, que sejam realmente bons. A mediocridade impera também na literatura, não é segredo nenhum.

Então, como… errr… escritor, às vezes tento me colocar na posição de um amigo ou conhecido. Usando olhos alheios, me miro como errr…. escritor. Quais são as chances daquele cara que estudou comigo, que não tem lá muita pose de intelectual, e com quem eu tomo umas cervejas de vez em quando, ter escrito algo pelo que realmente valha a pena perder tempo? Estatisticamente, diria que são nulas.

Assim, deixo o conselho aos colegas de profissão. A hora de fisgar os amigos é no lançamento. Porque quem não comprar o livro naquele momento, dificilmente o fará em outra ocasião.

Cama de Cimento na Transamérica

Publicado em De segunda por Tomás Chiaverini em Junho 21, 2009

Pois então, caros leitores, o pessoal da Transamérica gostou do nosso papo sobre o Festa Infinita, que aconteceu há algumas semanas, e pediu que eu voltasse. É hoje (segunda-feira), ao vivo, das 13h às 14h. Dessa vez falarei sobretudo do “Cama de Cimento”. E pra completar a sessão nostalgia, coloco abaixo um trechinho do livro, que foi publicado, vejam só como o tempo passa, em setembro de 2007.

Para quem passa de carro e com pressa, Raimundo parece se vestir com alguns trapos encardidos, roupas velhas, doadas, como a maioria dos “mendigos” da cidade. Um olhar mais cuidadoso, contudo, revela que na verdade suas roupas não têm nada de comuns. São feitas por ele mesmo de sacos de estopa e parecem a reprodução reciclada de uma túnica ou outro tipo de veste cerimonial. Nas costas, ele usa um manto de retalhos de plástico preto costurados com barbante, como escamas, sobre um pedaço maior de lona. Os cabelos grisalhos e espetados são protegidos por um chapéu alto confeccionado a partir de sacos de lixo que um dia foram azuis.

Totalmente concentrado, sem prestar atenção aos automóveis, escrevendo sentado com as costas impecavelmente eretas, um palmo de barba branca roçando o peito, não resta dúvida de que Raimundo é um poeta incompreendido ou um soberano destronado.

A avenida Pedroso de Moraes raramente está congestionada e é bem capaz que muitos motoristas que passam em alta velocidade em suas bolhas de metal nem percebam a presença de Raimundo. À noite, o poeta se recolhe sob uma montanha de lonas pretas ou cor-de-laranja, e ninguém que não o conheça pode imaginar que no meio daquele embrulho tosco, que mais parece um amontoado de lixo, esteja dormindo um homem “condicionado”.

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Fim do diploma, ponto pro Supremo

Publicado em De Quinta por Tomás Chiaverini em Junho 18, 2009

Não é mais necessário ter diploma de jornalismo para trabalhar na imprensa. Foi isso que o Supremo Tribunal Federal (a mais alta corte do país) determinou ontem, pondo fim a uma situação discretamente hipócrita.

Hipócrita porque qualquer um que já atuou nos grandes meios de comunicação sabe que a maioria dos veículos não dava lá muita bola pra exigência de diploma.

E com razão, porque as maiores qualidades de um jornalista ­– tais como amplo conhecimento geral, ética e capacidade de comunicação – não são aprendidas em sala de aula. Os cursos de jornalismo, via de regra, fazem um apanhando geral de matérias desconexas e jogam tudo isso sobre o aluno sem muito critério.

Na faculdade, vejam só, tive um semestre de uma matéria que se chamava “História Geral”. Quatro horas por semana durante quarto meses. E o ilustre docente, um jornalista, pretendia realmente que seus alunos aprendessem toda a história da humanidade nesse período.

Oras, se no exercício da profissão, surgisse a necessidade de aplicar conhecimentos de história, quem se sairia melhor? Um historiador que sabe escrever, ou um jornalista, que é infinitamente mais ignorante no assunto?

Há, sim, algumas técnicas de apuração e redação próprias do jornalismo que são relativamente esclarecidas nas universidades. Nada, contudo, que seis meses de estágio, ou um curso técnico não pudessem resolver com mais eficiência.

Além disso, essa história de exigir curso superior é extremamente conveniente para certas universidades de fundo de quintal que vendem diplomas a prestação. Tramitam, no Congresso Nacional, dezenas de projetos de lei para regulamentação profissional.

Nem todos propõem a exigência de curso universitário, mas todos tornam necessária alguma formação. Há, inclusive, casos bizarros, como os que propõem a regulamentação das ocupações de apicultores, capoeiristas, cabeleireiros, entre outros. Quem quiser saber mais pode acessar essa matéria (apenas assinantes) que escrevi para a Folha de S.Paulo há algum tempo.

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O editor solta o verbo

Publicado em De segunda por Tomás Chiaverini em Junho 15, 2009

O editor A. P. Quartim de Moraes é um dos homens que fazem as coisas acontecer no mundo dos livros. Aparentemente sente-se à vontade ao dar murros em pontas de faca arriscando-se a publicar autores ilustremente desconhecidos, como este que vos escreve.

Quartim foi o único editor brasileiro a olhar com carinho os originais do “Cama de Cimento” e teve a manha de brigar pela publicação do livro de tema espinhoso. Depois, mostrando toda a juventude de seus 67 anos, defendeu e aprovou o projeto “Festa Infinita” diante do conselho editorial da Ediouro. Pra quem tiver curiosidade, parte dessa saga já foi contada aqui, aqui e aqui.

E as braçadas contra a corrente vão além de publicar títulos que não sejam best-sellers garantidos. Vez ou outra, o editor solta o verbo, como fez na revista Mundo Literário e, mais recentemente, no Estadão.

Nesse último artigo, publicado sábado passado, Quartim elabora uma teoria no mínimo interessante para ir contra a máxima de que o público brasileiro não se interessa por literatura nacional:

“(…) A experiência profissional me habituou a ouvir, de livreiros e até mesmo de editores, a explicação, bem simplesinha, de que o desempenho do mercado demonstra que o leitor de livros brasileiro não tem grande apreço por conteúdos ficcionais nacionais; não se interessa, enfim, por histórias brasileiras. E seria apenas por essa razão que, na comparação com a nacional, a ficção estrangeira predomina nas listas de livros mais vendidos e – causa ou efeito? – nos catálogos editoriais e nas livrarias.

Se a programação das emissoras de televisão brasileiras seguisse o mesmo “critério”, o chamado horário nobre estaria hoje tomado por séries do tipo Lost, 24 Hours, Sex and the City and so on. Não é o que ocorre. A teledramaturgia brasileira, fundada maciçamente em conteúdos brasileiros, é absolutamente hegemônica em audiência e conquistou um padrão de qualidade que se impôs no mercado internacional. É hoje talvez o maior produto de exportação brasileiro no campo da criação artística e cultural. O know-how por ela conquistado tem reflexos evidentes não só na criação de subprodutos de grande refinamento artístico – muitas das chamadas minisséries -, como até mesmo na recente produção cinematográfica nacional. Trata-se, é claro, de uma criação artística destinada ao consumo de massa, com tudo o que isso possa significar em termos de frustração da expectativa de maior sofisticação intelectual. Expectativa que, de resto, não chega a ser uma característica marcante do mercado livreiro. Mas o fato é que as novelas de televisão fazem sucesso em todos os estratos sociais. Até os leitores de bons livros as acompanham. Trata-se, inegavelmente, de um importante fenômeno cultural. E, claro, de um negócio extremamente lucrativo. (…)”

Boicote ao dia dos namorados

Publicado em De Quinta por Tomás Chiaverini em Junho 11, 2009

Boicote o dia dos namorados. Não vá àquele restaurante caro e metido que te atenderá mal como em nenhum outro dia do ano. Não passe horas rodando pelo estacionamento do shopping procurando uma vaga pra se muvucar na fila do cinema, ou pra comprar um presentinho que ela(e) não vai amar de paixão, apesar de dizer o contrário. E não, pelo amor de Deus, não, não e não. Não pense em pegar a rodovia Raposo Tavares e, não. Não gosto nem de cogitar a hipótese, mas é assim. Todo o dia dos namorados ocorre o mesmo fenômeno absurdo. Mas não. Não faça parte disso. Não entre no seu carro e não pegue a rodovia Raposo Tavares para fazer fila, isso mesmo, é isso que acontece, fila na porta do motel. Por favor, não. Se quiser comemorar, se quiser ir jantar fora, ir ao motel, ótimo. Mas escolha um outro dia. E vá com toda a calma do mundo. Aposto que será melhor.

Enfim, essa é minha opinião. Mas se você achar que não pode mesmo deixar este dia passar em branco, tudo bem. Aproveite o desconto do Submarino e dê um livro Festa Infinita para ele, ou para ela. É unissex.

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Narayhana, raves e rodeios

Publicado em De segunda por Tomás Chiaverini em Junho 8, 2009

Neste sábado atendi a uma estudante de jornalismo que, por conta do Festa Infinita, escolheu me entrevistar para um trabalho da faculdade. Aparentemente seguindo a escola dos bons repórteres, Narayhana, 19, fez questão de se encontrar comigo pessoalmente e se descambou de Itapevi para a Lapa. Ossos do ofício.

Eis que no final da entrevista a garota de nome complicado, uma raver convicta, me fez uma pergunta recorrente. “A imprensa não trata as raves de forma preconceituosa, tocando no assunto só quando algo errado acontece?”

Eu respondi o que sempre respondo. Que não. Que a imprensa vive de má notícia e ponto. É a vida. Não há perseguição às raves. Duvido que Folha, Estado, Veja ou Globo estejam, de alguma forma, interessadas em conter esse “movimento contracultural”.

Mas, por falar em má notícia, a pergunta de Narayhana, me fez lembrar de um assunto que eu queria ter comentado por aqui e acabei esquecendo. Algumas semanas atrás, um rodeio em Jaguariúna (interior de SP) causou comoção nacional depois que quatro pessoas morreram e dezenas ficaram feridas numa mega pancadaria.

E o que isso tem a ver com raves?

Tem a ver que Jaguariúna, cidadezinha orgulhosa de seus rodeios, é uma das poucas a proibirem terminantemente a realização de raves.

Dá o que pensar, não?

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A tenda do Kassab

Publicado em De Quinta por Tomás Chiaverini em Junho 4, 2009

Do ponto de vista dos dirigentes municipais, a população de rua é uma tremenda sarna pra se coçar. Um problema dos mais irritantes porque aparece, salta aos olhos das classes média e alta, não está relegado às periferias. Quer coisa mais deprimente do que sair de uma butique na Oscar Freire e quase tropeçar num sujeito sujo, fedido, e esfarrapado que dorme na calçada?

Além de aparecer, contudo, o “problema” da população de rua irrita também pela impossibilidade de ser solucionado definitivamente. Não existe, que eu saiba, cidade no mundo que não tenha de conviver com “mendigos”. E não há um assistente social em sã consciência que afirme ter uma saída viável.

Há os albergues, que acolhem essas pessoas, mas que também estão longe de ser completamente eficientes. No caso de São Paulo, por dois motivos básicos. Primeiro, não há vagas suficientes. Segundo, há regras. E este último fator é válido para qualquer lugar do mundo.

Após um tempo vivendo nas calçadas, em total desapego, numa miséria que é a condição de maior liberdade possível, são poucos os seres humanos que voltarão a se submeter às regras sociais. E vale dizer que, em certos albergues, essas regras são militarmente rígidas. A opção pela liberdade, portanto, é o principal argumento daqueles que se recusam a ser abrigados.

Por isso, achei positiva a medida da prefeitura paulistana, que resolveu instalar uma tenda de 100 metros quadrados no Parque Dom Pedro II, no centro da cidade, local de maior concentração da população de rua. O espaço ficará aberto 24 horas por dia. Os desabrigados poderão dormir por ali, e, mais importante, entrar e sair à vontade. A tenda ferecerá banheiro e assistentes sociais que, eventualmente, poderão encaminhar interessados a albergues. Não haverá restrição ao fumo, à bebidas alcoólicas e à presença de animais.

A medida, que será implementada dentro de duas semanas, é polêmica. Já está sendo apontada por alguns como paliativa. É implementada por uma gestão que não tem as condutas mais humanitárias neste setor e que, inclusive, tem fechado albergues no centro da cidade. Mas, em dias de temperaturas tão baixas, não há como negar o principal: a tenda pode efetivamente salvar uma porção de vidas.

Como os livros são vendidos?

Publicado em De segunda por Tomás Chiaverini em Junho 1, 2009

Essa é uma pergunta que me acompanha desde que lancei o Cama de Cimento, nos idos de 2007, época distante, em que eu seria incapaz de postar este texto num blog sem ajuda de um especialista.

Esmiuçando a pergunta: o que faz com que alguém entre numa livraria e resolva comprar o livro de um autor completamente desconhecido?

E antes que você debande achando que esta é mais uma daquelas listas de perguntas não respondidas, já me adianto e digo que se acalme, caro leitor, pois, sim, eu tenho uma resposta. Uma resposta parcial. Meia resposta, talvez.

O tempo urge, o mundo roda, Lugo copula e Kim Jong-il ameaça pôr um fim em tudo isso. Mas, novamente, peço calma. Aceitando a hipótese de que você, leitor, seja parte da população economicamente ativa, ouso dizer que alguns instantes a mais, gastos neste texto cheio de malabarismos de baixa qualidade literária, não trarão grandes prejuízos para o PIB deste nosso impávido colosso.

Pois bem, um passo atrás para tentar responder a pergunta. Ou a metade da pergunta. Três quartos, diria eu. E apesar de minha matemática falha, proponho uma divisão. Não da pergunta ainda, mas dos livros.  Livros de ficção pra um lado e livros de não-ficção para o outro. Todos acompanhando? Não? Pois bem. Vamos à não-ficção.

Esses, num primeiro momento, são mais fáceis de se vender. Pelo simples motivo de que, geralmente, há uma parcela da população que tem  interesse específico pelo assunto retratado. Tomemos o exemplo deste que vos escreve.

No caso do meu primeiro livro, Cama de Cimento, calculo que haja algo como 13,7 sociólogos que se interessem pelo tema retratado, a população de rua (que a maioria dos mortais quer mais é esquecer). No caso do segundo, Festa Infinita, há centenas de milhares de ravers que podem ser vistos como potenciais interessados.

Aí temos, portanto, metade da pergunta respondida. Os interessados entram na livraria, se deparam com seu assunto predileto e se arriscam a comprar.

Agora vamos ao outro um quarto. Que não é um quarto de verdade, porque agora podemos juntar tudo novamente. Ficção e não-ficção. A coisa está ficando um pouco confusa, mas não importa. A essas alturas acho que não há mais ninguém me acompanhando. Textos para a internet têm de ser curtos e objetivos, não longos e confusos como este.

Mas, agora não há remédio. Vamos até o final. Juntamos tudo. Porque, por mais ravers que haja no Brasil, acho pouco provável que eles compareçam em massa às livrarias e façam o livro se tornar um sucesso de vendas. Para isso, é necessário que o livro rompa a barreira de seu circulo de aficionados. É preciso que atraia leitores que se interessem apenas pela leitura, como no caso dos livros de ficção. É isso. É preciso atrair pessoas que gostem de ler. Ponto. Aí voltamos ao um quarto da pergunta, ou da resposta, mas que, na verdade, não é um quarto, porque juntamos tudo. Santos contorcionismos mentais, Batman!

Mas, enfim, há alguns seres estranhos que realmente entram na livraria e compram um livro de um autor desconhecido. Seja ele de ficção ou de não-ficção. Essa é a parte que vai ficar sem resposta.

A outra forma de se vender livros é através daquilo que os marqueteiros chamam de mídia espontânea. Matérias sobre o livro. Exemplo disso é o estrondoso sucesso de Chico Buarque no mundo das letras. Não que ele não o mereça, nem tenha talento para isso. Mas, num primeiro momento, seus livros vendem porque ele é o Chico. E o simples fato do Chico lançar um livro é notícia.

Nós, que não somos o Chico, vamos nos espalhando em notas, entrevistas e resenhas. Nada de capa da Ilustrada, mas muitos textos bacanas. Desde o lançamento, toda semana sai alguma novidade sobre o livro. Algumas, bem bestas. Outras pra encher a gente de orgulho, como esta, escrita por Luiz Felipe Carneiro, jornalista carioca especializado em música.

Ufa, esse foi difícil! Alguém teve a manha de chegar ao final junto comigo?

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J.M. Coetzee

Publicado em Uncategorized por Tomás Chiaverini em Maio 28, 2009

Alguns posts atrás, falava eu sobre o fascinante mistério feminino que paira sobre os contos de Miranda July. Depois, como também disse na ocasião, embarquei em outros contos, da nossa Lygia Fagundes Telles. Também femininos, apesar de um pouco mais duros. Mas me agradaram.

Assim, estava eu em meio a toda essa faceira feminilidade literária, quando, na semana passada, resolvi mergulhar no romance “Juventude”, do prêmio Nobel moçambicano, J.M. Coetzee. Já estava em falta com o sujeito fazia tempo e essa foi minha estréia no mundo deste, que é considerado um dos maiores escritores vivos.

E nossa!, quanta masculinidade. Não aquela masculinidade rude de Hemingway, Bukowski, Henry Miller. Nada de bebedeiras, pescarias, touradas ou trepadas em banheiros de bar (desculpem senhoritas).

A masculinidade de Coetzee está na sua inteligência cartesiana. Frases curtas, que se encadeiam numa lógica precisamente matemática, que reflete a profissão do personagem principal, um programador de computadores. Um programador com aspirações a poeta (e talvez a prêmio Nobel). Mas um programador, em 1960, uma época em que computadores eram coisa de ficção científica.

O livro é curto (184 páginas), enxuto, ágil. Uma pequena obra-prima. Mas, como bem observou uma leitora, há algo de excessivamente mental na narrativa. Excessivamente masculino, talvez. Não concordei quando estava no meio do livro. Mas quando terminei, tive a impressão de que o autor forçou um pouco a mão. Quando tudo na narrativa levava para algum tipo de redenção, ainda que modesta, a poderosa mente literária de Coetzee puxa o freio. Nos dá o final esperado, amargo, masculino.

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Das coisas que o homem busca

Publicado em De segunda por Tomás Chiaverini em Maio 25, 2009

O WordPress, provedor que mantém este blog no ar, tem uma divertida ferramenta, que está presente na maioria dos softwares semelhantes. O administrador do site, no caso eu, tem o poder de saber várias coisas sobre as pessoas que chegam a este espaço virtual.

Não conheço nunca a identidade dos internautas, mas sei até o numero de IP (espécie de RG dos computadores) das pessoas que postam comentário. Mas não é preciso postar para me oferecer informações saborosas.

Sei, por exemplo, se as pessoas chegaram no Antes da Estante clicando num link, postado em outra página da web. Também sei em que páginas, artigos ou links do meu blog as pessoas clicaram. Mas o mais divertido, caros internautas, é que tenho acesso às frases ou palavras que as pessoas digitaram nos programas de busca antes de chegar aqui.

As palavras campeãs, são as mais óbvias: “rave” (com 708 buscas), “antes da estante” (423), “tomás chiaverini” nas suas mais diversas grafias (aproximadamente 200) e assim por diante.

Mas no meio dessa imensa lista, há algumas frases e palavras que chamam atenção pelo inusitado. “Banha de peixe elétrico”, devido a uma menção no primeiro capítulo do “Cama de Cimento” é um dos hits do site. Difícil passar um mês que alguém não chegue por aqui buscando o bálsamo milagroso (agora, certamente o número vai aumentar.

Mas a campeã do non-sense, que não faço ideia de como nem por que veio parar aqui foi: “coceira – pintas pretas no clitóris”. Uma pérola internética, não?

A miséria alheia

Publicado em De Quinta por Tomás Chiaverini em Maio 21, 2009

Sou fã de José Padilha. Apesar das críticas de que Tropa de Elite é uma apologia à brutalidade policial achei um filme excelente, corajoso e necessário. Li o livro (“Elite da Tropa”) e achei o filme melhor, coisa rara.

Escrevo sobre Padilha, por conta de duas coincidências. A primeira vem do fato de que ele está produzindo um filme sobre raves. O título provisório é “Paraísos Artificiais”, e ainda não há previsão de lançamento. Ao contrário do que muita gente que conhece o trabalho do diretor supõe, o longa não será um documentário (como “Ônibus 174”), nem baseado em fatos reais (como “Tropa de Elite”). Será uma história ficcional, sobre jovens que se envolvem com drogas. As raves estarão no pano de fundo.

A equipe por trás das câmeras também será diferente da do “Tropa”. Marcos Prado, que fazia a produção, será o diretor, invertendo papéis com Padilha. Foi Marcos Prado, inclusive, que me contou tudo isso. Ao vivo e em cores, vejam só, na pista de dança do Universo Paralello.

De sunga e com um chapelão de palha, fotografava ravers para ajudar a compor seus personagens. Colhia imagens, enquanto eu colhia informações e sensações.

A segunda coincidência (por falta de termo melhor?) é uma sensação de comprometimento com os personagens retratados. No caso de José Padilha e Marcos Prado, esse laço forçado pela profissão ocorreu no último filme da dupla, “Garapa”. É um documentário sobre famílias miseráveis que, em pleno século 21, passam fome. Se alimentam de uma mistura de água morna e açúcar, a tal da “garapa”.

Numa reportagem publicada ontem pela Folha de S.Paulo, Padilha fala da terrível impossibilidade de ajudar aquelas pessoas durante as filmagens. A produção não podia distribuir comida, senão a situação se tornaria artificialmente diversa da realidade, não haveria filme. Depois, com o documentário pronto, Padilha e Marcos Prado passaram a ajudar. Enviam dinheiro para as famílias retratadas.

Senti algo parecido quando apurava o livro “Cama de Cimento”, sobre a população de rua de São Paulo. Um sentimento de cumplicidade com a sociedade que perpetua aquela miséria, mas mais do que isso. Uma impressão de que eu estava explorando aquela gente. Ouvindo suas histórias, roubava a última coisa que lhes pertencia.

No final, como quem leu o livro sabe, tentei ajudar algumas pessoas isoladamente. Não adiantou a boa vontade. Mas continuei a me sentir comprometido com o povo das ruas. E antes que o livro fosse publicado, talvez para me livrar do sentimento de culpa, me comprometi a doar metade dos meus direitos autorais.

Assim, 25% dos royalties do “Cama de Cimento” são destinados à Associação Rede Rua, e 25% à Revista Ocas.

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Festa Infinita na Transamérica

Publicado em De segunda por Tomás Chiaverini em Maio 18, 2009

Hoje à tarde a compentente assessoria de imprensa da Ediouro me ligou devido a um convite da rádio Transamérica, para que eu participasse do programa Transalouca. Não lembrei de cara do programa, mas, evidentemente, confirmei minha presença.

Depois fui lembrar de um tempo remoto, quando eu fazia faculdade, o rádio do meu carro ainda funcionava e eu costumava ouvir esse programa de vez em quando. Uma mistura de jornalismo com piadas malucas e toda aquela algazarra barulhenta da Transamérica.

Tudo isso pra dizer que, quem quiser se divertir às custas deste relativamente tímido repórter, num programa que certamente não recompensa timidez, que ajuste o dial no 100,1 (para São Paulo). O programa, ao vivo, será amanhã, das 13h às 14h.

Pelo menos é rádio e ninguém vai ver o suor porejando na minha testa. Ficarão apenas com as gaguejadas.

Desejem-me sorte.

Avante!

Publicado em De Quinta por Tomás Chiaverini em Maio 14, 2009

Pois então, caros leitores do Antes da Estante, o atormentado, suado e despudorado texto do post anterior tem grandes chances de ser o início de uma nova etapa. É isso. Enquanto o Festa Infinita se afasta para o mundo, ofereço-lhes, em primeira mão, os três parágrafos que deverão abrir meu primeiro livro de ficção.

É um romance, já tem começo, meio e fim, e estende-se por pouco mais de 180 páginas. Escrevi o primeiro rascunho há cerca de quatro anos, e desde então venho trabalhando nele de forma intermitente.

Durante um ou dois meses, releio, reescrevo e lapido alguns trechos. Depois deixo descansando, para retomar o processo mais tarde. Esses períodos de trégua são importantes, pois permitem um maior distanciamento crítico do texto, e também dão tempo para que o autor amadureça, adquira novas referências na literatura e no mundo.

Agora, quando o burburinho entorno do Festa Infinita vai diminuindo, peguei novamente no texto que esteve parado por quase um ano. Tenho mudado muita coisa. E acho que estou saindo com a versão definitiva que, se tudo der certo, logo estará numa livraria perto de você.

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Publicado em Uncategorized por Tomás Chiaverini em Maio 12, 2009

Alto Solimões

O vento quente entra pelas frestas da parede de madeira e balança a lâmpada  amarelada que nos cobre com uma luminosidade esmorecida de esquecimento. Ela ainda dorme onde a joguei horas atrás, no chão sujo de taboas separadas da palafita. Ouço o rio que corre alguns metros abaixo, que corre marrom e fluorescente, devagar, quase imperceptível — massa infinita de água a se deslocar constantemente.

Eu a agarrara pelos cabelos enquanto ela esfregava o corpo ondulante, suado e macio sobre mim, enquanto ela se contorcia e respirava como se o ar quente e úmido do Amazonas não fosse suficiente para saciá-la, como se ela queimasse por dentro e precisasse de mais oxigênio, de cada vez mais oxigênio para aumentar o calor da caldeira que se instalara em suas entranhas, de cada vez mais oxigênio para alimentar a combustão que eu lhe causava, para lubrificar seu calor que me apertava e no qual eu mergulhava com raiva e sem escolha. Eu a agarrava pelos cabelos, a odiava e me afundava dentro dela só para me esquecer. Eu estava pagando, mas era ela que gostava. Gemia e respirava mais aquele ar oco de quente, e eu a puxava mais, para perto e para longe, mas ela não percebia, respirava e ondulava violentamente derrubando gotas ferventes de seu suor dentro dos meus olhos.

Eu não imaginava que ela fosse tão leve nem que meus braços pudessem lançá-la ao chão com tanta força. Na parede. Na verdade ela bateu na parede de madeira antes, e toda a palafita balançou. Ela bateu na parede e depois caiu no chão, como uma meia suja que tivesse sido largada na cama por engano e encontrada na noite seguinte após um dia longo de trabalho. Ela caiu no chão, nua e suada, escorregadia, com os cabelos cobrindo o rosto; mas não o suficiente para esconder seus olhos pretos que me encaravam com dúvida, com uma certa ressaca de prazer e com medo

Uma estranha moça chamada Miranda July

Publicado em De Quinta por Tomás Chiaverini em Maio 7, 2009

Ah, as mulheres, suspirei eu ao terminar a última página de um fascinante livrinho chamado “É claro que você sabe do que estou falando”, escrito por Miranda July. Elas são tão poucas nesse mundo das letras, pensei comigo mesmo, mas quando se metem a escrever, nossa!, fazem a diferença.

Depois lembrei das últimas com as quais mantive certa intimidade (intimidade literária, deixemos claro). Clarice, evidentemente, Marguerite Duras, e até Charlotte Roche, aquela guria de gosto duvidoso, que escreveu o best-seller “Zonas Úmidas”. Com esta última, confesso que tive apenas um flerte rápido, num daqueles pufes da livraria Cultura do Conjunto Nacional.

São poucas mesmo, concluí. E voltei a pensar em Miranda, e no que realmente me fascinara no seus contos. Não consegui ir muito longe, porque, infelizmente, fui equipado apenas com um tosco, lógico e limitado cérebro masculino. Mas cheguei à vaga conclusão de que o fascínio vinha justamente desse olhar incrivelmente feminino. Um olhar tão feminino que chega a distorcer nosso embrutecido mundo masculino. E essa distorção vai criando uma aura de estranhamento que talvez seja a maior qualidade do livro.

Eu já havia tido contato com o trabalho da moça, no filme “Eu, você e todos nós”, escrito, dirigido e protagonizado por ela. O filme, estranhíssimo, também me fascinou na época, mas, enfim, é cinema, duas horas e pronto, vamos tomar um café, pensar em outra coisa.

Agora, reencontrar toda aquela estranheza durante alguns dias, é outra história. No fim, acabei pegando tanto gosto pela coisa, que corri até a prateleira da Dri e me muni de dois volumes de Lygia Fagundes Telles. Até agora estou satisfeito. Não é nada tão femininamente bizarro como Miranda, mas há algum estranhamento.

PS: a fim de não cobrir meus estimados leitores de tédio, me arriscarei a uma maior diversificação no assunto dos posts. Em breve é provável que tenhamos mais mudanças no Antes da Estante.

O que o livro “Festa Infinita – o entorpecente mundo das raves” não é?

Publicado em De segunda por Tomás Chiaverini em Maio 4, 2009

Semana passada, recebi uma proposta um tanto inusitada do site Factóide. Pediram que eu fizesse uma pergunta para que eu mesmo respondesse. Achei bem bacana a idéia, e depois de fundir a cuca pra descolar algo que, assim como a proposta, fugisse da normalidade, me sai com esse texto que reproduzo abaixo.

Eu perguntei: o que o livro “Festa Infinita – o entorpecente mundo das raves” não é?

E eu respondi: “Festa Infninta” não é um livro moralista, não é um livro de denúncia, não se enquadra no jornalismo policial, não é sensacionalista, apesar de ser um tanto sensorial. Não é jornalismo marrom, e sim multicolorido. Não é antiético, apesar de olhar pelas fechaduras alheias. Não é uma obra que faça juízos de valor, que espalhe preconceitos ou que exponha personalidades ao ridículo. Não é um livro sobre drogas, apesar de se aprofundar no assunto. Apesar de se aprofundar até um pouco demais, na opinião de alguns.

“Festa Infinita” não  é um relato apaixonado, apesar de ter um bocado de paixão na escrita. Não é parcial, apesar de se desapegar à imparcialidade. Não é a bíblia do mundo trace. Não é o livro de cabeceira dos ravers. Não é um manual para ravers iniciantes, nem um alerta para pais preocupados. Não é apologético nem reacionário. Não é careta. Não é simples nem simplista. Não é voltado para um público alvo específico.

“Festa Infinita não é quadrado, nem retangular, nem plano. Elíptico talvez. Não é uma tentativa de ganhar dinheiro a qualquer custo. Não é uma jogada de marketing. Não é chato. Não é mal escrito. Não elabora teorias e cita pouquíssimas delas. Não é tacanho, obtuso, estreito ou careta. Não é o prefácio. Não é a orelha ou a quarta capa. Não é uma campanha publicitária, nem uma resenha de livraria. “Festa Infinita” não é ficção, apesar de ser literatura. Não é o que quem não leu anda falando.

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Festa Infinita na MTV

Publicado em De Quinta por Tomás Chiaverini em Abril 30, 2009

Atendendo a pedidos, coloco abaixo o vídeo da entrevista sobre o Festa Infinita na MTV. O áudio está levemente prejudicado, a sincronia lembra o Fucker and Sucker, mas, no fim, o que importa é a comunicação. Ou não.

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