Antes da Estante

O raro prazer de se demitir, na crônica de hoje no Nota de Rodapé

Posted in Crônica by Tomás Chiaverini on outubro 24, 2012

Seja feliz, demita-se

Eu nunca cheguei a conhecê-lo mas sempre o achei triste. A impressão vinha das vezes em que nos cruzamos pelos corredores da emissora. Era muito gordo e baixo e usava um rabo de cavalo que não dava conta de esconder o início da calvície. Caminhava com dificuldade, sempre fumando um Marlborão vermelho, exalando tédio e cansaço.

Só o vi sorrir uma vez. Na verdade foi no mesmo dia em que ouvi sua voz pela primeira vez. Estava estranhamente radiante. As mãos tremiam de empolgação, segurando um cigarro que não fazia questão de acender. O motivo? Acabara de ser demitido.

– Vou pra Bahia, deitar embaixo de um coqueiro e fumar um quilo de maconha – dizia rindo feito criança.

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O charme retrô dos bigodes de Levy Fidelix, no Nota de Rodapé

Posted in Crônica, Jornalismo by Tomás Chiaverini on outubro 3, 2012

Os Moinhos de Vento de Levy

Levy Fidelix foi o primeiro candidato a chegar ao debate da TV Cultura – realizado em setembro – com quase duas horas de antecedência. Adentrou os portões exibindo um caprichado sorriso sob o bigode preto retinto, aparentemente recém retocado de Grecim 2000. Ao contrário de seus adversários (excetuando-se, por motivos óbvios, Soninha), vestia um terno mal ajustado e uma gravata listrada, daquelas largas, de antigamente. Quando o embate começou, destilou os disparates de sempre, ainda que o famoso aerotrem tenha perdido espaço para um banco municipal. Na surreal hipótese de Levy tornar-se prefeito, o tal banco, de alguma maneira mágica, salvaria a cidade da iminente bancarrota.

Foram duas horas e meia de discursos enfadonhos e semi-afagos entre os oito candidatos, e faltavam menos de quinze minutos para meia-noite quando o mediador, Mario Sergio Conti, finalmente decretou o término do lenga-lenga. Apesar do adiantado da hora, a imprensa, que heroicamente lotava a plateia, subiu ao palco em busca de declarações. Aquela coisa de sempre: microfones, gravadores, câmeras e filmadoras disputando espaço para registrar uma declaração insossa qualquer.

Os mais assediados foram Haddad, Serra e Russomanno, líderes nas pesquisas. Mas todos, até os menos expressivos, como Gianazzi e Paulinho da Força, mereceram alguma atenção dos repórteres. Menos o pobre Levy. Nem sequer um microfonezinho se dispôs a dar voz às suas utopias tão ingênuas e divertidas.

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Corte seu próprio cabelo, pergunte-me como.

Posted in Crônica by Tomás Chiaverini on agosto 30, 2012

Emancipação Capilar

Barbeiros não sabem cortar cabelos. Pode parecer uma afirmação absurda, mas é fato. Barbeiros cortam cabelos como se fossem gramados. E cabelos não são gramados. São parte da nossa identidade, como orelhas, nariz ou sobrancelhas. Mas os barbeiros não levam isso em conta. Apenas cortam, sempre igual. Antes de começarem, quando nos sentamos nas cadeiras das barbearias (tão parecidas com as dos consultórios dentários), eles sempre perguntam como queremos o corte: mais curto, mais comprido, pentear pro lado, pentear pra trás. Mas, no fim, cortam sempre igual.

Um homem que sai do barbeiro é reconhecido à distância. E por alguns dias tem de lidar com sua personalidade homogeneizada, qual um recruta do exército ou um menino de calças curtas, obrigado a acatar os gostos capilares da mãe.

Eu sempre odiei barbeiros por causa dessa mania de deixar todo mundo com a mesma cara de bom moço. Fossem os barbeiros arquitetos e todas as cidades se assemelhariam a condomínios de Alphaville. Um mundo limpinho, arrumadinho, porém desprovido de charme e de identidade própria.

Mas cheguei a tentar algumas vezes. Em geral em barbearias razoavelmente baratas, mas nem sempre. Certa vez, num lapso de insanidade e obviamente estimulado por uma mulher, fui a um desses salões caríssimos, onde todos vestiam quimonos. Me fizeram massagem, me lavaram a cabeça com xampus aromáticos de ervas desconhecidas, me deram revistas importadas pra eu apontar o penteado ideal, cortaram os cabelos com navalha e, no fim, o resultado foi a mesma bananice de sempre.

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Aperitivo

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on julho 26, 2012

“Afinal, se o método científico não é capaz de explicar algo tão abundante e natural como a vida, subitamente me pareceu uma idiotice tentar lançar mão dele para desvendar algo tão raro e incerto como a vida após a morte. E se a boa, velha e simples comunicação verbal nos tem causado tantas tragédias ao longo do tempo, como ser prepotente a ponto de tentar entender a linguagem não dita de ondas cerebrais pescadas no éter dos inconscientes?”

Todas as proibições do Kassab, no Nota de Rodapé

Posted in Crônica by Tomás Chiaverini on julho 25, 2012

Esquadrão da gema mole

Eis que o Kassab resolveu restringir a distribuição de sopa para moradores de rua. A medida absurda virou uma bola de neve nas redes sociais, organizou-se um sopaço na frente da casa do prefeito e as autoridades, um olho na sopa outro nas eleições, trataram de voltar atrás. De qualquer forma, mais uma vez veio à tona essa mania de proibir tudo, que parece parte do DNA Serra/Kassab, que está deixando o mundo mais chato e que, ao mesmo tempo, pavimenta um caminho perigoso.

As leis deveriam ser feitas no intuito de manter nossa espécie agressiva e autodestrutiva num estado mínimo de harmonia. Os reacionários tendem a confundir as coisas. Acham que elas têm a função de deixar o mundo mais limpinho e arrumado, parecido com alguma ideia pré-concebida de paraíso que lhes tenha sido inculcada na infância.

Quando eles são levados a sério, criam-se leis estúpidas que diminuem a liberdade dos homens, quando, na verdade deveriam fazer justamente o contrário. Deveriam ser construídas de modo que cada um pudesse desfrutar o máximo de liberdade sem causar grandes prejuízos aos vizinhos (algum prejuízo é inerente à existência). Em outras palavras, a liberdade de um termina quando começa a liberdade do outro.

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Crônica do mês, no Nota de Rodapé

Posted in Crônica, Jornalismo by Tomás Chiaverini on junho 22, 2012

Daqui a pouco você volta pro Face

Um gordinho me ultrapassou na fila do quilo. E o pior é que eu não estava empacado na área de saladas, lutando com um ovo de codorna, impedindo que ele chegasse logo ao Penne Alfredo. Se fosse assim, haveria alguma licitude. Mas não. Meu prato já estava montado, salada temperada, no caminho diagonal da balança, quando o gordinho, de repente, me ultrapassou.

Incrédulo diante de tamanho descaso para com as convenções gastronômicas, parei e encarei ostensivamente o sujeito, que aparentemente nem se deu conta. Era um baixote atarracado, flácido e suado, o que me alimentava a vontade de aplicar-lhe um tabefe ao pé da orelha. Claro que não fiz nada, nem sequer lhe cutuquei o ombro reclamando, e o almoço transcorreu burocrático e insosso como sempre.

Mas o fato é que tive vontade. Principalmente porque senti minha masculinidade, meus direitos, meu espaço vital sendo conspurcados pela pressa do gordinho. Diante de sua rotunda circunferência eu poderia me acalmar pensando que era gula, algum desequilíbrio hormonal, compulsão alimentar. Mas não creio que tenha sido fome o motivo do homenzinho ter se prestado a tão desprezível papel social. Ele queria ganhar tempo, isso sim.

Queria pesar logo o prato, ir logo pra mesa, comer logo, pagar logo, voltar logo pro trabalho, pegar logo o carro, ir logo pra casa, tomar banho logo, jantar logo, trepar logo na mulher, gozar logo, dormir logo, acordar logo, tomar café logo, ir logo pro trabalho no dia seguinte, sair pra almoçar logo…

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Ode aos burocratas, na crônica do mês no Nota de Rodapé

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on maio 16, 2012

Contraponto

Caro rato de gabinete, homo sapiens de bunda murcha, barriga pochete e pinto encollhido. Caro gestor de recursos humanos, sapato e certezas quadradas, ser de mente obtusa, operador de Excel, comedor de bandejão, cheirador de ar-condicionado. Em suma, caro burocrata. Este texto foi escrito para você.

E pela paciência dos que agonizam na fila do INSS, pela alma dos que sonham com o seguro desemprego, pelo tempo desperdiçado dos que surfam no site da Receita, espero que essas linhas tenham o efeito de uma escarrada no café morno e melado que você ingere em dozes homeopáticas pra alimentar a azia.

Atenção, caro burocrata, tire o olho do jogo de paciência e preste atenção!
Porque a revelação a seguir abalará as estruturas de seu intelecto de ondas curtas, dissolverá a cola de seus post-its, desbotará o azul Royal de suas esferográficas. Pois o fato, caro engravatado analógico, é que o relógio de ponto, esse objeto tão idolatrado por sua raça, esse instrumento de dominação, controle remoto dos assalariados não controla realmente nada.

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Desodorantes, na crônica do mês no Nota de Rodapé

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on abril 19, 2012

Pelas Axilas de Ícaro!

Não é de hoje que o povo da publicidade exagera. É o trabalho deles, afinal. Criam um mundo de fantasia onde o produto em questão, seja ele um carro esporte ou um adesivo para dentaduras, nos tornará mais felizes.

Às vezes a gente até finge que acredita. Até espera que, quando o garçom chegar com a cerveja, o bar será imediatamente tomado por gostosas decotadas, piscando os cílios compridos e mandando beijinhos. Mas, no fim, a gente sabe que vai acabar cercado pelos mesmos amigos barbados e barrigudos de sempre. Até aí tudo bem, há que se ter alguma fantasia na vida, ainda que apenas nos trinta segundos do comercial de cerveja.

Mas tudo tem limite.

E outro dia, enquanto escovava os dentes no meu pequeno e reconfortante banheiro, fui atingido por uma epifania. O limite há muito havia sido rompido.

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Crônica do mês, no Nota de Rodapé

Posted in Crônica by Tomás Chiaverini on março 22, 2012

Aula de humildade com o professor Aziz Ab’Saber

Há cerca de dez anos o anfiteatro da faculdade de geografia da USP estava lotado de jovens barbudos e cabeludos, garotas de saia indiana e sandálias de couro, pós-adolescentes ainda brigando pra se livrar das espinhas no rosto. Centenas de estudantes de várias turmas que se juntavam para ouvir o geógrafo Aziz Ab’Saber.

Tratava-se de uma aula especial. Não propriamente pelo conteúdo, mas porque Aziz era uma lenda do departamento, tido por muitos como o maior geógrafo brasileiro em atividade, um dos maiores do mundo. Além disso, estava aposentado e não lecionava mais para graduação.

Quando ele entrou, pouco depois das sete da noite, todos os lugares estavam ocupados. Havia estudantes em pé, outros sentados nos degraus, entre a plateia. Na época, Aziz já aparentava uma saúde frágil. Sofria com problemas de visão e andava devagar, encurvado pelo peso das quase oito décadas enfileiradas.

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O alter ego feminino de Chiaverini, na revista Piauí 65

Posted in Jornalismo, literatura, Piauí by Tomás Chiaverini on fevereiro 14, 2012

O segredo de Paulinha

Como uma garota do outro mundo fez mil amigos em dois meses

por Tomás Chiaverini

Paula Merkell é moderna, descolada e sutilmente misteriosa. Formada em moda, está no auge dos 28 anos e é muito popular. Em seu perfil do Facebook, solicitações de amizade pululam como flashes num show do Restart. Em dois meses foram cerca de 100, acompanhadas por flores virtuais, poemas e saudações enviados por amigos pixelizados de todo o país. Para os mais próximos, a notícia a seguir será um tanto dolorosa: sim, Paula Merkell não existe.

A musa não passa de uma marionete eletrônica de breve existência. Diferentemente de outros perfis falsos que se multiplicam pela rede, o de Paulinha não pretendia promover marcas, xeretar a vida alheia, buscar alvos para crimes ou colher dados para campanhas promocionais. Foi criado com o propósito único de amealhar mil amigos, meta que cumpriu em 56 dias.

Aos marmanjos que insistiram para a jovem postar fotos pessoais, causará mais aflição saber que a pessoa no comando de Paulinha é homem. Mas que não se martirizem. O avatar da jovem foi criado para figurar como um pires de mel ofertado aos súditos de Mark Zuckerberg. As pequenas armadilhas começaram já na escolha do nome. Brasileiro, simples e despojado, secundado por um sobrenome forte, emprestado da chanceler alemã Angela Merkel, com um “L” a mais no final, para minimizar o risco dos homônimos.

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Crônica de estreia no Nota de Rodapé

Posted in Crônica by Tomás Chiaverini on fevereiro 8, 2012

Ressaca, Michel Teló e Times New Roman

Pretendia escrever sobre um filme. Comecei até. Ia ser um texto legal, descolado, com tiradas de humor.

No final ia ter uma co-relação com o título da coluna que, como a Helena me disse com a sinceridade anabolizada por meia garrafa de vinho, não é dos melhores.

Mas eu ia escrever porque é o que gosto de fazer, porque a ideia parecia boa, porque me comprometi com um amigo. Comecei a escrever, até. Mas estava ficando uma merda.

Não uma completa merda, mas uma merda razoável. Talvez vocês lessem e achassem bacana, se divertissem, curtissem ou até, honraria maior das redes sociais, compartilhassem no mural do Facebook. Mas o fato é que estariam lendo apenas uma merda razoável.

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As surreais lições de Zé do Caixão, na Piauí 61

Posted in Jornalismo, Piauí by Tomás Chiaverini on outubro 17, 2011

O doce mais doce que o doce

As lições gasosas de Zé do Caixão para aprendizes de detetive

por Tomás Chiaverini

Apertados em carteiras de fórmica bege, os 38 aspirantes a detetive particular silenciaram assim que Zé do Caixão adentrou a sala de aula. Passava um pouco das 10 horas de um sábado. O sol entrava pelos janelões e diminuía a aura macabra do cineasta, levemente encurvado aos 75 anos. As unhas longuíssimas, encardidas e retorcidas – seu traço distintivo mais marcante – haviam sido cortadas duas semanas antes. Ele tampouco trajava a característica capa preta sobre a camisa. Mas isso não impediu que, ao lado do quadro-negro, José Mojica Marins atraísse total atenção dos alunos do Instituto Universal dos Detetives Particulares, no Centro de São Paulo.

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Loyola, Verissimo e Zuenir, na revista piauí 60

Posted in Jornalismo, literatura, Piauí by Tomás Chiaverini on setembro 19, 2011

Os feirantes

No novo cenário das letras nacionais, Loyola Brandão, Verissimo e Zuenir Ventura dão autógrafos, apertam mãos, sorriem e tiram fotos

por Tomás Chiaverini

gnácio de Loyola Brandão subiu nas asas da fama aos 8 anos de idade, quando matou os sete anões e libertou Branca de Neve da escravidão doméstica. O crime ocorreu num exercício de redação no qual a criançada imaginava finais alternativos para as histórias que lia. No de Loyola, a heroínaliquidou os baixotes com uma sopa de cogumelos venenosos e viveu feliz para sempre.

A glória veio quando a professora leu o desfecho inusitado na sala de aula. Bastou Dunga, Zangado e companhia caírem mortos para que, com uma gargalhada em uníssono, todos voltassem os olhos de admiração para a última fileira, onde o introvertido autor costumava se sentar.

“Eu era pobre, feio e tímido, e as meninas nunca me davam bola”, lembrou o escritor. “Mas naquele momento me senti olhado e, inconscientemente, decidi que a literatura seria o meu caminho. Foi também meu primeiro momento de celebridade, quando a classe saiu no recreio espalhando: ‘O Ignácio matou os anões! O Ignácio matou os anões!’”

Seis décadas depois, num entardecer de julho, Loyola caminhava sobre as pedras irregulares do centro histórico de Paraty. Em meia hora, subiria ao palco da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), o festival de Cannes da literatura brasileira. Aos 74 anos, quase cinquenta como escritor, garantiu que estava tão nervoso quanto naquela manhã em Araraquara, quando a professora leu sua redação em voz alta para os colegas. “Eu sempre fico tenso antes de me apresentar”, gesticulou com os óculos na mão. “E se não fico, sai uma merda.”

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Conheça a rede de TV árabe Al Jazeera, na edição 49 de Retrato do Brasil

Posted in Jornalismo by Tomás Chiaverini on agosto 16, 2011

 As Batalhas da Al Jazeera

A emissora árabe, que ficou famosa após divulgar vídeos de Osama bin Laden, foi bombardeada pelos EUA, teve um cinegrafista preso em Guantánamo por sete anos, desempenhou papel determinante nas recentes revoltas do Oriente Médio e recebeu elogios de Hillary Clinton

por Tomás Chiaverini

NO INÍCIO DE  2003, a Guerra do Iraque monopolizava o noticiário internacional. Sob o argumento de que o ditador Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa, o governo de George W. Bush iniciara uma pesada ofensiva contra o país árabe. A operação avançou rapidamente e 20 dias após o início do conflito tropas norteamericanas cobriam a cidade de Bagdá com uma intensa chuva de mísseis.

No escritório da rede de TV Al Jazeera na capital iraquiana, ouvia-se uma interminável sequência de explosões e disparos, como se a guerra fosse invadir o local a qualquer momento. Enquanto parte da equipe da emissora queria subir ao telhado do prédio para registrar a troca de tiros, o produtor sênior Samir Khader continha os ânimos, pedindo que esperassem o combate se afastar. Durante algum tempo, técnicos, produtores e repórteres apenas ouviram os estrondos e estampidos. Quando o conflito pareceu arrefecer, Khader ordenou que o correspondente Tarek Ayub e um operador de câmera subissem à cobertura.

Minutos mais tarde a transmissão teve início, mas tudo que se via na sala de edição era a imagem do correspondente sentado no chão, com as costas apoiadas contra uma barricada de sacos de areia. Usava um pesado capacete de combate e um colete à prova de balas azul-escuro, que lhe cobria o tronco até o pescoço. Trazia no rosto uma expressão tensa, mistura de medo, incompreensão e ansiedade.

Da sala de controle, o editor ordenou ao cinegrafista que deixasse de filmar o repórter, voltasse as lentes para a rua e procurasse mostrar cenas do bombardeio que destruía a cidade. O técnico obedeceu e passou a procurar imagens aleatoriamente.

Enquanto isso, outro corresponde da Al Jazeera na cidade, ao telefone com um editor, avisou que um caça norte-americano se aproximava da emissora com o nariz baixo, numa manobra característica de ataque. O cinegrafista que estava com este segundo correspondente acompanhou o voo rasante da aeronave e registrou o momento em que três pequenos pontos incandescentes se desprenderam do caça. Três mísseis lançados simultaneamente. Um deles atingiu em cheio o telhado do escritório da Al Jazeera, matando na hora o correspondente Tarek Ayub e ferindo o operador de câmera.

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Confira o site da Retrato 

Campeonato de cubo mágico, na polêmica Piauí 59

Posted in Jornalismo, Piauí by Tomás Chiaverini on agosto 15, 2011

Cada um no seu quadrado

É de Uberlândia o recordista sul-americano de montagem de cubo mágico

por Tomás Chiaverini

ara os pobres de espírito, o cubo mágico é um brinquedo dos mais irritantes. Tentativas obstinadas para deixar cada um de seus seis lados com quadradinhos da mesma cor não costumam render mais do que horas perdidas e frustração. A maioria desiste e larga numa gaveta qualquer o quebra-cabeça endiabrado. Os mais arrebatados destroem o cubo a marretadas ou arremessam-no contra a parede, num compreensível acesso de ira.

Mas, assim como existem aqueles que conseguem assoviar, estalar os dedos, mexer as orelhas ou dobrar a língua, há também uma elite privilegiada capaz de resolver o quebra-cabeça com certa facilidade. Pior: há cidadãos que desembaralham o tinhoso com uma rapidez de dar raiva aos reles mortais. O australiano Feliks Zemdegs, o mais ligeiro do mundo na solução do cubo mágico, ajeitou certa vez os seis lados em espantosos 5,66 segundos – pouco mais de metade do tempo que o jamaicano Usain Bolt levou para bater o recorde dos 100 metros rasos. Zemdegs tem 15 anos.

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Avesso, no jornal A Gazeta

Posted in Avesso by Tomás Chiaverini on junho 20, 2011

Escritor se equilibra entre ficção e realidade

 Com dois livros-reportagem no currículo, Tomás Chiaverini faz sua estreia na ficção

Tiago Zanoli
tzanoli@redegazeta.com.br

Basta uma olhadela pela história de Tomás Chiaverini para perceber que ele é movido pela necessidade de estar em constante movimento, de descobrir novos lugares e diferentes personagens. Há sete anos, por exemplo, ele mal concluíra o curso de Jornalismo, quando decidiu aventurar-se pelo Norte do país à procura de histórias que lhe rendessem boas reportagens.

Passou cinco meses entre Amazonas, Pará e Roraima e, de lá, escreveu como freelancer para as revistas “Carta Capital” e “Caros Amigos” e a Agência de Notícias Brasil-Árabe.

O melhor fruto dessa experiência, no entanto, chega bem mais tarde, com a publicação do romance “Avesso”, lançado recentemente pela editora Global. Na obra, Chiaverini joga o tempo inteiro com ambiguidades, se equilibrando no tênue limite entre ficção e realidade, entre jornalismo e literatura, ao narrar (em primeira pessoa) a viagem de um jovem jornalista recém-formado pela região amazônica.

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O trabalho dos flanelinhas, na revista Retrato do Brasil

Posted in Jornalismo, Retrato do Brasil by Tomás Chiaverini on junho 17, 2011

Se Essa Rua Fosse Minha

À margem da lei, os flanelinhas atuam nas grandes cidades sob o olhar desconfiado dos motoristas e sem o respaldo do poder público

Por Tomás Chiaverini

É noite no bairro boêmio da Vila Madalena,em São Paulo. Um“x” de fita reflexiva laranja sobre a camiseta pólo veste Alemão, 21 anos, que se posta ao lado de uma vaga vazia e espera. Quando percebe algum motorista à procura de vaga, assobia e depois gesticula, ajudando na baliza. Assim que o motorista sai, informa que zelará pelo automóvel até às 2h. Mais tarde, quando o “cliente” volta, corre até perto do carro e espera pelos trocados que lhe garantem o sustento.

À primeira vista, o trabalho de Alemão parece bastante simples. Tão simples que, muitas vezes, nem sequer é visto como uma profissão. Foi esse argumento, por exemplo, que fez com que a prefeitura de Porto Alegre (RS) interrompesse, no início de 2010, um projeto de regulamentação da função de guardadores de carro, iniciado em 2009.

A baixa adesão dos flanelinhas – apenas 70 se cadastraram – foi um dos motivos para a interrupção do projeto. Mas o fator determinante, de acordo com o governo municipal, foi o fato de que os guardadores não colaboram para o aumento da segurança e não há demanda real pelo trabalho que oferecem. Para a Prefeitura de Porto Alegre, portanto, não faz sentido legalizar e fiscalizar um serviço que não deveria existir.

Essa aparente simplicidade esconde, contudo, um sistema complexo e intrincado de um fenômeno presente na maioria das metrópoles do país. Grande parte dos flanelinhas atua sempre na mesma área. Ao longo do tempo, eles descobrem os hábitos dos moradores e do comércio local, tornam-se conhecidos e ganham confiança. Apoiam e recebem apoio dos demais trabalhadores. Inserem-se no ecossistema urbano e frequentemente acabam dominando regiões inteiras da cidade.

Alemão, por exemplo, é praticamente dono da quadra onde trabalha, na rua Mourato Coelho, entre a Inácio Pereira da Rocha e a Aspicuelta,em São Paulo. Seudomínio sobre aquela área específica foi construído ao longo de onze anos. Hoje, ele sabe de cor a rotina de cada morador e conhece bem todos os outros guardadores de carro da região, o que lhe permite atuar com calma e segurança. Numa sexta-feira de fevereiro, a Retrato do Brasil acompanhou o flanelinha durante as cerca de 8 horas que sua noite de trabalho durou.

A jornada começou pouco depois das seis da tarde. Antes disso, ele havia levado cerca de 50 minutos para viajar de ônibus do Taboão da Serra (região metropolitana de São Paulo) a Pinheiros. Veio acompanhado da mãe, Simone, 34 anos, e de dois irmãos – H., de nove anos, e T., um bebê de um ano e meio. Simone faz questão de acompanhar o trabalho do filho mais velho.

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O crack e o trabalho de redução de dano, na revista Retrato do Brasil

Posted in Jornalismo, Retrato do Brasil by Tomás Chiaverini on junho 15, 2011

Dos Males o Menor

Por Tomás Chiaverini

Pedestres, Policiais militares e guardas-civis não reparam no garoto de uns oito ou dez anos que fuma crack na esquina da rua dos Gusmões com a avenida Rio Branco, no centro de São Paulo. Mesmo assim, ele está sempre atento, pronto para se esconder ou fugir, escapulindo para algum cortiço ocupado da região. Tanto que, quando o redutor de danos Marco Fuentealva se aproxima para conversar, ele se protege feito um avestruz, cobrindo a cabeça com um moletom azul-encardido.

Sorridente e bonachão, Fuentealva não se aflige com a postura arredia do menino e segue adiante. Vestindo a camiseta amarela do Centro de Convivência É de Lei (uma das primeiras ONGs a fazerem redução de danos no Brasil), embrenha-se num grupo com duas dezenas de pessoas maltrapilhas e sujas, cobertas de feridas nos rostos, braços e mãos. Quase todos estão agarrados a pequenos cachimbos de metal e observam o entorno com um olhar de desespero e incompreensão.

Aos poucos vão percebendo a presença de Fuentealva e de sua parceira de trabalho e se aproximam formando um pequeno aglomerado. Não há muito espaço para conversa. Todos já conhecem a rotina, repetida duas a três vezes por semana: avançam, pegam uma piteira de silicone, um batom protetor labial à base de calêndula e logo voltam a se afastar, acomodando-se pelos cantos da calçada suja.

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Na revista piauí deste mês

Posted in Jornalismo, Piauí by Tomás Chiaverini on junho 13, 2011

As aves que aqui não gorjeiam

Um ornitólogo holandês busca algo que cante em São Paulo

por Tomás Chiaverini

O sábado amanheceu nublado como num conto de Edgar Alan Poe. No Parque Villa-Lobos, às margens da Marginal Pinheiros, apenas dois ou três valentes paulistanos desafiavam o frio e trotavam, orgulhosos, com o peito estufado de saúde. Às sete da manhã, o silêncio só é cortado pelo ronco distante dos aviões, que a cada dez ou quinze minutos cruzam o céu a caminho do Aeroporto de Congonhas.

Como nenhum pássaro se dá ao trabalho de cantar em homenagem ao dia cinzento, o desânimo abate o grupo de aficionados por aves que perambula pelo parque. Metidos em calças cáqui e botas de trilha, os catorze caminham devagar, em silêncio, olhos e ouvidos atentos. Alguns levam pequenos binóculos pendurados no pescoço, outros carregam gravadores de última linha, como os usados nos filmes de espionagem.

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Atendendo a pedidos, a primeira página de Avesso, pra degustação…

Posted in Avesso, literatura by Tomás Chiaverini on março 18, 2011

Alto Solimões

Um vento quente entra pelas frestas da parede de madeira. A lâmpada amarelada balança e me resgata de um sono agitado. Ouço o rio que corre alguns metros abaixo, escuro e sorrateiro, deslizando em toda a sua magnitude. Sento na cama e vejo que ela ainda dorme tranquila, deitada no chão de tábuas da palafita.

Horas antes, eu a agarrava pelos cabelos pretos enquanto ela esfregava o corpo ondulante e suado sobre mim, enquanto ela se contorcia e respirava como se o ar úmido do Amazonas não fosse suficiente para saciá-la, como se queimasse por dentro e precisasse de mais oxigênio, de cada vez mais oxigênio para aumentar o calor da caldeira que se instalara em suas entranhas, para alimentar a combustão que eu lhe causava, para lubrificar seu calor que me apertava e no qual eu mergulhava com raiva e sem escolha. Eu a agarrava pelos cabelos pretos, a odiava e me afundava dentro dela só para me esquecer. Eu estava pagando, mas ela que gostava. Gemia e respirava aquele ar oco de quente, e eu a puxava mais, para perto e para longe, mas ela não percebia, respirava e ondulava violentamente derrubando gotas ferventes de suor dentro dos meus olhos.

Não imaginava que ela fosse tão leve nem que eu pudesse lançá-la ao chão com tanta força. Na parede. Na verdade ela bateu na parede de madeira antes, e toda a palafita balançou. Ela bateu nas tábuas de azul descascado e depois escorregou para o chão. Caiu nua e suada, escorregadia, com os cabelos lisos de índia cobrindo o rosto; mas não o suficiente para esconder seus olhos pretos, seus olhos negros que me encaravam com dúvida, com um resquício de prazer arrependido e com medo.

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